Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 12h06m
Vitória News — Um jornal de verdade
Sustentabilidade

Obras em praias podem causar impactos ambientais

Especialistas alertam que intervenções no litoral podem alterar ondas, correntes e qualidade da água

Vitória News 11/03/2026 12:58
Obras em praias podem causar impactos ambientais
Foto: Fernando Frazão/ABr

Intervenções para conter o avanço do mar têm se tornado cada vez mais comuns no litoral brasileiro. Técnicas como engorda artificial de praias, construção de molhes de pedra e muros de contenção são adotadas por cidades costeiras, mas especialistas alertam para possíveis impactos ambientais e defendem alternativas baseadas na natureza.

Na semana passada, o governo do Paraná foi multado em R$ 2,5 milhões pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) após utilizar sacos plásticos preenchidos com areia para conter a erosão no litoral de Matinhos.

Entre as estratégias mais utilizadas está a engorda de praia, método que amplia artificialmente a faixa de areia. Municípios como Balneário Camboriú e Piçarras, em Santa Catarina, tornaram-se referências desse tipo de intervenção.

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) apontam que essas obras podem modificar a dinâmica natural das ondas e das correntes marítimas. Segundo nota técnica elaborada pelo grupo, alterações nos padrões de circulação da água podem afetar a qualidade do mar e até aumentar o risco de afogamentos em áreas que passaram por alargamento recente.

O professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), afirma que estruturas emergenciais podem resolver problemas pontuais, mas provocar desequilíbrios em outras áreas do litoral.

Segundo ele, intervenções desse tipo podem reter areia em determinados pontos e acelerar processos de erosão em áreas vizinhas, criando um efeito em cadeia que exige novas obras.

O pesquisador cita casos registrados no litoral sul da Bahia e em trechos do litoral paulista, onde empreendimentos turísticos foram instalados em áreas naturalmente vulneráveis ao avanço do mar. Em muitos desses locais, a ocupação ocorreu após a remoção de restingas e dunas, ecossistemas que funcionavam como proteção natural contra a erosão.

Com o avanço do mar, hotéis e outras construções passaram a instalar muros de contenção para proteger estruturas, o que em alguns casos resulta na perda quase total da faixa de areia durante períodos de maré alta.

Soluções baseadas na natureza

Pesquisadores defendem que a proteção do litoral deve priorizar soluções baseadas na natureza. Ecossistemas como manguezais, restingas, dunas e recifes de coral desempenham papel importante na absorção da energia das ondas e na estabilização dos sedimentos.

Segundo a bióloga Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, esses ambientes funcionam como barreiras naturais contra tempestades e erosão.

Além da proteção costeira, esses ecossistemas também têm relevância econômica e ambiental. Um estudo coordenado pela pesquisadora aponta que os recifes de coral do Nordeste brasileiro evitam até R$ 160 bilhões em danos ao atuar como proteção natural contra o impacto das ondas.

Os manguezais também desempenham papel estratégico, armazenando grandes quantidades de carbono e sustentando cerca de 70% das espécies pesqueiras exploradas comercialmente no país em alguma etapa do ciclo de vida.

Já restingas e dunas conseguem acumular sedimentos e crescer verticalmente ao longo do tempo, acompanhando a elevação do nível do mar quando preservadas.

Para os especialistas, o planejamento da ocupação costeira e o uso de evidências científicas são fundamentais para reduzir impactos ambientais e garantir a preservação das praias diante das mudanças climáticas.

Compartilhe esta notícia
Anuncio - Raimundo - Bonus Senac 16 de julho — Capa (rail) SESC PICASSO CONTADOR - BONUS

Notícias Relacionadas