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Política

João Coser volta ao comando do PT-ES com vitória apertada e partido dividido

Vitória News 09/07/2025 11:30
O ex-prefeito de Vitória e ex-deputado federal, e atual deputado estadual João Coser (PT) voltará ao comando do Partido dos Trabalhadores no Espírito Santo após vencer a deputada federal Jack Rocha no Processo de Eleição Direta (PED), realizado no último domingo (6).
Senac 16 de julho — Capa (rail)
A disputa, marcada por acirrada polarização interna, terminou com Coser obtendo 4.027 votos contra 3.102 de Jack — uma diferença de apenas 925 votos. O resultado confirmou o retorno de um dos quadros históricos da legenda à presidência estadual, cargo que ocupou anteriormente em três mandatos, entre 2017 e 2019.A vitória da chapa “A Estrela tem que Brilhar”, composta por Coser e pela deputada estadual Iriny Lopes, representa a consolidação de uma aliança entre duas correntes influentes do PT capixaba: a Alternativa Socialista, de Iriny, e o campo majoritário Pra Voltar a Sonhar, que conta com o apoio de lideranças como o senador Fabiano Contarato e o deputado federal Helder Salomão.Embora não seja inédita a presença de João Coser na direção do partido, o novo contexto político exige habilidade redobrada. O resultado apertado revela um partido dividido, em que as feridas da disputa interna devem continuar abertas por algum tempo. Jack Rocha, que buscava a reeleição, representa setores que cobravam mais renovação e maior protagonismo feminino no comando do PT estadual. Seu grupo, que já foi dominante na legenda durante a gestão anterior, sai derrotado, mas com capital político suficiente para influenciar os rumos da legenda.
SESC PICASSO
Apesar de ambos os candidatos pertencerem à esquerda tradicional do partido, a eleição estadual simbolizou o confronto de dois projetos distintos de gestão partidária. Jack apostava na manutenção de uma linha organizativa mais recente, focada em diálogo com os movimentos sociais e na valorização de jovens lideranças. Já Coser propôs uma gestão de reunificação e reestruturação, mirando diretamente o fortalecimento institucional da legenda para as eleições de 2026.A proposta de divisão da presidência, com Iriny Lopes assumindo a segunda metade do mandato, também sinaliza uma tentativa de composição interna e de alternância, ao menos simbólica, no comando da legenda.Desafios - Coser reassume o PT-ES num momento estratégico: o ciclo eleitoral de 2026 se avizinha, e o partido ainda busca consolidar sua identidade após um período de enfraquecimento estadual. Em 2022, apesar de ter reeleito Helder Salomão e conquistado o retorno de Iriny à Assembleia Legislativa, o PT amargou desempenhos tímidos em disputas majoritárias e segue sem nomes competitivos naturais para o governo estadual.
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Um dos desafios centrais será justamente articular o partido no interior, onde a influência da sigla é limitada. Em muitos municípios capixabas, o PT ainda sofre resistências associadas à rejeição histórica alimentada por campanhas conservadoras e estigmas do antipetismo. A tarefa de romper essa barreira exigirá diálogo com lideranças locais e capacidade de formar alianças — inclusive com antigos adversários —, algo que Coser, com seu perfil moderado e articulador, está mais bem posicionado para fazer do que boa parte das novas lideranças.Outro ponto crucial será a convivência com figuras que hoje ocupam protagonismo na legenda, como a própria Jack Rocha. Derrotada, mas com base eleitoral sólida e prestígio nacional, ela continuará sendo uma liderança central no partido. Coser terá de lidar com essa correlação de forças, evitando marginalizações e promovendo a unidade interna, sob pena de aprofundar as divisões.Identidade - A disputa interna entre Coser e Jack também pode ser lida como reflexo das tensões que atravessam o PT em nível nacional: entre a militância que defende uma linha mais combativa e ideológica, e setores que apostam num pragmatismo eleitoral, centrado em alianças e em candidaturas viáveis mesmo fora do campo tradicional da esquerda.No Espírito Santo, essa tensão se expressa na relação do PT com o PSB do governador Renato Casagrande, com quem a legenda mantém uma aliança tática desde 2018. Jack Rocha era considerada mais simpática à manutenção desse alinhamento, enquanto Coser e Iriny dão sinais de buscar maior autonomia política, mesmo que isso signifique ensaiar candidaturas próprias ao Executivo estadual — algo que a ala vitoriosa pode tentar viabilizar em 2026, caso o PT fortaleça suas bases.
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Se por um lado a aliança com Casagrande garantiu espaço político para os petistas, por outro tem inibido a construção de um projeto alternativo de poder, dificultando a identificação do eleitorado capixaba com uma plataforma petista autônoma. Nesse sentido, o novo comando do partido pode marcar uma inflexão estratégica: mais presença própria nas urnas, ainda que com riscos eleitorais.Reconstrução - O que está em jogo, portanto, não é apenas uma troca de comando, mas a redefinição de rumos para um partido que, mesmo sendo uma das principais forças da esquerda brasileira, ainda luta por maior enraizamento no Espírito Santo. João Coser representa, ao mesmo tempo, uma volta ao passado recente e uma tentativa de projetar o futuro. A vitória apertada lhe dá legitimidade, mas impõe responsabilidades: pacificar o partido, reconstruir pontes internas e reconectar o PT com os capixabas.Com um cenário nacional cada vez mais polarizado e um ambiente local fragmentado, o desafio do novo presidente estadual do PT será fazer da legenda um ator relevante no jogo político capixaba — e não apenas um coadjuvante em alianças alheias. Para isso, Coser terá de combinar sua experiência com ousadia estratégica. Caso contrário, sua volta ao comando pode se revelar um último suspiro de um ciclo que já se esgotou.
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