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Opinião Pública

Infância feliz e exemplos politicamente incorretos

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

28/02/2026

Na minha infância — ali pelos anos 1950 e começo dos 60 — o mundo não piscava em cores vibrantes dentro da sala. Ele chiava. Saía de um rádio de válvula que demorava a esquentar, ocupava a casa inteira com seu som levemente metálico e reunia a família ao redor como se fosse cerimônia. O mundo também vinha nas matinês de domingo, no cinema de bairro, onde as cadeiras rangiam e a emoção parecia maior do que a própria tela. E vinha, sobretudo, nas páginas dobradas dos gibis comprados na banca da esquina, lidos até desbotar.

Foi ali que começou nossa formação moral. Uma formação curiosa, diga-se.

Nenhum daqueles mestres tinha diploma. Nenhum respondia a conselho pedagógico. Não havia manual de boas práticas, nem preocupação explícita com coerência ética. Ainda assim, ensinavam. E ensinavam com convicção.

Aprendíamos cedo que medo era método aceitável de disciplina. Personagens fantásticos garantiam obediência. Cantávamos letras que hoje soariam excessivas com a inocência de quem não percebe o peso das palavras. Chamava-se aquilo de infância feliz. E talvez fosse mesmo — porque felicidade, naquele tempo, não exigia revisão crítica.

Depois vinham os heróis.

Tarzan surgia absoluto na selva. Não dialogava — comandava. A Autoridade não se explicava; impunha-se. Cinderela aceitava exploração doméstica com resignação exemplar. Seu prêmio não era autonomia, mas casamento. A felicidade vinha em traje formal e desfecho rápido.

Pinóquio mentia com frequência quase protocolar. Era advertido, mas a narrativa seguia. A consequência era visual, não estrutural. Aladim ensinava que pequenos desvios, quando acompanhados de carisma, podiam resultar em palácio e ascensão imediata.

No escurinho do cinema, os conflitos se resolviam em tempo determinado. Bastava coragem, uma sequência dramática bem construída e tudo encontrava solução antes do apagar das luzes. A vida real, mais tarde, revelaria que nem sempre há corte final.

Nos gibis da minha geração predominavam os personagens da Disney. Tio Patinhas mergulhava em moedas com naturalidade quase pedagógica. Gastão transformava sorte em mérito. Donald acumulava dívidas e irritações, mas nada parecia definitivo. A ordem sempre se recompunha na página seguinte.

Décadas depois, já pai, vi outra leva de personagens ocupar a sala de casa — agora nas mãos das minhas filhas. Cascão transformava a falta de banho em identidade firme. Cebolinha falava errado e persistia em planos improváveis. Mônica resolvia conflitos pela força física e mantinha o posto de referência moral. Magali comia o mundo sem jamais enfrentar consequência proporcional.

Percebi então que a pedagogia da fantasia atravessava gerações. Mudavam os traços, atualizava-se o humor, mas permanecia a lógica: carisma acima de consequência, improviso acima de método.

Havia ainda o Professor Pardal, gênio da invenção permanente. Criava máquinas mirabolantes, soluções instantâneas, engenhocas que desafiavam o bom senso. Quando algo explodia — e frequentemente explodia — o dano era episódico. No quadro seguinte, tudo estava resolvido. Lampadinha trabalhava silenciosa, eficiente, incansável. Iluminava enquanto o outro assinava.

Crescemos assim — e, mais tarde, criamos filhos assim: entre rádio, cinema, televisão e pilhas de gibis. Aprendendo que regras podem ser maleáveis, que improviso frequentemente substitui planejamento e que simpatia compensa rigor.

Décadas depois, quando os boletos não admitem final feliz automático e contratos exigem leitura até a última linha, a vida adulta apresenta uma pedagogia menos generosa. Não há trilha sonora que anuncie redenção. Há prazo. Há consequência. Há memória.

Talvez a resposta esteja naquela sala antiga, no rádio que precisava aquecer antes de falar, na tela do cinema onde os problemas tinham duração exata, nas páginas coloridas que prometiam solução no número seguinte.

Fomos educados por narrativas que suavizavam desvios, romantizavam atalhos e tratavam responsabilidade como detalhe secundário.

Ainda assim, guardo certa ternura por aqueles mestres improváveis. Não ensinaram o mundo real — ensinaram o mundo possível.

A infância foi feliz, sim. Só não vinha com manual de instruções.

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