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Opinião Pública

Cinco nomes e apenas um na urna

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

05/06/2026

Durante muito tempo, a política brasileira foi apresentada ao eleitor como um grande embate ideológico. Havia partidos que carregavam identidades relativamente claras, defendiam correntes de pensamento reconhecíveis e permitiam ao cidadão votar, ainda que simbolicamente, em projetos de país.

Ao menos na teoria.

Com o passar dos anos, porém, boa parte dessa arquitetura foi se dissolvendo diante dos olhos do eleitor comum. As antigas fronteiras ideológicas ficaram nebulosas. Partidos mudaram de posição com a velocidade das conveniências eleitorais. Adversários históricos passaram a caminhar juntos. Aliados de ontem romperam sem maiores traumas. Siglas deixaram de representar pensamentos organizados e, em muitos casos, transformaram-se apenas em agrupamentos circunstanciais de interesses, sobrevivência política e composições de ocasião.

Naturalmente, isso altera também os critérios de escolha do eleitor.

Quando quase todos parecem ocupar um mesmo espaço cinzento entre o pragmatismo e a conveniência, o voto deixa de ser exclusivamente partidário ou ideológico. Passa, muitas vezes, pelo campo da confiança pessoal, da afinidade humana, da trajetória individual e até das relações construídas ao longo da vida.

Não se trata necessariamente de um fenômeno virtuoso. Talvez seja apenas humano.

O eleitor começa então a observar outros elementos: caráter, lealdade, convivência, coerência pessoal, capacidade administrativa, comportamento público e até aquilo que não aparece nos programas eleitorais — a forma como cada pessoa atravessou os anos, tratou os amigos, exerceu funções públicas e se comportou longe dos palanques.

É exatamente aí que me encontro diante da próxima eleição para deputado estadual.

Confesso, sem qualquer constrangimento, que talvez esta seja uma das raras vezes em que o voto pesa mais pela proximidade afetiva do que pela simples análise fria da política. E isso, para quem acompanha as eleições há décadas, não deixa de ser uma ironia curiosa da vida pública.

Sergio Borges, por exemplo, é um amigo de longa data. Filho do inesquecível Hugo Borges e irmão dos meus caríssimos amigos Paulo, Huguinho e Marcos, faz parte de um círculo de convivência que ultrapassa há muito os limites da política. Existem amizades que o tempo transforma em patrimônio emocional. E essa é uma delas.

Anselmo Tozi conheci ainda jovem, nos tempos em que cursava Medicina. Vi surgir ali um homem disciplinado, técnico, dedicado ao serviço público e profundamente comprometido com a área da saúde. Carrega consigo aquele perfil raro de gestor que prefere o trabalho silencioso ao espetáculo permanente tão comum na política moderna.

Luiz Paulo Vellozo Lucas é amigo e irmão de fraternidade — daquela velha fraternidade em que todos se tratam como irmãos e vestem ternos pretos em reuniões discretas, cercadas de simbolismos, tradição e rituais que atravessam gerações. Nossa convivência vem de muitos anos, marcada pelo respeito mútuo e pela admiração intelectual. Luiz Paulo sempre pertenceu a uma linhagem de homens públicos que acreditam mais no conhecimento, em planejamento do que em improviso.

Neucimar Fraga também é um grande e admirado amigo. E talvez a história ainda não tenha sido suficientemente justa com ele. Governou Vila Velha em um período difícil e, gostem ou não de seu estilo popular e direto, realizou uma administração muito acima do que frequentemente lhe reconhecem. Arrisco dizer — e digo com absoluta tranquilidade — que não voltou à prefeitura muito em razão de não ter tido uma assessoria de comunicação à altura daquilo que efetivamente realizou. Na política, infelizmente, muitas vezes não basta fazer. É preciso contar bem o que foi feito. E isso muda destinos.

Sergio Majeski carrega outra característica: a seriedade quase pedagógica. Professor, preparado, correto, homem de posições firmes e comportamento ético raro na vida pública brasileira. Tem aquela postura de quem parece ainda acreditar que a política pode ser instrumento de transformação e não apenas mecanismo de sobrevivência eleitoral.

E eis o drama.

Como escolher apenas um?

A urna eletrônica, cruelmente objetiva, não aceita votos afetivos múltiplos, nem permite que a amizade e admiração sejam divididas em frações. Ela exige apenas um número. Um único gesto. Uma só escolha.

E, no fim, um deles será escolhido.

Os outros, inevitavelmente, vão dançar.

Mas talvez exista justamente aí uma das poucas elegâncias silenciosas ainda preservadas da democracia brasileira: nenhum deles saberá quem recebeu meu voto.

A urna eletrônica — tão atacada por alguns justamente por sua eficiência — continua assegurando algo fundamental à liberdade política: o sigilo absoluto da escolha individual. O voto permanece secreto, auditável, legítimo e protegido tanto das pressões públicas quanto dos constrangimentos das relações pessoais.

Ainda bem.

Porque certas decisões pertencem apenas à consciência do eleitor.

E algumas amizades sobrevivem melhor quando a urna guarda silêncio.

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