Nos anos de 1970, chegávamos à redação de O Globo, no Rio de Janeiro, como quem entra numa igreja: passo contido, reverência ao ritual do jornalismo — terno e gravata, sapatos lustrados, crachá no bolso. Havia, claro, a contradição divertida entre a farda social e a dureza do ofício; cabelos e barbas podiam ser generosos, desde que obedecessem a um penteado que dissesse: “sou rebelde, mas pontual”.
Ao sair do elevador, para chegar à redação que na época estava localizada no segundo andar do prédio número 35 da Rua Irineu Marinho, atravessávamos um largo corredor onde estavam expostas enormes fotos históricas, premiadas: o árbitro de futebol Armando Marques sendo arremessado ao fosso do Maracanã após um encontrão com um zagueiro; Carlinhos do Pandeiro, figura conhecidíssima nas rodas de samba do Rio, fazendo alegoria com um pandeiro na avenida — num carnaval de tempos em que ainda não existia o Sambódromo construído pelo governador Leonel Brizola sob protesto global; e uma imagem marcante da evolução de sambistas representando baianas em plena avenida, uma coreografia espontânea que deu dimensão artística à cena e revelava a sensibilidade do repórter fotográfico.
As três fotos expostas no corredor eram monumentos à criatividade. Não eram apenas registros jornalísticos: eram grandes obras de arte, pedaços de sensibilidade capturados no instante exato. Mostravam o olhar afiado e quase poético dos repórteres fotográficos, capazes de transformar o imprevisto em símbolos. Imagino que, ao passarmos por elas, incorporávamos um pouco daquele espírito criativo — como se cada imagem nos lembrasse que, mesmo na dureza da profissão, havia espaço para beleza, intuição e surpresa.
Os plantões não tinham poesia: tinham nomes. Iran Frejat, Ely Moreira e Paulo Pena eram os chefes de reportagem, cada qual em seu turno. Dependendo do horário, recebíamos a ordem de um deles e desmontávamos a vida naquele instante: subir um morro às cinco da tarde, entrevistar um ministro às sete, cobrir um sequestro político à meia-noite. A redação era um teatro de improviso em que todos sabiam o texto, mas ninguém conhecia o final.
Nunca sabíamos qual seria o tema do dia até sermos atropelados por ele. Havia uma adrenalina parecida com a de quem espera o apito do trem: ou corria, ou perdia a viagem. O jornal distribuía destinos como um velho maquinista que reparte vagões — e nós éramos passageiros obrigados a saltar, mesmo que a próxima estação fosse um beco escuro.
Cumprir uma pauta num morro significava mapear um universo de ruas que só apareciam no mapa quando havia sangue ou festa. Entrevistar um ministro era exercício de paciência: o homem chegava com frases ensaiadas e a elegância de quem via o jornalismo como acessório. O contraste entre as visitas solenes aos ministérios e as corridas pelas ladeiras era, para muitos de nós, a piada preferida — e também a lição mais dura.
Quando nos mandavam cobrir um sequestro político, vivíamos uma mistura de horror profissional e fascínio jornalístico. Procurávamos pistas deixadas em lugares improváveis: bancos de igreja, banheiros públicos, bilhetes enfiados sob assentos de ônibus. Às vezes a pista era real; outras, apenas esperança disfarçada de indício.
Havia ainda o cotidiano menos heroico: assaltos a banco, que surgiam com a mesma regularidade dos ônibus municipais. Eram coberturas de adrenalina curta, em que o repórter se transformava em corvo sobrevoando o caos. Saíamos da redação com a gravata apertada e voltávamos com o sapato sujo, carregando números de ocorrência e a sensação de viver num país regido por protocolos improvisados.
Os chefes eram bons moços à sua maneira. Iran tinha o olhar que pesava o relato; Ely, a voz que calibrava a urgência, mas era o “paizão” de todos, generoso; Paulo, o riso seco antes de mandar alguém para o campo. Jornalistas competentes, homens de rotina severa e humor contido — tipos que sabiam que o jornalismo exigia coragem e tolerância para o absurdo.
