Por Marcelo Rossoni
Toda vez que um novo índice de criminalidade é divulgado, a atenção costuma se concentrar nos números. Sobe, cai, estabiliza... Compara-se um período com outro e segue-se adiante.
Mas por trás das estatísticas existem pessoas.
O Espírito Santo registrou 257 homicídios nos quatro primeiros meses de 2026. A média foi de 2,12 homicídios por dia. Os dados oficiais mostram uma ligeira redução em relação ao mesmo período do ano passado. É uma notícia positiva. Sem dúvida.
Ainda assim, vale lembrar que estamos falando de 257 vidas interrompidas de forma violenta.
Em 2025, o Estado contabilizou 796 assassinatos, o equivalente a cerca de 2,18 mortes por dia. Foi o menor número absoluto em quase trinta anos, resultado que merece reconhecimento. Mas há uma armadilha escondida em toda estatística. À medida que os números melhoram, corre-se o risco de esquecer que cada registro do relatório tinha nome, família, endereço e uma história interrompida antes do fim.
O homicídio é o desfecho mais brutal da violência. Raramente surge do nada. Costuma nascer de disputas entre organizações criminosas, conflitos pessoais, violência doméstica, tráfico de drogas, rivalidades territoriais ou tensões sociais que se acumulam durante anos.
A morte é apenas o último capítulo.
Existe, porém, outro aspecto pouco discutido quando o assunto é segurança pública.
A violência produz vítimas, mas também movimenta dinheiro.
Muito dinheiro!
Basta observar o cotidiano das cidades brasileiras.
Quanto maior a sensação de insegurança, maior a procura por empresas de vigilância, monitoramento eletrônico, cercas elétricas, alarmes, rastreadores, portarias armadas, câmeras de alta definição e sistemas de controle de acesso.
O mercado da segurança privada cresce alimentado por um sentimento que nenhuma campanha publicitária precisou criar: o medo.
O mesmo ocorre com o setor de armamentos.
De um lado está a indústria legal, que fabrica e comercializa armas, munições e equipamentos de proteção. Do outro, o mercado clandestino, que abastece facções criminosas, quadrilhas especializadas e organizações envolvidas em atividades ilícitas.
São universos distintos sob o ponto de vista jurídico. Mas ambos existem porque a violência existe.
Há ainda outro personagem dessa história que raramente aparece nos debates.
As seguradoras.
Naturalmente, elas exercem uma função importante na proteção patrimonial. O problema é que o aumento da percepção de risco também amplia a procura por seus produtos.
Quanto mais insegura a população se sente, maior a demanda por seguros residenciais, empresariais, automotivos e até para telefones celulares.
Não por acaso, muitos consumidores descobrem apenas no momento do sinistro que as apólices possuem franquias elevadas, limitações contratuais e uma longa lista de exceções.
Em outras palavras, paga-se para dormir mais tranquilo e, às vezes, acorda-se com uma surpresa desagradável.
O comércio especializado também encontra oportunidades.
Blindagens, fechaduras eletrônicas, cofres, portões automatizados, vidros reforçados, sistemas de monitoramento remoto e uma infinidade de equipamentos destinados à proteção pessoal formam um setor que movimenta cifras bilionárias.
Nada disso existiria na escala atual se as pessoas não estivessem preocupadas com a própria segurança.
Talvez a consequência mais preocupante seja outra.
Aos poucos, a violência deixa de ser encarada como uma anormalidade e passa a ser tratada como parte da paisagem.
O medo gera demanda por pessoal especializado, treinado para atuar na área como técnico ou como simples segurança. Gera emprego e todo ciclo econômico faz aumentar o PIB. Acredite!
Os muros aumentam de altura.
As grades se multiplicam.
As casas ganham câmeras.
Os condomínios instalam guaritas.
As pessoas evitam determinadas ruas, determinados horários e determinados lugares.
A cidade vai se transformando sem que quase ninguém perceba.
O resultado é que a violência passa a integrar o orçamento doméstico.
Primeiro o cidadão paga impostos para financiar a estrutura pública de segurança.
Depois paga pelo alarme.
Pela cerca elétrica.
Pela câmera.
Pelo seguro.
Pelo rastreador.
Pela blindagem.
Pela vigilância privada.
Paga duas vezes. Às vezes três.
Talvez por isso a violência possa ser comparada a um tributo invisível. Não aparece no Diário Oficial, não é aprovada pelo Congresso e não possui código de arrecadação. Mesmo assim, pesa no bolso de milhões de brasileiros todos os dias.
Quando um homicídio é evitado, portanto, não é apenas uma vida que se preserva.
Também se enfraquece, ainda que discretamente, essa engrenagem econômica construída em torno do medo.
No fim das contas, uma sociedade verdadeiramente segura não é aquela que possui mais câmeras, mais alarmes ou mais grades.
É aquela em que grades, câmeras e alarmes voltam a ser exceção, e não condição para a vida cotidiana.