Domingo, 8 de Novembro de 2026 | 13h11m
Vitória News — Um jornal de verdade
Torre de Papel
Opinião Pública

Agora o desfile é com segurança redobrada

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

08/11/2026

Quem costuma ler minhas crônicas já conhece Elke Maravilha, minha cadela da raça spitz alemão. Volta e meia ela aparece por aqui, embora desconfie que não tenha o menor interesse em literatura. Sua especialidade é outra: conquistar pessoas. Faz isso com uma facilidade espantosa, sem precisar distribuir abraços, prometer obras ou pedir votos. Muitos políticos dariam tudo para possuir semelhante talento.

O nome, naturalmente, é uma homenagem à extraordinária Elke Maravilha, atriz, modelo e apresentadora que fez da extravagância uma marca pessoal. Aquela Elke aparecia em público com chapéus enormes, roupas espalhafatosas e uma maquiagem impossível de ignorar. A minha nasceu pronta. Sua pelagem dispensa qualquer adereço e a maneira de caminhar sugere que a Praia do Canto, em Vitória, pertence à família há várias gerações.

Nossos passeios se transformaram numa espécie de compromisso social. Elke conhece os porteiros dos edifícios, os vigias das obras e boa parte dos moradores que encontramos pelo caminho. Melhor dizendo, todos conhecem Elke. Basta nos aproximarmos para começarem os cumprimentos, as brincadeiras e os carinhos. Alguns interrompem o que estão fazendo apenas para conversar com ela.

Comigo, nada. Nem um aceno.

A princípio, aquilo me causava certa estranheza. Afinal, sou eu quem a leva para passear, providencia a alimentação, paga o  plano de Saúde da Bixus, a Unimed dos Pets, e cuida das demais despesas. Com o tempo, aceitei a realidade: na hierarquia social da Praia do Canto, Elke ocupa uma posição muito superior à minha.

Há porteiros que a recebem com tamanha alegria que fico imaginando como tratam os moradores das coberturas. Eu passo ao lado, segurando a coleira, sem despertar o menor interesse. E pensar que, sem minha colaboração, a homenageada sequer compareceria ao encontro.

Não chega a ser uma injustiça. Conheço gente que paga contas muito maiores e também não recebe qualquer consideração.

Pois bem. Resolvemos recentemente ampliar a família. Chegou Zico, outro spitz alemão, de pelagem caramelo, sete meses de idade e uma disposição que não se esgota nem depois de longas brincadeiras. O apartamento, antes submetido à administração relativamente tranquila de Elke, passou a conviver com uma criatura que parece ter descoberto o mundo naquela mesma manhã.

O nome do recém-chegado exige uma explicação, principalmente aos amigos que conhecem minha antiga fidelidade ao Fluminense.

Sou tricolor desde menino. Como, então, aceitar dentro de casa um cachorro chamado Zico, nome do maior ídolo do Flamengo?

A resposta está numa curiosidade da vida do próprio jogador. Quando seu irmão Antunes defendia o time de aspirantes do Fluminense, Zico acompanhava as partidas e torcia pelos tricolores. Encerrada a preliminar, mudava de lado na arquibancada para apoiar o Flamengo.

Encontrei nessa passagem uma justificativa bastante razoável para a homenagem. Não cheguei propriamente a trair o Fluminense. Apenas reconheci o talento de um adversário que, em determinada fase da vida, também torceu pelas nossas cores.

Zico, o cachorro, não participa dessas discussões. Desconhece a rivalidade entre Flamengo e Fluminense, não sabe quantos títulos conquistou o jogador que lhe emprestou o nome e certamente considera uma bolinha de borracha muito mais importante que uma final no Maracanã.

Com ele, entretanto, nossos passeios ficaram mais trabalhosos.

Elke gosta de caminhar exibindo a própria beleza. Tem um jeito de erguer a cabeça que me faz lembrar certas senhoras da antiga sociedade capixaba, acostumadas a entrar nos salões sabendo que seriam observadas. Zico não tem essas preocupações. Quer cheirar as árvores, investigar os canteiros, examinar os postes e descobrir o que existe atrás de qualquer objeto encontrado pelo caminho.

De um lado, a dama. Do outro, o menino levado. No meio, este cronista, com duas coleiras nas mãos e a obrigação de impedir que os interesses de ambos terminem num emaranhado de pernas, patas e cordas.

Não bastassem essas dificuldades domésticas, há as calçadas da Praia do Canto.

Alguns trechos exigem tanta atenção que passei a olhar mais para o chão do que para a paisagem. São buracos, desníveis e obstáculos que obrigam o pedestre a escolher cuidadosamente onde pisar. Quem caminha sozinho já precisa tomar cuidado. Imaginem alguém puxado por um cachorro interessado numa árvore e outro que resolveu parar para receber homenagens.

