Quanto mais estudo história e observo as dinâmicas atuais da nossa querida espécie, mais me espanto com a nossa miopia para a vida
O padrão já é conhecido: o que parece uma boa ideia no começo, damos um jeito de transformar em problemas gigantescos. Vamos a alguns exemplos:
Aprendemos a plantar e cultivar espécies, como trigo e milho e com isso, nos tornamos reféns do trabalho na lavoura, produzimos muitos alimentos, inclusive substituindo o leite materno, as mães passam a ter um filho por ano em vez de a cada 4 anos (por infertilidade enquanto está amamentando) e vem o crescimento exponencial da população.
Criamos o dinheiro como meio de facilitar trocas, expande-se o comércio, criamos a economia e a possibilidade de riquezas acumuladas, dando combustível infinito à ganância humana, a conflitos e guerras que dizimaram milhões.
Temos a brilhante ideia de conceber a natureza como direito de posse do ser humano, estupramos a mãe natureza em nome do que chamamos de "progresso” em um Complexo de Édipo coletivo e rumamos cegos a caminho do aquecimento global.
Desenvolvemos a ciência e vem a revolução industrial, com promessas de abundância e nos tornamos seres mecânicos, robotizados, hipertrofiados na racionalidade e fracos no coração, desconectados dos sentimentos e com menos apreço aos valores.
A civilização gera novas doenças crônicas, cria condições para epidemias se alastrarem rapidamente e, ano a ano, centenas de milhares de pessoas morrem de acidentes de carro, drogadição e suicídio - além dos que se sentem aleijados pelas perdas.
A revolução digital até que parecia estar vindo relativamente bem, até termos telas touch, nuvem, redes sociais explorando imagens e as inseguranças humanas, crianças monitoradas 24/7 e viciadas em desenhos do Youtube nas mesas de refeição, golpes digitais, a explosão da pornografia, dos jogos, das bets… viramos oferta no marketplace humano em vez de consumidores, meros peixes presos na rede esperando para sermos fisgados por mais um "gancho/anzol".
Nos últimos tempos a possibilidade de acúmulo de riqueza e poder por poucas pessoas vem crescendo vertiginosamente, ao passo que o senso de responsabilidade e a consciência, que servem de reguladores das tomadas de decisão, estão estagnadas.
Além dos riscos e problemas sociais e planetários, toda essa cultura afeta o modo da mente operar em vários níveis. Um simples exemplo é a distorção de autoimagem que leva a atrocidades com seu próprio corpo na "franca competição estética” com as versões filtradas das redes sociais. Não à toa a saúde mental passou a ser a principal preocupação de saúde para 52% dos brasileiros em 2026, quando era 18% em 2018.
Portanto, se quisermos reduzir a nossa chance de extinção e prolongar a existência humana, está na hora de reconhecermos que nos degeneramos como espécie. E estamos indo ladeira abaixo em velocidade crescente. Reconhecer a realidade é o primeiro passo para começar a mudança, que logicamente deve ser a de promover a regeneração humana, tema principal do movimento e do ecossistema Sensing.life.
Sim, porque no fundo estamos falando de como estamos vivendo as nossas vidas. De que adiantam comida, dinheiro, posses, beleza, ciência e tecnologia se, no fim e ao cabo, nos tornamos mais miseráveis, mesquinhos, solitários, doentes, perigosos e infelizes?
Será que conseguiremos lembrar de como é ser humano? De despertar do entorpecimento e encontrar meios de aproveitar tudo que criamos ao longo de milênios? Resgatar nossos instintos, validar nossos sentimentos e honrar nossos valores?
Parafraseando Gandhi, que cada um de nós seja a regeneração que quer ver no mundo.