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Economia

Governo e Petrobras entram em impasse sobre investimentos após queda do petróleo

FolhaPress 20/10/2025 06:10

BRASÍLIA, DF, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a diretoria da Petrobras entraram em um impasse sobre a definição do próximo plano de investimentos da petroleira, que incluirá o ano eleitoral de 2026. Enquanto os executivos defendem que o programa seja revisto diante da queda do preço do petróleo, a gestão petista resiste a cortes nos números.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

De acordo com relatos feitos à Folha de S.Paulo, o tema deve se tornar a principal discussão na reta final do ano no conselho da Petrobras -que reúne tanto indicados pelo governo como representantes dos minoritários. Manter os investimentos mesmo com menores receitas pode gerar mais dívidas e menos pagamento de dividendos aos acionistas (entre eles, inclusive, a própria União).

Lula fala durante anúncio de investimentos da Petrobras no RJ; ao fundo (dir.), Chambriard ouve discurso Mauro Pimentel - A discussão ganhou ainda mais relevância depois do acordo entre Israel e Hamas, o que reduziu tensões no Oriente Médio e fez cair no mercado internacional o preço do petróleo -principal variável das receitas da Petrobras.

O barril do tipo Brent fechou a última sexta-feira (17) cotado a US$ 61,33, 16% abaixo do valor observado um ano atrás.

Também tem baixado o preço do petróleo o recrudescimento da guerra comercial entre Estados Unidos e China, que aumenta preocupações com uma desaceleração econômica global e uma consequente diminuição na demanda por energia.

A AIE (Agência Internacional de Energia) afirmou neste mês que o mercado mundial de petróleo deve enfrentar um excedente ainda maior, no próximo ano, do que é atualmente observado.

O plano da Petrobras aprovado no fim do ano passado prevê US$ 111 bilhões de investimentos para o horizonte de 2025 a 2029. O valor é 4,7% maior, em termos reais, do que o plano anterior (que ia de 2024 a 2028).

Do total previsto, US$ 98 bilhões são de projetos em implantação que, em tese, já tiveram sua financiabilidade testada. A maioria é na área de exploração e produção, o que inclui busca por novas reservas.

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Outros US$ 13 bilhões são projetos em avaliação, que precisam passar por uma avaliação adicional para se mostrarem financiáveis. De acordo com a Petrobras, o objetivo é não comprometer a sustentabilidade da companhia. Entre eles, está um investimento na produção de querosene sustentável de aviação a partir de etanol.

As conversas agora definirão as cifras para o período de 2026 a 2030, e os analistas aguardam o anúncio para reavaliarem o retorno esperado para quem tem ações da petroleira. Procurada, a assessoria de imprensa da Petrobras afirmou que a empresa não iria comentar.

Lula disse neste mês estar "convencido de que a Petrobras ainda não deu tudo o que ela tem que dar ao povo brasileiro". Em discurso durante evento na Bahia, disse à atual CEO da Petrobras, Magda Chambriard, que a executiva tem a missão de superar a gestão de um antigo presidente da empresa, Sérgio Gabrielli.

Em seguida, disse que ameaçou demitir o então executivo caso não fosse contratada a construção de navios-sonda no Brasil. "Briguei muito com ele", disse Lula. "Ele era um que tinha dúvida se ia fazer sonda aqui, porque ninguém consegue fazer sonda, porque é mais fácil fazer [em outro país]. Eu falei 'mais fácil o cacete'".

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"É mais fácil para a Petrobras, ela vai economizar US$ 50 milhões. Mas se gerar emprego aqui, eu vou gerar conhecimento tecnológico, vou gerar mão de obra, vou gerar salário, vou gerar imposto e vou gerar a coisa mais sagrada que é emprego", afirmou Lula, narrando que o então executivo acabou aceitando a tarefa (a Sete Brasil, criada para entregar os navios, teve falência decretada sem entregar nenhum). Chambriard assistiu à fala do mandatário do palco.

Sem citar nomes, Lula ainda afirmou que a petroleira foi desmontada no passado com o argumento de que "ela não precisava de investimento" e disse que a paralisação de um estaleiro como aquele, o Enseada (na cidade baiana de Maragogipe), significou "matar gente de desespero". "É isso que eles gostam de fazer. E é isso que eu acho que não deve ser feito", disse.

A diretoria da Petrobras, incluindo Chambriard, havia afirmado dois meses antes que o programa de investimentos seria revisto diante da queda do petróleo.

A CEO afirmou a investidores que projetos quase prontos e maduros para execução haviam entrado em reavaliação. "Quando nós olhamos para eles em um novo patamar de preço, eles voltaram para o portão dois [fase anterior] para serem otimizados, exatamente por conta do preço do petróleo", afirmou a executiva em teleconferência com analistas sobre os resultados do segundo trimestre, em 8 de agosto.

Um dos projetos citados, por exemplo, foi a retomada da produção de petróleo em terra em um polo na Bahia que havia sido posto à venda no governo Jair Bolsonaro (PL). A possível desistência desse investimento, no estado do ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, gerou protestos de sindicatos.

A visão de Magda foi corroborada na conversa pelo diretor financeiro da Petrobras, Fernando Melgarejo. "[No plano 2026-2030] vamos ter que reavaliar alguns projetos. Na verdade, vamos reavaliar todas as premissas e, com isso, colocar essas premissas nos projetos e identificar aqueles que são viáveis", disse ele.

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"Os que não passarem na nossa régua, por certo, ficarão pelo caminho ou serão postergados ou buscaremos alternativas de engenharia que barateiem esse Capex [valor de investimento] para ele ser viável financeiramente", afirmou Melgarejo.

Pouco depois, em 18 de agosto, Magda reiterou a visão. "Vamos sim adaptar o nosso planejamento estratégico à realidade de um mercado que hoje trabalha com o preço de um produto, que é o que nós vendemos, a menor. Não podemos deixar de fazer isso", afirmou ela à agência Eixos.

Na semana passada, em meio às discussões, Chambriard publicou em rede social um gráfico que mostra a queda do petróleo desde meados de setembro. "Uma figura vale mais do que muitas palavras", escreveu, sem detalhar.

O ministro Alexandre Silveira (Minas e Energia) afirmou em julho à Folha que Chambriard equilibra interesses de investidores e da União e que as divergências dele com o CEO anterior, Jean Paul Prates, diziam respeito a investimentos em certas áreas.

"Na campanha eleitoral, ele [Lula] fez alguns compromissos. Eu entendia que um deles era exatamente aumentar os investimentos da Petrobras em fertilizantes, o que tem sido feito agora, aumentar a capacidade da Petrobras, ampliar o fornecimento de gás para reindustrializar o Brasil. Investimentos que eram fundamentais. A Petrobras precisa se revigorar cada vez mais", disse.

O Itaú BBA publicou neste mês um relatório em que classifica a possibilidade de uma redução nos investimentos em 2026 como um ponto central de debate sobre a empresa. "O sentimento dos investidores tem sido misto: enquanto alguns acreditam na concretização desse cenário [redução dos dispêndios], outros permanecem céticos", afirma a equipe da analista Monique Martins Greco Natal.

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