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Opinião Pública

Meninos, eu vi!

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

03/04/2026

Por Marcelo Rossoni

O título deste texto não é casual. “Meninos, eu vi” é verso do poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, publicado em 1851 no livro Últimos Cantos. No poema, um velho indígena, já afastado das guerras e da juventude, reúne os mais novos da tribo para narrar acontecimentos que ele próprio testemunhou. Antes de começar, faz questão de estabelecer a autoridade da experiência sobre o boato, da memória sobre a lenda, e diz simplesmente: “Meninos, eu vi.”

Uso a expressão exatamente nesse sentido. Não escrevo sobre Vitória por ouvir dizer, por estatística ou por relatório técnico. Escrevo porque vi a cidade mudar diante dos meus olhos. Minha história com Vitória começa em 1953, quando vim de Itaguaçu. A cidade era outra. Jardim Camburi não existia, Jardim da Penha não existia, a Beira-Mar não existia, e o centro era, de fato, o centro de tudo. Quem quisesse entender Vitória precisava passar pela Praça Costa Pereira, porque, naquela época, Vitória passava por ali.

A Praça Costa Pereira era um grande entroncamento urbano. Ali chegavam os bondes de Jucutuquara, de Santo Antônio e da Praia Comprida. O centro reunia comércio, cinemas, bancos, escritórios, repartições públicas e a vida social. As pessoas resolviam a vida no centro e voltavam para casa. Era uma cidade concentrada, quase íntima.

Depois a cidade começou a mudar devagar, quase sem que a gente percebesse. Primeiro surgiram ruas onde antes havia mangue. Depois apareceram casas onde antes havia terrenos vazios. Mais tarde vieram as avenidas, o asfalto, ampliação da iluminação pública, as escolas e os bairros. A cidade foi se espalhando pela ilha e, quando percebemos, Vitória já era outra.

Cidades não mudam por acaso. Cidades mudam por decisões políticas, planejamento urbano e administrações que deixam obras. A história urbana de Vitória pode ser contada pelos seus prefeitos, porque a cidade é o maior arquivo político que existe: ela guarda as obras e esquece os discursos.

A minha geração falava muito das obras de Setembrino Pelissari, o prefeito que organizou o centro, fez aterros, criou galerias de águas pluviais, abriu e alargou ruas, ampliou ainda mais a iluminação pública e ajudou a transformar Vitória em cidade organizada. 

Depois vieram administrações que acompanharam a expansão urbana da capital. A cidade começou a ocupar áreas que antes eram mangue, áreas alagadas ou simplesmente distantes do centro. Aterros, abertura de vias, drenagem e urbanização permitiram que Vitória deixasse de ser apenas o centro e passasse a ocupar novos espaços da ilha. Foi o período em que a cidade cresceu fisicamente, e administrações como a de Hermes Laranja participaram desse processo de expansão urbana e obras estruturantes.

Mais tarde, já no final do século XX, Vitória entrou em outra fase. Não era mais crescer territorialmente, mas organizar o que havia crescido. Foi nesse período que governou Paulo Hartung, de 1993 a 1996, em uma administração que reorganizou a máquina pública e preparou a cidade para uma fase de planejamento urbano mais estruturada.

Na sequência veio Luiz Paulo Vellozo Lucas, prefeito de 1997 a 2004, período marcado por uma das intervenções urbanas mais importantes da história recente da cidade: o Projeto Terra. Urbanização de comunidades, drenagem, contenção de encostas, escadarias, regularização fundiária e construção de equipamentos públicos integraram a chamada cidade formal com a cidade que existia nos morros. Não foram obras monumentais, mas foram obras que mudaram a vida de milhares de pessoas — e isso, em urbanismo, costuma ser mais importante do que monumentos.

Depois veio João Coser, prefeito de 2005 a 2012, já em uma cidade praticamente ocupada, sem espaço para grandes expansões territoriais. O desafio deixou de ser crescer e passou a ser melhorar a infraestrutura urbana, mobilidade, serviços públicos, educação e urbanização de bairros. Foi um período de consolidação urbana, menos expansão e mais qualificação da cidade existente.

