Outro dia encontrei o amigo e empresário João Luiz Tovar no supermercado Extraplus, empreendimento inaugurado por Luiz Coutinho para alegria dos moradores da Praia do Canto. O supermercado ocupa uma esquina privilegiada das ruas Chapot Presvot e Joaquim Lírio, numa região onde o metro quadrado costuma receber mais consideração do que certas autoridades públicas.
Aliás, o Extraplus acabou se transformando em algo muito mais relevante do que um simples supermercado. Funciona como uma espécie de clube social involuntário da maturidade capixaba. Quem frequenta seus corredores encontra empresários, ex-políticos, profissionais liberais e aposentados ilustres circulando entre frutas, legumes, suplementos alimentares e promoções de azeite capazes de despertar emoções que a juventude dificilmente compreenderia.
É também ali que frequentemente encontro outro velho amigo, José Tasso de Andrade. Ex-deputado estadual, ex-diretor da antiga Escelsa — Espírito Santo Centrais Elétricas S.A., concessionária de energia que antecedeu a atual distribuidora — e cachoeirense convicto, Tasso continua defendendo com admirável perseverança a tese de que Cachoeiro de Itapemirim é a Capital Secreta do Mundo. A teoria jamais recebeu homologação da Organização das Nações Unidas (ONU), nem de qualquer organismo internacional minimamente habilitado para tratar do assunto, mas isso nunca impediu os cachoeirenses de repeti-la com inabalável convicção.
Nós três temos algumas coisas em comum. A amizade é uma delas. A experiência acumulada é outra. Existe ainda uma terceira característica que, com o passar dos anos, foi ganhando protagonismo nas conversas: os inevitáveis boletins médicos espontâneos.
Vale abrir um breve parêntese sobre João Luiz Tovar.
Conheço-o há muitos anos e trabalhei ao seu lado durante um longo período. Trata-se de um verdadeiro gentleman — palavra inglesa que designa alguém educado, respeitoso e elegante no trato com as pessoas. Nunca o vi tratar alguém com descortesia. Nunca o ouvi elevar a voz. Em tempos de redes sociais, indignação permanente e certezas absolutas, isso já seria um currículo respeitável.
Mas o currículo formal também impressiona. Tovar presidiu o Bandes, o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo; comandou o Banestes, Banco do Estado do Espírito Santo; foi secretário estadual da Fazenda, diretor-superintendente do Sebrae e liderou empresas que ajudaram a construir parte importante da infraestrutura capixaba.
Entre elas está a Ceterpo, estatal responsável pela construção da Terceira Ponte, obra que ligou definitivamente Vitória e Vila Velha e se transformou em um dos símbolos mais conhecidos do Espírito Santo. Atualmente integra a direção da Metron Engenharia, companhia com mais de meio século de atuação, e mantém ligação com a tradicional Solo Técnica Capixaba (STACA), referência em engenharia geotécnica, fundações e contenção de encostas.
Fecho o parêntese porque esta não é uma biografia. É apenas uma explicação para o fato de eu prestar atenção quando Tovar resolve fazer alguma observação sobre a vida.
Assim que o encontrei, perguntei:
— E aí, Tovar, tudo bem?
Ele olhou discretamente para os lados com a solenidade de quem estava prestes a revelar um segredo de Estado. Aproximou-se alguns centímetros, segurou o meu braço e respondeu:
— Meu caro, a vida é cruel.
A frase não pretendia revolucionar a filosofia contemporânea, tampouco parecia destinada a figurar em antologias literárias. Ainda assim, continha uma honestidade difícil de contestar.
Ri. Ele também.
Logo depois perguntou como eu estava. Expliquei que passara os últimos quinze dias enfrentando uma crise de labirintite daquelas capazes de transformar uma simples caminhada até a cozinha numa travessia oceânica em mar revolto.
— O pior já passou — respondi. — Mas continuo enfrentando uma ressaca considerável.
A palavra talvez não seja tecnicamente aceita pela medicina, mas descreve perfeitamente a situação. Não me refiro à ressaca produzida por excessos etílicos, experiência que os jovens imaginam ser exclusividade deles. Refiro-me à ressaca produzida pelo próprio organismo, uma engenhosa invenção da natureza destinada a informar que a garantia de fábrica expirou sem possibilidade de renovação.
