Por Marcelo Rossoni
De uns tempos para cá, meus aniversários ficaram mais silenciosos do que festivos. Não porque eu tenha virado um eremita rabugento, mas porque a matemática começou a ficar indiscreta demais. Faltando pouco para completar 80 anos, descobri que tenho muito mais passado do que futuro, o que não é exatamente uma revelação filosófica, mas ganha um peso especial quando a agenda do celular vira uma espécie de obituário interativo.
Os amigos andam partindo antes do combinado. Não é modo de dizer, estão literalmente indo para o andar de cima, como se o prédio da existência tivesse decidido acelerar a rotatividade dos moradores. Um dia você toma café com alguém que conhece há mais de cinquenta anos; no outro, recebe uma mensagem curta, seca, burocrática: “fulano nos deixou hoje”. Esquisito esse eufemismo, “nos deixou”, como se ele tivesse ido à padaria ou supermercado comprar pão e já voltasse. Não volta. E a gente fica aqui, com a xícara na mão e um vazio novo à mesa.
Foi nesse cenário que percebi outra coisa: além de ter perdido amigos, perdi também a intimidade com Deus. Não brigamos, não houve escândalo teológico, nenhum rompimento dramático. Ele foi ficando longe, eu fui ficando ocupado demais com as coisas deste plano, e quando vi, minha fé estava que nem parente distante: a gente sabe que existe, mas já não sabe direito o que dizer quando encontra. Em vez de rezar, passei a confiar num certo senso de justiça terrena, numa ética sem recompensa celestial. Apoiei-me, talvez com ingenuidade, num tipo de estoicismo — uma filosofia antiga que ensina a manter serenidade diante do que não podemos controlar. É uma ideia bonita; só não resiste muito ao impacto da vida real quando ela decide encurtar nossa lista de contatos.
Foi nesse hiato entre fé tradicional e filosofia prática que, por algum tempo, tentei me aproximar da ideia do “Deus de Baruch Spinoza”. Spinoza foi um filósofo do século XVII que defendia um Deus não pessoal, sem barba branca nem caderneta de punições, mas uma espécie de força da natureza: tudo o que existe seria, ao mesmo tempo, parte de Deus. Era um consolo racional para quem já não acreditava com tanta convicção no céu clássico. Mas, para ser honesto, nem o Deus sereno de Spinoza conseguiu resolver minhas madrugadas insones. Talvez por exigir uma paz interior que eu, ocupado como sempre estive, nunca tive tempo de cultivar.
O problema é que essa filosofia funciona muito bem até o primeiro enterro em série. Quando as perdas vão se enfileirando, a lógica começa a engasgar. Porque não basta dizer “a vida é assim”, como se fosse instrução de manual de eletrodoméstico. A vida é assim, é verdade, mas isso não impede ninguém de olhar para o teto de madrugada e perguntar: “e depois?”. A pergunta é antiga, mas em certas idades ela bate à porta com outra insistência, quase como um cobrador.
Sempre desconfiei de quem fala da morte com naturalidade excessiva, como se fosse apenas um detalhe administrativo do universo. A morte não é detalhe, é o ponto final. O que assusta não é só o fim em si, mas o fato de que não temos o menor controle editorial sobre ele. Podemos revisar o texto da vida mil vezes, aparar frases, reescrever capítulos, mas o momento de fechar o arquivo não é a gente que escolhe. E isso, para alguém acostumado a organizar o próprio roteiro, é de uma grosseria cósmica.
Entre uma despedida e outra, percebo que minha crise não é só religiosa, é também de planejamento. Se eu não acredito mais com tanta firmeza no andar de cima, o que faço com o andar térreo que me resta? Se não há prêmio nem castigo depois, vale a pena insistir em certos escrúpulos? E se houver, mas eu tiver passado anos fazendo de conta que não? É uma espécie de limbo racional: não creio o suficiente para me consolar, nem descreio o bastante para dormir tranquilo.