O risco de um tombo passou a fazer parte das nossas excursões. E conhecendo a popularidade de Elke, não tenho dúvidas de que, se um dia eu cair estatelado na calçada, a primeira providência dos presentes será verificar se ela sofreu algum susto.

Talvez alguém se lembre de perguntar pelo Zico. Quanto a mim, espero ao menos que chamem uma ambulância.

Há, porém, uma preocupação menos divertida. Refiro-me à segurança nas ruas.

Nos últimos dias, durante nossas caminhadas, não tenho encontrado as viaturas da Guarda Municipal que antes via circulando pelo bairro. A Polícia Militar também não tem aparecido nos trechos que percorremos. Evidentemente, isso não significa que os policiais estejam ausentes de toda a região. Significa apenas que, por onde andamos, não os vejo.

E andamos bastante.

A Praia do Canto é um bairro agradável, com ruas arborizadas, edifícios residenciais e um comércio movimentado. Justamente por isso, seria bom encontrar, de vez em quando, uma viatura ou um policial fazendo o patrulhamento ostensivo. A simples presença de agentes uniformizados já proporciona aos moradores uma sensação de segurança que nenhuma estatística consegue substituir.

Talvez exista algum planejamento que explique essa discrição. Não conheço os detalhes. Sei apenas que os passeios com Elke e Zico passaram a exigir, além do cuidado com as calçadas, atenção permanente aos arredores.

Não estou pedindo proteção especial para os cachorros. Elke, se fosse consultada, provavelmente consideraria natural dispor de uma escolta. Eu me contentaria com uma coisa bem mais simples: poder caminhar sem receio de assalto e sem a necessidade de estudar cada centímetro do calçamento.

A propósito, minhas responsabilidades aumentaram consideravelmente desde a chegada de Zico. Além de passeador, sou encarregado das coleiras, recolhedor oficial das necessidades fisiológicas, fiscal de trânsito de pedestres e responsável pela integridade física de duas criaturas que não demonstram a menor preocupação com a minha.

E o pior ainda está por vir.

Zico começou a conquistar admiradores. A pelagem caramelo, o tamanho reduzido e aquela expressão de quem jamais praticou uma travessura despertam a simpatia das pessoas. Elke mantém seu público tradicional, naturalmente, mas já percebe que existe um concorrente circulando pela casa.

Se a fama do recém-chegado continuar crescendo, acabarei ignorado em dose dupla.

Tenho pensado em maneiras de modificar essa situação. Quem sabe um chapéu extravagante, semelhante aos usados pela Elke original? Ou uma camisa do Fluminense, na esperança de encontrar algum tricolor disposto a me cumprimentar?

Cheguei a cogitar uma camisa vermelha. Depois da vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, por uma diferença superior a 4,4 milhões de votos, talvez algum bolsonarista inconformado me reconhecesse como adversário e resolvesse dirigir-me um daqueles desaforos que se tornaram frequentes nas discussões políticas.

Um sonoro “filho da p*”, por exemplo.

Reconheço que não seria uma manifestação de boas maneiras. Mas, considerando o anonimato a que fui relegado, haveria pelo menos uma novidade: alguém estaria falando comigo. Não com Elke, nem com Zico. Comigo, pessoalmente.

Acabei desistindo. Além da possibilidade de encontrar um sujeito mais exaltado, correria o risco de descobrir que nem uma provocação política seria suficiente para competir com a popularidade dos meus cachorros.

Melhor deixar as coisas como estão.

Amanhã teremos outro passeio. Desta vez, pretendo levar os dois pela nova orla da ilha. Obra do então prefeito Pazolini, eleito para governar o Espírito Santo por quatro anos. Sairemos da Rua Joaquim Lírio em direção ao calçadão, nas proximidades do Supermercado São José, e seguiremos até a Ponte Ayrton Senna. Dependendo do comportamento dos ilustres acompanhantes, talvez retornemos pelo mesmo caminho.

Elke irá à frente, como de costume, exibindo sua beleza e distribuindo a atenção que julgar conveniente. Zico tentará inspecionar todos os canteiros. Eu estarei segurando as coleiras, atento às condições do piso, ao movimento das pessoas e ao que acontece nas redondezas.

No bolso, levarei os indispensáveis saquinhos plásticos. Afinal, a celebridade pode ter seus privilégios, mas alguém precisa recolher o que ela deixa pelo caminho.

Tenho esperança de que, durante essa caminhada, encontremos uma viatura da Guarda Municipal ou da Polícia Militar. Não para pedir escolta, reclamar das calçadas ou solicitar qualquer tratamento diferenciado.

Quero apenas experimentar uma situação que se tornou rara nos meus passeios: ser cumprimentado por alguém.

Não precisa continência, nem demonstração especial de respeito.

Um simples boa-tarde será suficiente.

Desde que o policial olhe para mim, naturalmente. Se for para cumprimentar Elke e Zico, continuarei na mesma situação de sempre.


Compartilhe este artigo