Por Marcelo Rossoni
Já tive problemas com internet, como quase todo mundo que depende dela para trabalhar. A gente troca de provedor achando que resolveu a vida, mas, na prática, apenas muda o endereço do problema. Não se elimina a dor de cabeça; muda-se o CEP.
É como trocar de fila no supermercado. Você escolhe aquela que parece mais rápida, cheio de esperança, e poucos minutos depois percebe que fez um péssimo negócio. A fila ao lado anda. A sua fica parada e resolve refletir sobre a existência.
Existe, inclusive, uma espécie de lei não escrita no Brasil: se a internet cai na sexta-feira, especialmente depois das três da tarde, ela só volta na segunda. Não é falha técnica. É quase um acordo coletivo informal. As operadoras terceirizam, os terceirizados recebem por serviço executado, e o fim de semana entra como variável filosófica. Também não sejamos injustos: todo mundo tem direito ao churrasco. Menos o cliente, que fica encarando o modem piscando como quem acompanha um monitor cardíaco.
O modem, aliás, virou objeto de fé. A pessoa reinicia o aparelho como se estivesse cumprindo um ritual: desliga, conta até dez, liga de novo, troca cabo, sopra, ameaça cancelar o contrato. Nada acontece. A internet, quando decide não funcionar, assume postura contemplativa e ignora o mundo ao redor.
Quando minha empresa funcionava na Rua Desembargador Ferreira Coelho, na Praia do Suá, fui seduzido por uma dessas promessas tecnológicas irretocáveis: fibra, altíssima velocidade, estabilidade absoluta — um pacote que, se fosse entregue como anunciado, resolveria até casamento em crise. Contratei. Não resisti três meses. A propaganda vinha em fibra óptica; o serviço, às vezes, parecia entregue em barbante.
Velocidade de internet no Brasil é um conceito quase metafísico. Existe, mas não necessariamente quando você precisa. O teste aponta números dignos de laboratório aeroespacial, mas, na hora de subir uma matéria ou enviar um arquivo mais pesado, a conexão entra em estado de meditação profunda.
Foi então que voltei para a Intervip. Sem fanfarra, sem promessa mirabolante. Apenas funcionando — o que, convenhamos, já é uma inovação relevante no setor.
Usei os serviços da Intervip por cerca de quatro anos. Nesse período, tive dois problemas. Dois. Em termos de internet, isso não é histórico: é exceção estatística.
E, para não distorcer a narrativa, é justo registrar: a culpa não foi exatamente da empresa.
Numa ocasião, cabos foram levados por figuras interessadas no cobre — matéria-prima que, no Brasil, costuma ter múltiplas utilidades não previstas em projeto. A economia paralela às vezes desmonta a infraestrutura para financiar a própria confusão.
Na outra vez, o responsável fui eu mesmo, que esqueci de pagar a conta. O sinal foi cortado com eficiência exemplar — talvez o único serviço que nunca apresentou instabilidade. Regularizei, e tudo voltou ao normal com uma rapidez que desmonta qualquer argumento.
Confesso que senti certo constrangimento ao comentar o episódio com meu amigo Carlos Alexandre Porto Carneiro, um dos sócios da Intervip. Alexandre é um homem de perfil econômico rigoroso. Para não dizer outra coisa, carrega fama de pão-duro com certo orgulho técnico. Costumo dizer que ele não gasta nem despedida se puder economizar no adeus.
Mas é preciso reconhecer: há método nisso. Enquanto muita gente investe pesado em discurso, ele prefere investir em estrutura. Não distribui favores, não se rende a gentilezas comerciais desnecessárias e, ao que tudo indica, também não perde tempo com firulas.
E aqui cabe um esclarecimento preventivo: não se trata de “jabá” — expressão conhecida no jornalismo para designar elogio interessado. Não há contrato, bônus oculto ou troca de gentilezas. Há apenas o registro de uma experiência que, por fugir ao padrão, acaba chamando atenção.
Hoje trabalho na Praia do Canto e não posso mais usar a Intervip. Não por decisão técnica, mas por limitação física: o prédio simplesmente não comporta mais cabeamento. A tubulação atingiu o limite. Em outras palavras, a tecnologia esbarrou na engenharia civil.
Lamento, porque em matéria de internet ninguém busca milagre. Busca estabilidade. E estabilidade, no Brasil, ainda é um bem relativamente escasso.
Fica, então, o registro. Em meio a promessas grandiosas, às vezes o que mais surpreende é aquilo que simplesmente funciona.
E isso, convenhamos, já não é pouca coisa.
Marcelo Rossoni é jornalista