Por Marcelo Rossoni
A Serra é hoje o maior município do Espírito Santo em população, um dos maiores em arrecadação e um dos principais pólos industriais e logísticos do Estado. É economicamente forte, estratégica, com grandes empresas, grande circulação de mercadorias e enorme importância para a economia capixaba. Mas, ao mesmo tempo, a Serra convive há décadas com um problema estrutural que nenhum discurso oficial, nenhuma estatística isolada e nenhuma coletiva de imprensa consegue esconder completamente: a violência urbana e a expansão do crime organizado.
A violência na Serra não pode ser analisada apenas por números de homicídios. Esse é um erro comum e conveniente. Homicídio é o ponto final de uma cadeia de crimes que começa muito antes: tráfico de drogas, armas ilegais, roubos, furtos, extorsões, disputas territoriais, formação de quadrilhas e recrutamento de jovens pelo crime. Quando se olha apenas para o número final de homicídios, ignora-se toda a estrutura criminosa que sustenta esses crimes.
Em várias regiões do município, o tráfico de drogas não é apenas um problema policial pontual. Ele organiza território, impõe regras, interfere na vida econômica local, influencia o transporte clandestino, a venda de gás, o funcionamento de bares e até a circulação de pessoas. Em alguns bairros, a presença do poder público é menor do que deveria ser, e esse vazio acaba sendo ocupado pelo poder paralelo.
Esse cenário já seria grave por si só. Mas a situação ganha contornos ainda mais preocupantes quando surgem investigações envolvendo agentes públicos municipais, integrantes da Guarda Civil Municipal, suspeitos de envolvimento com tráfico de drogas, extorsão e violência. Esse tipo de episódio não pode ser tratado como um fato isolado ou como simples desvio individual de conduta. Quando agentes públicos armados, investidos de autoridade municipal, aparecem ligados a atividades criminosas, o problema deixa de ser apenas policial e passa a ser institucional.
É preciso dizer isso com clareza: a Guarda Municipal é uma instituição do município. Seus integrantes são servidores municipais, pagos com dinheiro do contribuinte. Quando integrantes dessa estrutura são investigados por ligação com o crime, a crise deixa de ser apenas de segurança e passa a ser de governança pública.
Existe ainda uma questão que precisa ser enfrentada com coragem e seriedade. Quando agentes de segurança se envolvem com organizações criminosas, uma das primeiras consequências possíveis é o vazamento de informações e a sabotagem indireta de operações policiais.
Não se trata aqui de fazer acusação específica, mas de reconhecer uma possibilidade lógica e conhecida em qualquer investigação envolvendo infiltração criminosa em instituições de segurança. Se criminosos têm acesso a informações privilegiadas, operações podem fracassar, alvos podem fugir antes de abordagens, pontos de tráfico podem permanecer intocados e ações de combate ao crime podem perder eficácia.
Se isso ocorreu, ainda que de forma pontual, o prejuízo para a segurança pública do município é enorme. Significa que o poder público pode ter combatido o crime com uma das mãos enquanto a outra, sem saber, ajudava a protegê-lo. Isso é gravíssimo.
Esse episódio expõe outro problema que precisa ser discutido com seriedade: o processo de seleção, formação e controle dos profissionais que ingressam nas forças de segurança municipais. Ser guarda municipal não é apenas uma função administrativa ou patrimonial. Trata-se de agente público armado, com poder de abordagem, acesso a informações e influência direta na segurança urbana.
O processo de seleção desses profissionais precisa ser extremamente rigoroso, incluindo investigação social profunda, avaliação psicológica séria, acompanhamento permanente, corregedoria independente e mecanismos de controle interno eficientes. Segurança pública depende, antes de tudo, da qualidade moral e profissional de quem veste o uniforme.
Mas os problemas institucionais no município não se limitam à área da segurança. A própria política municipal já enfrentou episódios graves, como o afastamento de vereadores por decisões judiciais em investigações envolvendo irregularidades administrativas, corrupção, desvios de recursos públicos, fraudes em contratos e utilização indevida da estrutura pública.
Esses afastamentos não ocorrem por divergência política ou disputa eleitoral; ocorrem, em regra, por decisões judiciais baseadas em investigações que apontam indícios de crimes contra a administração pública, como corrupção passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa, fraude em licitações e rachadinhas.
Quando vereadores são afastados, quando agentes de segurança são investigados por ligação com o crime e quando a cidade convive com tráfico, roubos e violência, o problema deixa de ser setorial. Não é apenas um problema de polícia, não é apenas um problema social, não é apenas um problema político. Passa a ser um problema institucional mais amplo, de funcionamento das estruturas públicas.
A Serra é um município rico, mas profundamente desigual. Existem regiões com alto padrão urbano e outras com infraestrutura precária. Existem condomínios fechados e bairros sem urbanização adequada. Existem centros empresariais modernos e regiões onde o poder público aparece pouco. Essa desigualdade territorial cria ambientes onde o crime organizado encontra espaço para crescer, recrutar e se consolidar.
O município precisa enfrentar o problema da segurança pública e da integridade institucional de forma estrutural, não apenas com operações pontuais ou discursos. É necessário investir em inteligência, investigação, controle interno das instituições, corregedorias fortes, transparência administrativa, urbanização de bairros vulneráveis, políticas sociais para jovens e presença efetiva do poder público em todo o território municipal.
Segurança pública não se resolve apenas com viatura pintada e sirene ligada. Segurança pública se constrói com instituições sólidas, servidores bem selecionados, administração pública transparente, urbanização, educação, oportunidade de emprego e presença permanente do Estado — ou, no caso, do município.
A Serra tem tamanho econômico, arrecadação e importância suficientes para ser uma região referência em gestão urbana e segurança municipal. Mas, para isso, precisa enfrentar seus problemas com seriedade, sem maquiagem estatística, sem discursos excessivamente otimistas e sem tratar episódios graves como fatos isolados.
Cidade grande tem problemas grandes.
Mas um município grande também precisa ter instituições grandes, fortes e respeitadas.
Quando agentes públicos são investigados por ligação com o crime e quando vereadores são afastados por suspeitas de corrupção, o que está em jogo não é apenas a imagem de um governo ou de um mandato. O que está em jogo é a confiança da população nas instituições.
E a confiança institucional, quando se perde, leva muito tempo para ser reconstruída.
Marcelo Rossoni é jornalista