A Confederação Nacional da Indústria (CNI) encerrou a missão empresarial aos Estados Unidos, realizada em Washington, com um balanço considerado positivo pelo presidente da entidade, Ricardo Alban. Segundo ele, os encontros abriram caminho para negociações que podem contribuir para reduzir ou flexibilizar as tarifas impostas às exportações brasileiras.
“Faço um balanço muito positivo. Resumindo em duas palavras: missão cumprida”, afirmou Alban. Ele ponderou, no entanto, que o trabalho ainda não terminou. “A missão continua. Realizamos um trabalho de diplomacia empresarial, que garante as soluções de continuidade necessárias. [Nosso papel] É sermos facilitadores de uma mesa de negociação, seja para [discutir] redução de tarifas, para exceções ou para novas oportunidades”, completou.
Entre os projetos apresentados pela comitiva brasileira aos norte-americanos estão:
produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF);
uso da energia renovável brasileira em data centers;
exploração de minerais críticos e terras raras.
“Toda crise gera desafios. Todos os desafios geram oportunidade. Dentro desse conceito, trouxemos nesta missão três segmentos que podem ser explorados, que são de fortes interesses mútuos”, destacou Alban.
A delegação contou com 130 empresários, dirigentes de federações estaduais e representantes de associações industriais, principalmente dos setores mais impactados pelo tarifaço. Durante três dias, houve encontros com parlamentares, membros do governo norte-americano, empresários locais e a embaixadora do Brasil em Washington, Maria Cecília Ribeiro Viotti.
O embaixador Roberto Azevêdo, consultor da CNI, representou a entidade em audiência pública no Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que investiga práticas comerciais brasileiras. “Ficou evidente que o papel do setor privado é muito importante, sobretudo fazendo contatos com as congêneres americanas. Esse diálogo que nós mantivemos foi muito importante para identificar as sinergias que existem entre os setores produtivos do Brasil e dos Estados Unidos”, avaliou.
Dados da CNI revelam que as tarifas adicionais dos EUA atingem cerca de US$ 33 bilhões em exportações brasileiras, envolvendo aproximadamente 6 mil produtos. O aumento atinge toda a indústria de transformação, com exceção dos segmentos de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis.
Nos últimos dez anos, os EUA acumularam superávit de US$ 91,2 bilhões no comércio de bens com o Brasil;
Esse valor sobe para US$ 256,9 bilhões quando incluídos os serviços;
Mais de 70% das importações brasileiras vindas dos EUA estão livres de tarifas, favorecendo petróleo, fertilizantes e aviação;
Em 2024, 11 estados norte-americanos importaram mais de US$ 1 bilhão em produtos brasileiros, com destaque para Califórnia, Flórida, Texas e Nova Iorque;
Entre 2013 e 2023, os EUA foram o principal destino de investimentos greenfield brasileiros, com 142 implantações produtivas anunciadas.
Um dos segmentos mais impactados é o de máquinas e equipamentos, que já enfrenta dificuldades com a tarifa de 50% imposta pelos EUA. Segundo a diretora-executiva de Mercado Externo da Abimaq, Patrícia Gomes, a situação ameaça diretamente a competitividade das empresas brasileiras.
“A tarifa praticada atualmente já é inviável para os exportadores. Acho que o aumento não vai mudar o status, os 50% já são inviáveis para a relação de comércio com os Estados Unidos. Já vemos as empresas com contratos suspensos, com revisão de contratos ou que já estão recolhendo a tarifa, a depender da negociação feita com o cliente, ou até mesmo postergação de entregas. Então, as empresas que exportam já percebem o impacto da tarifa nos seus negócios em relação às exportações”, relatou.
A Abimaq atua em duas frentes: negociações com o governo brasileiro para ampliar linhas de crédito, capital de giro e postergação de tributos; e manutenção do diálogo direto com autoridades e parceiros americanos para buscar exceções ou redução das tarifas. “O que temos de fato solicitado ao governo é continuar buscando a negociação com o governo americano, para termos redução da tarifa ou exceção de produtos do setor, para viabilizarmos o comércio com os Estados Unidos. Esse é o principal objetivo para garantirmos uma competitividade do setor”, pontuou.
Para a Abimaq e para a própria CNI, a missão empresarial é apenas o primeiro passo de uma longa agenda de negociações. “É uma primeira ação – de muitas – que o setor empresarial brasileiro terá que fazer para reduzir a tarifa a um patamar executável, para o setor industrial conseguir exportar e conseguir restabelecer uma relação comercial produtiva com os Estados Unidos”, concluiu Patrícia Gomes.