Já contei outras vezes que ando meio afastado do andar de cima. Não rompido. Apenas distante, como aqueles parentes queridos que a gente evita visitar em dias de discussão sobre política, herança ou reforma da cozinha. A fé continua aqui, silenciosa, acomodada em algum canto da alma, mas sem muito entusiasmo para reuniões extraordinárias.
Houve, porém, um período em que tentei certa reaproximação celestial. E isso aconteceu graças a Francisco José Gonçalves Pereira, o lendário “Chico Pneus”, personagem clássico do folclore capixaba, e ao advogado Beline Sales, ambos queridos amigos de longa data. Foi por influência deles que comecei a frequentar uma igreja Batista próxima ao Canal de Camburi.
Com Chico aprendi que até conversa de oficina mecânica pode terminar em teologia aplicada. Já Beline tinha aquele perfil clássico dos advogados experientes: voz tranquila, raciocínio afiado e uma habilidade quase bíblica para convencer o próximo de que tudo ainda pode piorar.
Os dois formavam uma dupla improvável. Um parecia saído de uma mesa de bar dos anos 1980; o outro, de uma vitoriosa sustentação oral no Supremo Tribunal Federal.
E foi justamente nesse curto intervalo entre a tentativa de santificação e o inevitável retorno ao velho mundo profano que conheci o pastor Silas Malafaia.
Na época, ele ainda usava grossos bigodes, daqueles que chegavam antes do dono. Tinha voz firme, grave, quase militar. Pregava como quem possuía uma linha direta com o departamento celestial.
Xadrez era presença constante no figurino. E xadrez acabaria sendo também, anos depois, o endereço involuntário de alguns políticos alcançados por suas orações.
E aqui começa a parte curiosa da história.
Existe no Brasil uma coincidência estatístico-religiosa que merecia estudo acadêmico sério. Talvez pela Fundação Getúlio Vargas, talvez pela Harvard University, ou ao menos por algum grupo filosófico reunido no Vi Lelê, um point localizado na esquina das ruas Joaquim Lírio e Elesbão Linhares, na Praia do Canto, em Vitória.
Muitos políticos que receberam orações públicas, imposições de mãos e bênçãos televisionadas do pastor acabaram mais tarde presos, investigados, condenados ou frequentando gabinetes da Polícia Federal com uma regularidade pouco cristã.
Evidentemente, não se trata de culpa do pastor. Oração não produz corrupção. Se produzisse honestidade automática, Brasília já teria virado um mosteiro administrado por monges beneditinos em voto de silêncio.
Mas que a coincidência chama atenção, chama.
O ex-governador Luiz Fernando Pezão, filiado ao MDB, recebeu apoio público e orações do pastor, acabando posteriormente preso sob acusações de corrupção e lavagem de dinheiro.
Antes dele, Sérgio Cabral, também do MDB, transformou o governo fluminense numa espécie de filial administrativa da Operação Lava Jato. O ex-governador foi igualmente alvo de manifestações públicas de apoio religioso e político vindas do universo evangélico liderado por Malafaia.
Depois veio Wilson Witzel, do PSC — partido que depois mudaria de nome para DC — eleito sob discurso moralizador, frequentemente cercado por lideranças religiosas conservadoras, mas afastado do cargo em meio a denúncias e impeachment.
Na sequência apareceu Cláudio Castro, filiado ao PL, também atingido por investigações e crises políticas.
Convenhamos: o Palácio Guanabara começou a parecer um corredor entre campanhas eleitorais e audiências judiciais.
E então chegamos ao caso mais emblemático: Jair Messias Bolsonaro, do PL.
Orações públicas, imposições de mãos, discursos patriótico-bíblicos e declarações de missão divina viraram praticamente parte oficial da liturgia bolsonarista.
Malafaia tornou-se um dos principais defensores religiosos do ex-presidente, classificando investigações e condenações como perseguições políticas e espirituais. Bolsonaro recebeu inúmeras orações públicas do pastor, algumas televisionadas, em eventos religiosos e manifestações políticas.
Bolsonaro acabou condenado por tentativa de golpe de Estado. Paralelamente surgiram investigações envolvendo joias sauditas, cartões de vacina e ataques às instituições democráticas.
A essa altura, até o Código Penal já deve tratar a família pelo primeiro nome.
Recentemente, Malafaia também orou pelo senador Flávio Bolsonaro, igualmente filiado ao PL.
Flávio permanece em liberdade, o que certamente traz conforto emocional à família, aos advogados e talvez ao sistema penitenciário nacional. Ainda assim, olhando o retrospecto histórico, é possível imaginar um discreto arrepio durante a oração.
E aqui surge um detalhe especialmente curioso da política brasileira: Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, também já recebeu orações públicas de Malafaia.
Sim, Lula. Acredite!
Hoje adversários políticos ferozes, os dois já estiveram próximos institucionalmente. Malafaia costuma afirmar que orar pelas autoridades é obrigação bíblica, independentemente de afinidades ideológicas. E, em determinados momentos da vida pública brasileira, chegou inclusive a dirigir palavras de bênção e apoio ao então presidente petista.
Lula acabou preso durante a Operação Lava Jato, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. Posteriormente, as condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal por questões processuais.
Talvez o problema esteja menos nas orações e mais nos contemplados.
Porque existe algo profundamente brasileiro nessa mistura entre púlpito e palanque.
O sujeito aparece cercado de pastores, ergue a Bíblia, fecha os olhos, recebe uma bênção solene e parte do eleitorado imediatamente conclui que está diante de uma mistura de santo medieval com auditor do Tribunal de Contas.
O problema é que o Código Penal costuma ser menos impressionável do que os fiéis emocionados.
A cena se repete quase como ritual litúrgico: o político fala em Deus, família e patriotismo, emociona plateias, posa para fotografias e, alguns anos depois, surge escoltado pela Polícia Federal carregando uma biografia em ruínas.
Silas Malafaia entendeu cedo que pastor famoso no Brasil não é apenas líder religioso. É também articulador político, influenciador ideológico, comentarista moral da República e personagem fixo da dramaturgia nacional.
E a política brasileira adora símbolos religiosos.
O candidato pode não apresentar plano econômico, estratégia administrativa ou a menor ideia de como equilibrar as contas públicas. Mas basta surgir ao lado de um pastor famoso e citar meia dúzia de versículos para muita gente concluir que está diante de um estadista iluminado.
Nem sempre funciona.
Às vezes o mar se abre direto para a delação premiada.
Continuo respeitando o pastor de bigodes espessos que conheci na igreja próxima ao Canal de Camburi.
Continuo respeitando Chico Pneus e Beline Sales, responsáveis indiretos por uma das fases espiritualmente mais curiosas da minha biografia.
Mas, diante do retrospecto recente da política nacional, permitam-me uma cautela preventiva.
Se um dia eu reencontrar Malafaia e perceber que ele vem em minha direção com a Bíblia numa mão e uma oração pronta na ponta da língua, talvez eu atravesse discretamente a rua, entre numa padaria ou finja atender ao celular.
Porque, sinceramente, neste Brasil de produções cinematográficas de R$134 milhões, tornozeleiras eletrônicas e habeas corpus em série, prudência nunca foi pecado.
E depois de observar certos antecedentes estatísticos da fé aplicada à política brasileira, cheguei a uma conclusão humilde e profilática: não ore por mim, Malafaia.