O avanço das importações de morango, especialmente do Egito, passou a pressionar diretamente a produção capixaba e acendeu um alerta no setor agrícola. O tema foi debatido nesta terça-feira (17) pela Comissão de Agricultura da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), que reuniu produtores, autoridades e representantes do setor para discutir os impactos econômicos e sociais da concorrência externa.
Durante a reunião, relatos apontaram queda nas vendas, perda de mercado e risco à sustentabilidade de milhares de famílias que dependem da cultura do morango no estado.
O presidente da comissão, deputado Adilson Espindula (PSD), destacou que o crescimento das importações tem ocorrido de forma acelerada e desigual. Segundo ele, o volume importado saltou de pouco mais de 4 mil toneladas em 2022 para cerca de 42 mil toneladas no último ano.
Além do aumento na oferta, o custo mais baixo do produto estrangeiro intensifica a pressão sobre os produtores locais. Enquanto o morango capixaba é produzido entre R$ 15 e R$ 16 por quilo, o produto importado chega ao país com preço médio próximo de R$ 8.
Pressão sobre o setor produtivo
Dados apresentados no encontro indicam que o Espírito Santo é o quarto maior produtor de morango do país, com cerca de mil propriedades envolvidas e produção anual de aproximadamente 33 mil toneladas, movimentando em torno de R$ 400 milhões.
Apesar da relevância econômica, o setor enfrenta aumento nos custos de produção, que cresceram cerca de 15% nos últimos 12 meses, ampliando ainda mais a desvantagem frente ao produto importado.
O secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, confirmou que as importações seguem em alta e que, em 2025, chegaram a cerca de 44 mil toneladas, sendo aproximadamente 40 mil oriundas do Egito — volume superior à produção capixaba.
Segundo ele, acordos comerciais reduziram as tarifas de importação para cerca de 4%, favorecendo a entrada do produto estrangeiro, especialmente o morango congelado, que atende à demanda da indústria por custo mais baixo.
Queda nas vendas e impacto social
Produtores relataram perda significativa de mercado. Em algumas regiões, como São João do Garrafão, a redução nas vendas de morango congelado chegou a 50% em apenas um ano.
O impacto vai além da produção agrícola e atinge toda a cadeia, incluindo fornecedores de insumos, mudas e serviços ligados à atividade.
Em municípios como Santa Maria de Jetibá, onde cerca de 800 famílias dependem diretamente da cultura, há preocupação com o agravamento da situação econômica local. Autoridades municipais alertam para risco de crise em comunidades inteiras caso o cenário persista.
Reação e propostas
Diante do cenário, a comissão definiu uma série de encaminhamentos. Entre eles, estão a mobilização da bancada capixaba em Brasília, a elaboração de um documento ao governo federal e a defesa de medidas como revisão de acordos comerciais, criação de cotas e possível aumento de tarifas de importação.
Também foi proposta a ampliação da assistência técnica aos produtores, com foco na redução de custos e aumento da competitividade.
Representantes do governo federal indicaram que eventuais mudanças nas regras de importação dependem de instâncias ligadas à área econômica, mas sinalizaram abertura para diálogo.
A Comissão de Agricultura deve continuar acompanhando o tema e ampliando o debate com o objetivo de buscar equilíbrio entre comércio internacional e proteção da produção local.