Um em cada quatro jogos da Copa do Mundo de 2026 pode ocorrer acima dos limites de segurança térmica recomendados para atletas, segundo análise do grupo científico World Weather Attribution. O levantamento indica, ainda, que as temperaturas podem superar os 30°C nas cidades-sede.
O cenário vai além do esporte e cria uma oportunidade concreta para a educação ao transformar o noticiário climático em objeto de investigação. Quando incorporamos um evento como a Copa, que mobiliza emocionalmente os estudantes, abrimos uma entrada potente para discutir ciência, saúde e sociedade de forma integrada.
A preocupação com o calor extremo já mobiliza atletas e entidades, que adotam medidas como pausas nas partidas para hidratação e monitoramento das condições ambientais. Nesse contexto, a educação climática ganha centralidade. Não se trata apenas de conscientizar, mas de desenvolver competências para que os estudantes analisem dados, compreendam fenômenos e proponham soluções. A Copa, nesse caso, funciona como gatilho de interesse e pertencimento.
Em diferentes regiões do país, instituições de ensino já transformam o tema em objeto de investigação. Na Escola Estadual “Lino Vieira Ruivo”, em Ibiúna (SP), a proposta foi organizada como pesquisa orientada na disciplina de Química, com roteiro estruturado e etapas sequenciais. Divididos em grupos, os alunos do Ensino Médio partiram de uma questão central: como as mudanças climáticas podem afetar grandes eventos esportivos? A partir daí, avançaram para a coleta de evidências, por meio de um formulário, investigando fenômenos como ondas de calor, ilhas de calor urbanas e o aumento da concentração de gases de efeito estufa.
A atividade exigiu a identificação de impactos diretos do calor intenso, como desidratação, queda de desempenho físico e riscos à saúde, além do mapeamento dos grupos mais vulneráveis nessas condições. Na etapa seguinte, os estudantes organizaram os dados e sintetizaram os efeitos das mudanças climáticas sobre eventos esportivos. O processo resultou na elaboração de propostas, como redução de emissões, adaptação de infraestrutura e mudanças de comportamento coletivo, além de uma conclusão argumentativa sustentada por evidências.
Outro exemplo vem da EREM “Senador Paulo Pessoa Guerra”, em Tejipió, Recife (PE), onde o tema foi desenvolvido em um projeto interdisciplinar envolvendo Geografia, Biologia, Física, História e Sociologia. Estudantes do 3º ano do Ensino Médio trabalharam com dados reais para calcular a pegada de carbono da Copa de 2026, estimada em cerca de 9 milhões de toneladas de CO₂.
O trabalho começou com a decomposição das fontes de emissão, como transporte, infraestrutura e hospedagem, e utilizou fórmulas baseadas em protocolos internacionais. Em seguida, os alunos compararam esses dados com práticas locais, como fogueiras e fogos de artifício nas festas juninas, estimando seus impactos na qualidade do ar e na saúde pública. A análise incluiu cálculos de emissões, identificação de poluentes e discussão sobre grupos mais suscetíveis, como crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias. O projeto também incluiu atividades práticas, como o cálculo da pegada de carbono individual, o mapeamento de fogueiras na comunidade e a elaboração de campanhas de conscientização, com sugestões como o uso de lenha de reflorestamento e alternativas aos fogos com estampido.
Esse tipo de abordagem mostra que os desafios climáticos não estão apenas em grandes eventos internacionais, mas também nas práticas locais. É quando o estudante conecta essas escalas que desenvolve pensamento crítico.