Certo dia, em uma consulta de rotina com o competente cardiologista Carlos Marconi Pazolini, a conversa, como acontece nas melhores consultas médicas, saiu rapidamente do coração e foi para assuntos muito mais importantes: comida, memória e cidade. Mais precisamente, o sanduíche americano e o milk-shake da Lanchonete Sete, na Rua Sete de Setembro. Há temas que merecem mais atenção do que triglicerídeos.
Expliquei a ele que, no meu caso, o sanduíche americano tinha adaptações técnicas: sem queijo e sem manteiga. Uma versão cardiologicamente responsável antes mesmo de qualquer recomendação médica, o que prova que às vezes o paciente tem mais medo da balança do que da doença.
Seu Carlos Pazolini, o proprietário da lanchonete, diante daquela heresia gastronômica, não discutia. Apenas mandava aumentar a quantidade de presunto e substituir a manteiga por azeite, numa solução diplomática que agradava ao cliente e não comprometia a reputação da casa. Era uma época em que o cliente ainda conversava com o dono e não com um aplicativo, o que já coloca aquele período em alguma categoria de civilização perdida.
Ir à Lanchonete Sete não era apenas fazer um lanche. Era parte da rotina da cidade. Quando eu trabalhava como jornalista no Rio de Janeiro e vinha a Vitória em férias ou em folga prolongada, havia um roteiro obrigatório: rever a família, encontrar amigos e passar na Sete. A ordem das prioridades podia variar conforme o momento político e familiar, mas a Sete sempre entrava no roteiro.
Na década de 1970, a Rua Sete era o verdadeiro centro da cidade. Antes dos shopping centers, era ali que tudo acontecia: compras, encontros políticos, jornalistas, funcionários públicos no intervalo, advogados saindo do Fórum, bancários, comerciantes, representantes. Quem quisesse resolver a vida passava pela Rua Sete. E quem passava pela Rua Sete, em algum momento, acabava parando na Sete. Era quase uma lei urbana não escrita.
A lanchonete tinha balcão comprido, com duas seções em “U”, movimento constante, café forte, sanduíche americano e o que provavelmente era, sem qualquer rigor científico e sem possibilidade de auditoria, o melhor milk-shake do mundo. Mas o principal produto não estava no cardápio: era a conversa, atividade que naquela época ainda não tinha sido substituída por mensagens de áudio intermináveis.
Ali se discutia política, futebol, eleição, governo, crise econômica, nomeação, exoneração, fofoca administrativa e resultado de licitação — tudo ao mesmo tempo e sem ata oficial. Muita notícia que depois aparecia no jornal começava ali, entre um café e um sanduíche.
Foi ali também que conheci melhor os filhos do seu Carlos Pazolini, o Carlos Marconi e o Renato, já falecido, que cresceram se revezando atrás da máquina registradora, e praticamente se confundiam com a própria história da lanchonete. Seu Carlos comandava o lugar com a seriedade de quem administrava não apenas um comércio, mas um pequeno território social da cidade, o que talvez fosse uma função mais relevante do que muito cargo público por aí.
À noite, o perfil mudava. A turma que “zanzava” pelo Centro, que saía do cinema, dos bares ou simplesmente não tinha muita pressa de ir para casa, acabava invariavelmente na Sete para saciar a larica com um sanduíche e um milk-shake. Era uma espécie de política pública informal de alimentação noturna, sem subsídio e com resultados muito mais eficientes.
Depois vieram os shoppings, o ar-condicionado, as escadas rolantes e as praças de alimentação com muitas mesas e nenhum dono conhecido. O Centro perdeu movimento, a cidade se espalhou e a vida ficou mais confortável e mais impessoal. Ganhamos estacionamento pago, iluminação artificial e música ambiente, mas perdemos o seu Carlos atrás do balcão perguntando se o sanduíche estava bom. O progresso, como sempre, resolveu alguns problemas e criou outros que ninguém tinha antes.
A Lanchonete Sete nunca foi monumento histórico, nunca teve placa nem tombamento. Mas ajudou a contar a história da cidade mais do que muito prédio oficial. Porque a história de uma cidade quase sempre acontece nos lugares onde as pessoas se encontram para conversar, discutir política, falar da vida, fazer acordos, desfazer acordos e, principalmente, perder tempo — que, olhando bem, nunca é tempo perdido.
No fundo, a Sete não vendia apenas sanduíche americano e milk-shake. Vendia convivência, informação e memória. E isso nenhuma praça de alimentação de shopping conseguiu vender até hoje, apesar do ar-condicionado, do marketing e das bandejas padronizadas.