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Opinião Pública

O cidadão invisível - finalmente capturado pela estatística

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

24/03/2026

Por Marcelo Rossoni


Aconteceu.

 

Depois de uma vida inteira atravessando ruas, calçadas, eleições e manchetes - sempre com opinião formada e título de eleitor em dia - fui, enfim, alcançado pela ciência estatística. Não por acaso, não por engano, não por erro de discagem. Fui selecionado.


O telefone tocou.


 Atendi sem grandes expectativas, como quem já aprendeu que ligações inesperadas costumam ser cobrança, oferta de internet mais lenta do que a atual ou convite para trocar de operadora mantendo exatamente os mesmos problemas.


Mas não.


Do outro lado, uma voz educada, protocolar, dessas que parecem treinadas para não demonstrar emoção nem diante de um empate técnico, anunciou: tratava-se de uma pesquisa eleitoral.

 

Naquele instante, confesso, considerei duas hipóteses. A primeira: golpe. A segunda: milagre.

 

Felizmente, era apenas democracia funcionando - ainda que com atraso considerável no meu caso.

 

A entrevistadora, com precisão cirúrgica, foi direto ao ponto. Nada de rodeios existenciais. Queria saber minha opinião sobre nomes conhecidos da política capixaba: Ricardo Ferraço, Arnaldinho Borgo, Lorenzo Pazolini e Helder Salomão.

 

Ali estava eu. Depois de décadas sendo ignorado pelas estatísticas - um verdadeiro clandestino eleitoral - finalmente promovido à categoria de entrevistado.

 

Respondi com a calma de quem sempre esteve preparado para aquele momento, embora nunca tivesse sido convocado. Não titubeei. Não pedi para repetir. Não aleguei desconhecimento. Dei minhas respostas com a convicção de quem acompanha política não por obrigação, mas por vocação quase teimosa.

 

A cada pergunta, eu tinha a nítida sensação de que estava prestando um serviço à República. Não um serviço grandioso, desses que rendem placas de homenagem, mas algo mais raro: eu estava sendo contado.

 

E foi no final da ligação que veio o toque de consagração.

 

A entrevistadora perguntou, com a naturalidade de quem oferece café depois do almoço, se eu aceitaria participar de outras pesquisas no futuro.

 

Respondi sem pestanejar: claro que sim.

 

Ali, naquele instante, compreendi que havia atravessado uma fronteira invisível. De ignorado, passei a elegível. De invisível, a reincidente estatístico.

 

Desliguei o telefone com uma sensação inédita: utilidade mensurável.

 

Completo oitenta anos em primeiro de agosto. Já era hora de acontecer. Aconteceu.

 

Cheguei em casa feliz. Mas feliz mesmo - daquele tipo de alegria que não precisa de explicação, apenas de tempo para ser apreciada.

 

Feliz como a minha cadela Spitz Alemã, Elke Maravilha, quando me encontra à noite, no retorno das rotinas do meu portal de notícias www.vitorianews.com.br, que diariamente, segundo o Google Analytics, contabiliza mais de cento e cinquenta mil usuários.

 

Elke tem esse jeito expansivo de celebrar o mundo. É uma cadela altiva, dona de uma personalidade que não cabe no próprio porte. Carrega o rabo cor-de-rosa como quem ostenta um título nobiliárquico - expressão que remete à nobreza, àqueles que, por tradição ou distinção, parecem caminhar sempre sobre um imaginário tapete vermelho - e desfila diariamente comigo pelas ruas da Praia do Canto com a segurança de quem sabe que está sendo observada - e, mais do que isso, admirada.

 

Naquele momento, havia algo em comum entre nós dois: ela, pela alegria espontânea do reencontro; eu, por uma satisfação menos instintiva, porém não menos sincera - a de, enfim, ter sido notado por aquilo que, até então, me ignorava.

 

Durante anos, alimentei a suspeita de que as pesquisas eleitorais eram feitas em algum ambiente hermeticamente fechado, frequentado por um grupo seleto de cidadãos - talvez sempre os mesmos, talvez parentes de estatísticos, talvez personagens recorrentes de alguma planilha viciada.

 

Era uma impressão que nascia menos da teoria e mais da experiência cotidiana. Porque, convenhamos, ninguém nunca foi entrevistado. Não conheço um único amigo, vizinho, colega ou parente que tenha vivido essa experiência. As pesquisas existem. Os entrevistados, até então, eram quase uma entidade abstrata.

 

Até agora.

 

Eu fui um deles.

 

E posso garantir: não há mistério. Não há truque. Apenas perguntas objetivas, respostas diretas e, ao final, um leve - e inesperado - sentimento de pertencimento.

 

Durante anos, fiz tudo o que se espera de um cidadão atento. Votei, li, escrevi, critiquei, acompanhei governos, elogiei quando necessário e mantive, com teimosia quase artesanal, o hábito de pensar.

 

Mas, para as pesquisas, eu não existia.

 

Era como se houvesse uma linha invisível separando o eleitor real do eleitor contabilizado - e eu, por algum capricho metodológico, tivesse ficado do lado de fora.

 

Até que, finalmente, alguém decidiu ligar.

 

Agora, faço parte.

 

Sou número. Percentual. Talvez um discreto zero vírgula alguma coisa em uma tabela colorida que será exibida em reunião, comentada por analistas e esquecida na semana seguinte.

 

Mas, ainda assim, estou lá.

 

E há uma dignidade curiosa nisso.

 

Porque, no fundo, a democracia é essa tentativa - às vezes elegante, às vezes atrapalhada - de transformar milhões de vozes individuais em um retrato coletivo.

 

Desta vez, minha voz entrou na composição.

 

Não sei se isso muda o rumo da eleição. Provavelmente não.

 

Mas muda algo mais importante: a sensação de pertencimento.

 

Agora, quando alguém disser que determinada pesquisa “ouviu a população”, posso, com uma ponta de autoridade recém-adquirida, afirmar:

 

Desta vez, ouviu mesmo.

 

E, se depender de mim, continuará ouvindo.

 

Porque, uma vez descoberto, não pretendo desaparecer de novo.


Marcelo Rossoni é jornalista

 

 

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