Presidente afirma que banqueiro procurou o Planalto alegando perseguição e diz que deixou claro que eventuais irregularidades seriam apuradas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que disse ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, durante uma reunião no Palácio do Planalto, que a instituição seria analisada com os mesmos critérios aplicados a qualquer outro banco.
A declaração foi feita nesta quinta-feira (10), durante entrevista ao SBT Brasil.
Segundo Lula, Vorcaro procurou o governo alegando que o Banco Master estaria sendo perseguido.
“Daniel Vorcaro veio conversar comigo no Palácio do Planalto. Ele e outro rapaz disseram que estavam perseguindo o banco dele. Eu disse que o Banco Master seria analisado como qualquer banco”, relatou o presidente.
Lula afirmou ainda que a conversa durou cerca de meia hora e que deixou claro ao banqueiro que eventuais irregularidades seriam apuradas.
“Ninguém tem interesse em fechar banco. Agora, você tem que estar correto”, declarou.
Encontro ocorreu fora da agenda
A reunião entre Lula e Vorcaro ocorreu em dezembro de 2024 e não constou da agenda oficial do presidente.
O encontro já havia sido confirmado anteriormente pelo próprio governo e por Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, que participou da reunião quando ainda era indicado para comandar a autoridade monetária.
Em depoimento ao Senado, em abril deste ano, Galípolo afirmou que recebeu de Lula orientação para atuar de forma técnica e investigar qualquer pessoa envolvida, sem interferência política.
Banco Central liquidou instituição
Durante a entrevista, Lula afirmou que o Banco Master foi “fechado” durante seu governo.
Formalmente, porém, a liquidação extrajudicial foi determinada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.
Na decisão, o BC apontou grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira do conglomerado e graves violações às normas que regulam o Sistema Financeiro Nacional.
No mesmo dia, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero e prendeu Daniel Vorcaro.
A investigação apura suspeitas envolvendo emissão e negociação de ativos sem lastro, gestão fraudulenta, organização criminosa, lavagem de dinheiro e outras possíveis irregularidades financeiras.
Vorcaro chegou a ser solto posteriormente, mas voltou a ser preso preventivamente em 4 de março de 2026. Ele permanece preso.
Master surgiu a partir do Banco Máxima
Lula também afirmou na entrevista que o Banco Master havia sido criado durante o governo de Jair Bolsonaro.
O nome Banco Master, de fato, surgiu em 2021, durante o governo Bolsonaro, mas a instituição financeira é mais antiga.
O banco foi fundado em 1973 e operava anteriormente como Banco Máxima. Após mudanças societárias e uma reformulação de suas operações, passou a utilizar a denominação Banco Master em 2021.
Lula cobra abertura dos sigilos
A manifestação desta quinta-feira ocorre um dia depois de Lula defender publicamente a quebra completa do sigilo das investigações relacionadas ao Master.
Na entrevista ao SBT, o presidente reiterou essa posição e criticou o que classificou como vazamentos seletivos das apurações.
Lula argumentou que a divulgação integral das informações permitiria esclarecer quem está efetivamente envolvido e poderia contribuir para recuperar a confiança da sociedade nas instituições.
O presidente não é investigado no caso Master.
Caso provoca crise no Supremo
As investigações ganharam nova dimensão nas últimas semanas depois da divulgação de relatórios da Polícia Federal com mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro.
Segundo os investigadores, foram identificadas 52 mensagens que teriam sido enviadas pelo ex-banqueiro a um contato atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Parte do material faz referência a um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Os investigadores afirmam que uma das mensagens sugere o envio do contrato ao interlocutor atribuído a Moraes. Outra indicaria uma tentativa de Vorcaro de obter informações sobre uma eventual operação da Polícia Federal.
Moraes nega ter mantido contato com Vorcaro.
A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, questionou a legalidade do aprofundamento das investigações envolvendo Moraes e sustentou que medidas contra um integrante do Supremo deveriam ter autorização da própria Corte.
Fachin tenta conter crise no STF
O presidente do Supremo, Edson Fachin, passou a centralizar decisões relacionadas ao conflito institucional provocado pelo caso.
Nesta semana, Fachin suspendeu decisões conflitantes dos ministros André Mendonça e Flávio Dino sobre o comando da Polícia Federal. Na prática, o diretor-geral Andrei Rodrigues e o diretor de Inteligência Leandro Almada permanecem nos cargos.
Fachin também determinou que investigações envolvendo ministros do Supremo passem por análise prévia da Presidência da Corte.
O próximo capítulo está marcado para terça-feira (15), quando o plenário do STF deverá discutir se será aberta investigação formal sobre a suposta relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
O caso Master, que começou como uma investigação sobre possíveis fraudes no sistema financeiro, passou a envolver integrantes dos Três Poderes e se tornou um dos principais focos de tensão política e institucional do país.
Fonte: SBT News, Banco Central, Polícia Federal, STF e ABr