Presidente critica interferência externa, cobra fortalecimento da ONU e leva à Assembleia temas como democracia, guerras e crime organizado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o discurso de abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (22), em Nova York, para fazer uma ampla defesa da soberania dos países e do multilateralismo diante do aumento das tensões internacionais.
Em um dos momentos de maior impacto da fala, Lula declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A afirmação foi feita ao abordar a posição brasileira na América Latina e a relação da região com as grandes potências.
Sem citar diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesse trecho, Lula criticou tentativas de interferência externa em processos políticos e eleitorais e afirmou que diferenças ideológicas não devem impedir a cooperação entre países.
O presidente também disse que a democracia voltou a enfrentar pressões em diferentes partes do mundo e defendeu que cada sociedade tenha autonomia para escolher seu próprio caminho político.
A crise do sistema multilateral ocupou parte importante do pronunciamento. Lula voltou a defender mudanças na estrutura das Nações Unidas e cobrou maior capacidade de resposta da organização diante das guerras e de outras crises internacionais.
O funcionamento do Conselho de Segurança voltou a ser alvo das críticas do presidente brasileiro. A posição defendida pelo governo é de que a estrutura atual não representa adequadamente a configuração política e econômica do mundo e tem demonstrado limitações para responder aos conflitos.
As guerras também estiveram entre os principais assuntos levados por Lula à tribuna. O presidente voltou a defender soluções diplomáticas e negociações para conflitos que permanecem sem perspectiva imediata de encerramento.
A defesa do diálogo faz parte da posição adotada pelo Brasil diante da guerra entre Rússia e Ucrânia. O governo brasileiro sustenta que uma solução duradoura dependerá de negociação política e de garantias de segurança capazes de envolver as partes no conflito.
O Oriente Médio também apareceu no pronunciamento, em meio à continuidade das crises humanitárias e militares na região. Lula voltou a defender o respeito ao direito internacional e a proteção da população civil.
Outro eixo da fala foi a situação da América Latina. O presidente defendeu maior integração regional e rejeitou a ideia de que países do continente devam ser tratados como áreas submetidas aos interesses de potências estrangeiras.
A declaração de que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém” sintetizou esse trecho do discurso e reforçou uma das mensagens centrais levadas pelo governo brasileiro à Assembleia: relações internacionais, na avaliação apresentada por Lula, devem ser construídas por meio de parceria, negociação e respeito à soberania.
O enfrentamento ao crime organizado também entrou na agenda. Lula defendeu maior cooperação entre países para atingir estruturas financeiras e redes internacionais responsáveis pelo tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.
Ao mesmo tempo, argumentou que o combate às organizações criminosas não deve servir de justificativa para intervenções externas ou violações da soberania nacional.
O presidente defendeu uma estratégia baseada em inteligência, troca de informações, rastreamento de recursos e atuação conjunta entre as autoridades dos diferentes países.
O pronunciamento ocorreu em um momento de forte tensão internacional, com guerras, disputas comerciais e questionamentos sobre a capacidade das instituições multilaterais de administrar conflitos entre grandes potências.
Como ocorre tradicionalmente na abertura do debate geral da Assembleia, o Brasil foi o primeiro país a ocupar a tribuna. Lula discursou antes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A participação brasileira nesta edição da Assembleia da ONU ocorre também em meio ao debate sobre o papel das organizações internacionais em um cenário de maior competição entre potências e de enfraquecimento dos mecanismos de negociação.
Ao concentrar sua fala em soberania, democracia, conflitos e reforma das instituições internacionais, Lula buscou apresentar a posição brasileira de defesa de uma ordem internacional baseada no diálogo entre os países, sem subordinação política ou interferência em decisões internas.