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Mudanças na pesca podem salvar albatrozes ameaçados em alto-mar

Uso de toriline, peso nas linhas e soltura noturna de anzóis reduzem captura acidental de aves marinhas durante a pesca de espinhel

Vitória News 21/06/2026 07:34
Mudanças na pesca podem salvar albatrozes ameaçados em alto-mar
Foto: Dimas Giuanuca/projeto Albatroz/divugação

Albatrozes e petréis estão entre as aves marinhas mais ameaçadas do mundo. A situação reforça a urgência de ampliar medidas de conservação em alto-mar, especialmente nas áreas onde essas espécies interagem com embarcações pesqueiras. O alerta ganha destaque no Dia Mundial do Albatroz, lembrado em 19 de junho.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A data marca a entrada em vigor do Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis, criado para chamar atenção para a importância ecológica dessas aves oceânicas e para os riscos que elas enfrentam. Das 22 espécies de albatrozes existentes no planeta, metade frequenta águas brasileiras em busca de alimento e temperaturas mais amenas.

Uma das principais ameaças é a captura incidental na pesca de espinhel, técnica que utiliza uma longa linha principal, chamada linha madre, com várias linhas secundárias e anzóis iscados. As iscas, geralmente feitas com sardinha, cavalinha ou lula, atraem peixes de valor comercial, mas também chamam a atenção dos albatrozes. Ao tentar capturá-las, as aves podem ficar presas nos anzóis e morrer afogadas.

No mundo, cerca de 300 mil aves marinhas são capturadas acidentalmente todos os anos por esse tipo de pesca. Desse total, entre 30 mil e 40 mil são albatrozes e petréis. No Brasil, a estimativa é de que aproximadamente 4 mil albatrozes morram anualmente, principalmente em operações de espinhel realizadas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

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Segundo a bióloga Tatiana Neves, fundadora e coordenadora-geral do Projeto Albatroz, a situação exige adoção rigorosa de medidas de mitigação pelas frotas pesqueiras. “Muitas das espécies vêm declinando em ritmo muito acelerado, apesar dos esforços feitos em muitos países para reduzir a captura”, afirmou.

O Projeto Albatroz atua desde 1990 na conservação dessas aves e mantém bases de pesquisa em quatro estados brasileiros. A iniciativa, patrocinada pela Petrobras desde 2006, também desenvolve ações de educação ambiental. Em 2023, foi inaugurado em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, o primeiro Centro de Visitação e Educação Ambiental Marinha voltado ao tema.

Entre as medidas consideradas mais eficazes para reduzir a captura incidental estão a largada noturna dos anzóis, o uso de pesos de chumbo nas linhas e a adoção do toriline. O equipamento funciona como uma linha espanta-pássaros instalada na parte traseira da embarcação, com fitas coloridas que afastam as aves das iscas enquanto elas ainda estão próximas da superfície.

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Quando aplicadas de forma conjunta, essas estratégias podem reduzir em até 90% a captura acidental de albatrozes, segundo Tatiana Neves. O desafio, no entanto, está em garantir que elas sejam realmente usadas durante a pesca em alto-mar. “Parte dos pescadores implementa. Mas, na verdade, a gente não consegue monitorar se essas medidas estão sendo usadas em alto-mar ou não”, explicou.

O Brasil conta com o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e coexecutado pelo Projeto Albatroz. A política pública tem como foco reduzir a captura acidental na pesca de espinhel e proteger áreas importantes para a reprodução dessas aves.

A fiscalização, no entanto, enfrenta limitações. O uso de pesos nas linhas pode ser verificado ainda no porto, já que existe um padrão previsto na legislação. Já medidas como o toriline e a largada noturna dependem de controle em alto-mar, o que torna o acompanhamento mais complexo.

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Uma alternativa em discussão é o uso de câmeras a bordo e de sistemas de monitoramento eletrônico. O Programa Parceiros, do ICMBio, testou de forma pioneira câmeras em embarcações de pesca de atum em Natal, no Rio Grande do Norte. A experiência brasileira foi apresentada em reunião da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico, responsável pela gestão da pesca no Atlântico e no Mediterrâneo.

Também há avanços no rastreamento por satélite. O Ibama e o ICMBio desenvolveram formas de verificar o horário de lançamento dos anzóis a partir dos equipamentos de rastreamento das embarcações. A medida pode ajudar a confirmar se a largada está sendo feita após o anoitecer, como previsto nas regras de mitigação.

Com até 3,5 metros de envergadura, os albatrozes passam a maior parte da vida sobrevoando áreas remotas dos oceanos. Por viverem longe da costa, são pouco conhecidos pela população, mas fazem parte da rotina de pescadores e pesquisadores. Para especialistas, proteger essas aves exige conciliar atividade pesqueira, fiscalização e conservação marinha.

A sobrevivência dos albatrozes depende de mudanças práticas na pesca em alto-mar. Sem monitoramento, políticas públicas e adesão efetiva das embarcações, uma das aves mais emblemáticas dos oceanos continuará ameaçada por uma atividade que pode ser adaptada para reduzir danos ambientais.

Fonte: Agência Brasil.

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