E foi pensando nesse descompasso entre fé, finitude e burocracia que tomei durante a pandemia do Covid 19 uma decisão prática, talvez prosaica, mas carregada de sentido: contratei e paguei, antecipadamente, meu próprio funeral e a cremação no Jardim da Paz, na Serra. Tudo justo e perfeito! Tudo registrado com zelo, reconhecido em cartório, devidamente documentado numa escritura lavrada no Cartório Sarlo, ali na Avenida Nossa Senhora da Penha. Fiz isso não por pressa de partir, mas por respeito a quem fica — para não transformar minha ausência futura em calvário administrativo. Se vou embora um dia, que seja deixando a casa arrumada. Em vida já tive e dei trabalho demais; na morte, prefiro não dar mais nenhum.
Às vezes me pego lembrando de pequenas aventuras que hoje parecem cenas de um filme distante. Em 1971, por exemplo, eu e Aroldo Machado, jornalista espirituoso, meu colega na reportagem de O Globo, no Rio de Janeiro - no tempo em que a sede do jornal estava localizada na Rua Irineu Marinho, número 35 -, fomos parados numa blitz na entrada do Túnel Rebouças – no sentido Lagoa Rodrigo de Freitas. O policial apenas disse “parou, polícia”, e Aroldo, no impulso que só os jovens ou os muito bem-humorados têm, respondeu: “não tenho culpa”. Fomos levados à delegacia, claro — certas piadas insistem em envelhecer mal exatamente na hora errada. Tudo terminou em pedidos de desculpas, mas a lembrança ficou como uma dessas histórias que só fazem sentido porque havia alguém ao lado para compartilhá-la. E é exatamente isso que a morte leva: a testemunha das nossas bobagens.
Talvez eu tenha sido ingênuo ao achar que podia resolver tudo “neste plano” com uma solução de bolso, dessas que cabem em cartão de autoajuda. A vida é mais teimosa do que isso. Quando um amigo morre, não é só um nome que desaparece da lista: é uma parte de mim que perde testemunha. Quem vai lembrar daquela conversa interminável no restaurante, daquela viagem improvisada, daquele erro histórico que só nós dois sabíamos? O morto leva sua vida, claro, mas leva também a prova de que a nossa aconteceu daquele jeito.
Às vezes penso que a tal fé que afastei talvez não fosse feita apenas de dogmas, mas também de uma rede afetiva. Uma forma de acreditar que nada se perde totalmente, que existe um arquivo invisível onde os encontros ficam guardados. Quando se empurra essa fé para longe, o mundo fica mais lógico, porém mais frio. Tudo passa a depender da memória dos que sobrevivem — e, convenhamos, confiar em octogenários para guardar lembranças é sempre uma aposta ousada.
Não vou mentir: há dias em que sinto falta de rezar com a simplicidade de antigamente, sem nota de rodapé, sem discussão interna. A ideia de um Deus que recebe meus amigos lá em cima, serve um café decente e conversa sobre as novidades da Terra tem certo encanto narrativo. Mas o cético em mim levanta a sobrancelha e lembra das injustiças, das tragédias, das crianças que partem antes de aprender a escrever o próprio nome, do recente genocídio na Faixa de Gaza. E aí a conversa empaca.
No meio desse impasse, descubro uma terceira via: aceitar que não sei. Não sei se há céu, se há reencarnação, se tudo se dissolve num grande silêncio. Não sei se meus amigos me veem daqui, se riem das minhas dúvidas ou se já estão ocupados demais com outro capítulo. O que sei é que existiram, que rimos juntos, que brigamos, que fizemos as pazes, e que isso já é uma forma modesta, porém legítima, de eternidade.
Talvez a única fé que me reste seja essa: a crença de que, enquanto estamos aqui, somos uns para os outros alguma coisa que vale a pena. Que deixamos marcas que não precisam de milagres para sobreviver.
Enquanto isso, continuo neste andar intermediário, olhando a escada com desconfiança. Sem pressa exagerada, sem convicções absolutas. E torcendo, secretamente, para que os amigos lá de cima, onde quer que estejam, ainda façam apostas sobre se eu vou ou não mudar de ideia na última hora.
Marcelo Rossoni é jornalista