Quando somos jovens, acreditamos que o corpo é uma máquina. Com o tempo descobrimos que ele se parece mais com um automóvel antigo, daqueles que continuam inspirando admiração, mas exigem atenção permanente. Um Corcel II, por exemplo: robusto, confiável, cheio de histórias para contar, mas sujeito a ruídos inesperados e visitas frequentes à oficina.
Quando melhora o joelho, reclama a coluna. Quando a coluna entra em trégua, desperta o ombro. Quando o ombro finalmente resolve colaborar, surge um exame laboratorial disposto a destruir toda a tranquilidade cuidadosamente construída ao longo dos últimos meses. A certa altura da vida, ninguém deseja fortuna extraordinária; deseja apenas que os diversos órgãos internos evitem marcar reunião no mesmo dia.
Tovar ouviu tudo com atenção, concordou com a cabeça e observou que envelhecer produz um fenômeno curioso. Os amigos deixam de recomendar restaurantes e passam a recomendar cardiologistas. Trocam indicações de vinhos e uísques por indicações de ortopedistas. Debatem menos sobre geopolítica internacional e mais sobre taxas de glicemia.
Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução, talvez tivesse se divertido observando essa etapa específica do processo evolutivo.
Enquanto conversávamos, observei o movimento do supermercado. Carrinhos iam e vinham pelos “corredores apertados”, casais comparavam preços com a seriedade de quem analisa balanços corporativos e senhores e senhoras examinavam rótulos com os braços completamente esticados, numa tentativa heroica — e geralmente inútil — de convencer as letras a aumentarem de tamanho. A indústria farmacêutica deveria patrocinar alguns corredores. Existe ali um público-alvo extremamente qualificado.
A velhice, na verdade, sofre de um grave problema de marketing. Ninguém divulga suas vantagens. Toda a propaganda concentra-se nos efeitos colaterais. No entanto, elas existem e não são poucas.
Com o tempo aprendemos que quase tudo passa. Passam as dificuldades, as preocupações e os governos. Passam as modas. Passam até muitas das certezas que defendíamos com fervor quase religioso antes de completar os trinta anos. Descobrimos que boa parte das tragédias anunciadas termina ocupando apenas algumas linhas de rodapé na biografia de cada um.
Também aprendemos a valorizar pequenas conquistas que antes pareciam irrelevantes: dormir uma noite inteira, encontrar uma vaga próxima da entrada de um shopping, ler um rótulo sem procurar os óculos ou levantar de uma cadeira sem produzir sons compatíveis com uma porta de castelo medieval. São vitórias discretas, é verdade, mas extraordinariamente satisfatórias.
Rimos bastante da idade, da labirintite e dos exames. Rimos porque o humor talvez seja a última barricada civilizada contra o avanço inevitável do calendário.
No final da conversa, cada um seguiu para uma gôndola diferente. Enquanto observava Tovar se afastar pelo corredor, pensei que envelhecer talvez seja menos uma tragédia e mais uma negociação permanente entre aquilo que a cabeça deseja fazer e aquilo que o restante do corpo está disposto a autorizar.
Às vezes o cérebro quer correr uma maratona. O joelho propõe uma caminhada curta. A coluna sugere permanecer sentado. E a labirintite, quando resolve participar do debate, recomenda simplesmente olhar para um ponto fixo e aguardar melhores condições de navegação.
Foi então que me lembrei da frase de Tovar.
— Meu caro, a vida é cruel.
É verdade. Ela cobra juros altos, leva parte da disposição, reduz a velocidade dos passos e multiplica as visitas aos consultórios. Em compensação, entrega algo que a juventude raramente possui: perspectiva.
A experiência ensina o que merece preocupação e o que não merece sequer uma noite mal dormida. Ensina que quase tudo passa. Ensina que muitos problemas desaparecem antes mesmo de acontecer. E, sobretudo, ensina a rir.
Rir das dores, dos exames, dos sustos e de nós mesmos. Porque, no fim das contas, talvez seja exatamente isso que nos mantém de pé quando o corpo começa a apresentar suas reivindicações formais.
Enquanto deixava o supermercado naquela tarde, empurrando meu carrinho e administrando cuidadosamente minha recém-adquirida convivência com a labirintite, concluí que Tovar tinha razão.
A vida é cruel.
É cruel, sem dúvida.
Mas continua sendo uma extraordinária aventura.
E convenhamos: enquanto ainda for possível rir dela, estaremos vencendo.