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Opinião Pública

Exercício militar, poder nuclear e intimidação

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

09/04/2026

Por Marcelo Rossoni

O comando militar dos Estados Unidos resolveu enviar a 4ª Frota para um passeio pelo Atlântico Sul. Oficialmente, trata-se de um exercício militar conjunto destinado a melhorar a chamada interoperabilidade — palavra elegante que, em português claro, significa a capacidade de forças armadas de países diferentes operarem juntas sem que uma atrapalhe a outra.

Até aí, tudo muito bonito, diplomático e cooperativo. O detalhe é que o passeio inclui um porta-aviões nuclear, destróieres com mísseis guiados e uma estrutura militar que, sozinha, é maior do que a marinha de muitos países somados. É uma espécie de excursão entre amigos, mas aquela excursão em que um dos convidados chega dirigindo um tanque.

O protagonista da viagem é o USS Nimitz, um porta-aviões que funciona como uma base aérea flutuante. Porta-aviões, aliás, não é exatamente um navio de guerra comum. É praticamente uma cidade que flutua, com aeroporto, hospital, oficinas, depósitos de armamentos e dezenas de aviões de combate. Quando um desses aparece no litoral de um país, dificilmente é porque o comandante se perdeu do GPS.

Os Estados Unidos afirmam que a operação Southern Seas 2026 serve para fortalecer a cooperação com países parceiros. Cooperação, no vocabulário diplomático, costuma significar amizade estratégica. Amizade estratégica, por sua vez, geralmente significa que um país é amigo do outro desde que o outro continue sendo amigo do primeiro.

Participam do exercício Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Equador, México, El Salvador, Guatemala e Uruguai. É praticamente uma reunião continental, com direito a manobras navais, exercícios de comunicação, simulações de combate e troca de experiências. Troca de experiências, no ambiente militar, significa basicamente aprender a operar a guerra moderna.

Os Estados Unidos mantêm a chamada 4ª Frota, responsável pela América Latina e pelo Atlântico Sul. Essa frota havia sido desativada depois da Guerra Fria e foi reativada em 2008, justamente quando o petróleo do pré-sal brasileiro começou a ganhar importância mundial, a China passou a investir pesadamente na América do Sul e a geopolítica — termo que define a disputa de poder entre países pelo controle de regiões estratégicas — voltou a ganhar relevância por estas bandas do planeta.

Naturalmente, Washington afirma que não se trata de demonstração de força. Trata-se apenas de presença, parceria, cooperação e estabilidade regional. A história mostra que grandes potências sempre levam estabilidade para os lugares onde estacionam suas frotas. Às vezes levam estabilidade, às vezes levam democracia, às vezes levam apenas navios mesmo.

O fato é que porta-aviões nucleares não fazem turismo. Destróieres não fazem cruzeiro marítimo. E frotas militares não atravessam oceanos apenas para melhorar o relacionamento entre os povos e tirar fotografias do pôr do sol no Atlântico Sul.

Na prática, essas operações também servem para o que os estrategistas chamam de projeção de poder — outra expressão elegante que significa mostrar que você consegue levar força militar para qualquer lugar do mundo, a qualquer momento.

E é nesse ponto que a diplomacia termina e a realidade começa.

Porque, no fundo, a mensagem é simples, antiga e perfeitamente compreensível em qualquer idioma, inclusive sem tradução:

Estamos aqui.

Sabemos chegar aqui.

E é bom que todos saibam disso.

Geopolítica raramente é feita com discursos.

Normalmente é feita com navios. Navios muito grandes, aviões, mísseis, drones e bombas.


Marcelo Rossoni é jornalista


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