Vitória entrou então definitivamente na fase das cidades maduras. Cidades maduras não fazem grandes avenidas para abrir novos bairros. Cidades maduras fazem drenagem, recapeamento, escolas, iluminação, urbanização de praças e melhorias espalhadas pelos bairros. Não muda o mapa da cidade, mas muda o cotidiano das pessoas. É uma fase menos épica e mais administrativa.

É nesse contexto que se insere a administração de Lorenzo Pazolini, que encerra seu ciclo na Prefeitura ao deixar o cargo para disputar o Governo do Estado. Sua gestão se caracterizou por intervenções urbanas distribuídas pela cidade: reurbanização de áreas, reformas e construção de escolas, revitalização de praças, iluminação pública, recapeamento de ruas, obras de drenagem, contenção de encostas, construção de equipamentos esportivos e urbanização de bairros. 

O prefeito Lorenzo Pazolini vem deixando sua marca administrativa com obras importantes de reurbanização e infraestrutura em Vitória, com destaque para a nova Orla de Vitória, que modernizou espaços públicos e ampliou áreas de convivência na cidade. Sua gestão também investiu em obras de macrodrenagem para reduzir alagamentos em bairros tradicionais, além da reforma e construção de unidades de saúde e escolas municipais. Praças e espaços públicos foram revitalizados em várias regiões da capital. Houve ainda intervenções viárias e melhorias na mobilidade urbana. O conjunto dessas obras caracteriza uma gestão voltada para requalificação urbana e melhoria da infraestrutura da cidade. São obras que não mudam o mapa da cidade, mas mudam o cotidiano das pessoas — exatamente o tipo de administração típico de cidades maduras.

A história urbana de Vitória, pelo menos na minha memória e na paisagem que vi se transformar ao longo das décadas, passa por alguns nomes que governaram a cidade em momentos decisivos de sua formação e consolidação urbana: Setembrino Pelissari, Hermes Laranja, Paulo Hartung, Luiz Paulo Vellozo Lucas, João Coser e, mais recentemente, Lorenzo Pazolini. Cada um governou uma Vitória diferente, com problemas diferentes e desafios urbanos próprios do seu tempo. Se deixei de citar algum outro prefeito, não foi esquecimento histórico — foi apenas falta de marca urbana visível. Em cidade, como na vida, nem todos passam; alguns apenas ocupam o cargo.

Ao longo dessas décadas, vi a cidade deixar de ser uma capital pequena, onde tudo passava pela Praça Costa Pereira e pelos bondes, para se tornar uma cidade espalhada, urbanizada, com bairros que surgiram onde antes havia mangue, areia ou áreas alagadas. Vi aterros virarem bairros, e ruas virarem avenidas, vi morros ganharem escadarias, vi bairros ganharem praças, escolas e urbanização. Vi a cidade crescer, se espalhar e amadurecer.

Cidades têm memória. E a memória das cidades não está nos arquivos da prefeitura, está nas ruas, nas avenidas, nas escadarias, nas praças, nas escolas e nos bairros. A cidade registra quem realmente a transformou e, com o tempo, coloca cada administração no seu devido tamanho histórico.

E então volto ao velho indígena do poema de Gonçalves Dias. Antes de contar sua história, ele dizia aos mais novos: “Meninos, eu vi.”

Repito a frase não como literatura, mas como testemunho de quem viu a cidade mudar diante dos próprios olhos:

Eu vi Vitória quando os bondes cruzavam o centro.

Eu vi Vitória quando tudo passava pela Praça Costa Pereira.

Eu vi bairros surgirem onde antes não havia cidade.

Eu vi a cidade crescer, se espalhar e se transformar.

Por isso posso repetir a velha frase, não como poesia, mas como memória:

“Meninos, eu vi!”



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