Na redação, aprendíamos a domesticar o imprevisto. Levantávamos da cadeira com a mesma naturalidade com que apagávamos o cigarro e pegávamos o gravador. O mundo lá fora podia ser caótico; dentro, havia um método de resistência: checar duas, três, quatro vezes. Havia também uma ética de esquadro — a ideia de que a notícia devia chegar inteira ao leitor, mesmo que viesse cheia de farrapos.
Assistíamos a cenas que hoje caberiam apenas na memória: gente correndo com sacos de papel, telefonemas às pressas, um colega voltando com as meias encharcadas por ter atravessado um alagado atrás de um entrevistado. Ríamos do improviso como quem ri para suportar. O riso era a cola que mantinha a máquina funcionando sem explodir.
Nem tudo era glória. Havia medo, claro; e havia a sombra da censura, que ensinava a medir as palavras antes mesmo de escrevê-las. Algumas pautas chegavam com imprecisões convenientes, obrigando-nos a escolher entre a verdade nua e a versão que sobreviveria à edição. Eram escolhas pesadas, acumuladas no peito como chumbo invisível. E havia também as reportagens “recomendadas pelo patrão”, que muitas vezes jamais eram publicadas — espécie de ensaio de obediência, sem palco nem aplauso.
Às vezes tínhamos a impressão de que éramos espiões contratados. Depois de uma corrida de Fórmula 1 ou de um jogo de futebol, o telefone da redação tocava: era ele, o patrão, perguntando o resultado apenas para saber se estávamos “ligados” no que acontecia. A resposta precisava vir rápida e precisa, como se a pontualidade confirmasse nossa vigilância profissional.
Antes de ir para casa, passávamos no Vila Verde, o Cabaré dos Bandidos, um bar de iluminação verde e luz cansada, na Cidade Nova. Ali encontrávamos os colegas dos jornais O Dia e Jornal do Brasil — este ainda funcionando na Avenida Rio Branco — para uma conversa de fim de noite. Dali, às vezes, esticávamos até o Lamas, na Marquês de Abrantes; e, quando recebíamos algum extra no pagamento, íamos esnobar no Veloso, em Ipanema.
Mas o destino preferido era o Antônio’s, na Rua Bartolomeu Mitre, no Leblon — território sagrado de jornalistas, músicos e boêmios que trocavam o chope pelo uísque e as pautas pelas histórias de madrugada. Ali, o barulho dos copos misturava-se ao das risadas, e o jornalismo ganhava o sabor amadeirado das confissões à meia-luz.
Voltávamos para casa com a sensação de missão cumprida e a certeza amarga de que, mesmo assim, não havíamos fechado o livro. Às vezes a matéria virava manchete; outras, encolhia num rodapé. Ainda assim, havia orgulho: o de ter estado onde a cidade fervia, de ter testemunhado contradições, virtudes e covardias.
Mais de meio século depois, quando a memória traz de volta as cenas, o que mais fica não são apenas as pautas, mas as pequenas cerimônias da profissão: o cheiro do jornal impresso, a risada abafada entre corredores, o gesto de estender a mão a um colega exausto.
O tempo passou, e com ele vieram as telas, os algoritmos e as urgências digitais. Os computadores tomaram o lugar das velhas máquinas de escrever, é verdade. Só esqueceram de criar uma tecla para o faro — e um antivírus capaz de conter o ego de certas fontes.
Hoje, me divirto na redação do meu portal de notícias www.vitorianews.com.br — um espaço onde tudo parece novo, mas o velho instinto jornalístico ainda pulsa. A tecnologia mudou, a pressa é outra, a tela substituiu o papel, e o café virou notificação. Mas a arte de apurar uma matéria continua sendo a mesma; o que mudou foi a forma de distribuí-la.
No fundo, a essência permanece — esse fio invisível que liga a gravata apertada dos anos 1970 ao clique apressado de 2026.