Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 10h35m
Vitória News — Um jornal de verdade
Economia

Funcionários de registro de íris aceitavam condições de uso em nome de usuários

FolhaPress 26/01/2025 11:14

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A jornada de cadastro dos dados da íris para receber mais de R$ 600 em um ano começa no aplicativo de celular World App. Durante o registro, a pessoa precisa aceitar um contrato, para consentir que o projeto, patrocinado pelo CEO por trás do ChatGPT, Sam Altman, trate as informações biométricas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Em dois dos pontos de coleta no bairro de Pinheiros, na capital paulista, a Folha testemunhou funcionários da rede World aceitando as condições de uso no lugar das pessoas que cederam a biometria ocular no processo de criação da identidade digital World ID.

Um possível prejuízo à manifestação livre do titular, condição primordial para que a hipótese legal do consentimento seja utilizada de forma adequada, foi o principal argumento da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) na medida preventiva aplicada na sexta-feira (24), que suspendeu a oferta de pagamento pelas informações da íris.

A aceitação dos termos de tratamento de dados deve estar "isenta de qualquer mecanismo que possa explorar as fragilidades ou vulnerabilidades do titular", diz o regulador na decisão.

A empresa responsável pelo projeto, Tools for Humanity (TfH), tem cinco dias úteis para interromper a prática e dez dias corridos para recorrer contra a decisão.

Embora seja a TfH quem responda legalmente pela coleta de dados, quem realiza o registro são empresas terceirizadas, de acordo com documento mencionado no processo de fiscalização aberto pela ANPD em novembro.

SESC PICASSO

Em nota enviada à reportagem, a rede World diz que "todos os operadores de rede de terceirizados, antes de serem autorizados a operar, passam por treinamentos e por um rigoroso processo de conheça o seu cliente (KYC, Know Your Client)". O KYC é uma prática de compliance para verificar o histórico de alguém em uma relação comercial.

O projeto recruta os operadores usando um formulário em seu site, "preenchível em menos de um minuto". Depois, entrevista os interessados, que, caso sejam aprovados, recebem um orb, o computador esférico usado para coletar os dados da íris, e passam por "um treinamento extenso".

A World começou a operar no Brasil em 12 de novembro, com oito estandes de coleta. Pouco mais de dois meses depois, já são 50 pontos operando na capital paulista e há planos para levar a operação para outras cidades do país. Mais de 400 mil brasileiros já registraram a íris, segundo a TfH.

Segundo a empresa, processo de criação do World ID, que visa a atestar que alguém é um humano e não um robô, está em conformidade com todas as leis e regulamentos do Brasil. A TfH afirma que anonimiza todos os dados com um método de criptografia avançada.

CONTADOR - BONUS

"Os novos códigos de íris são fracionados por meio de uma técnica conhecida como Computação Multipartidária Anonimizada (AMPC). Esses fragmentos não revelam informações sobre o indivíduo e são armazenados em bancos de dados operados por terceiros confiáveis, como a Universidade Friedrich Alexander Erlangen-Nürnberg, na Alemanha."

Uma das preocupações do regulador brasileiro é que exista clareza para a pessoa que cadastre a biometria ocular do que será feito com essa informação. "Múltiplos aspectos podem prejudicar a efetiva compreensão e decisão, pelo titular, sobre o tratamento de seus dados, a exemplo de acentuadas assimetrias informacionais e de padrões tendenciosos em sites da internet", afirma o documento assinado pelo coordenador de fiscalização da ANPD Jorge André Fontelles de Lima.

Outra preocupação da autarquia é a "irreversibilidade ou difícil reversão" da coleta da biometria ocular.

A rede World cria, a partir da imagem da íris, um código numérico, que é embaralhado e gravado em um sistema de blockchain. Nessa tecnologia, os computadores precisam, para resgatar o dado original, montar uma espécie de quebra-cabeças que só funciona se estiver com todas as peças íntegras --ou seja, nenhuma informação pode ser apagada.

O projeto argumenta que as fotografias dos olhos são criptografadas e armazenadas apenas no celular do usuário, junto a uma chave criptográfica individual.

Anuncio - Raimundo - Bonus

A TfH ainda pode acessar as informações no celular, desde que o aplicativo esteja baixado e tenha permissões para editar pastas e arquivos, diz o professor da Escola Politécnica da USP Marcos Simplício.

A rede World remunera periodicamente os usuários que mantêm o app instalado. O registro garante o pagamento de 25 Worldcoins em 24 horas, às quais se somam depósitos por um ano. A soma final é de 48,5 criptomoedas, hoje avaliadas a R$ 12,75 --R$ 618, no total.

Quando abriu investigação contra a Tools for Humanity, a ANPD também pediu uma avaliação de riscos do tratamento de dados e os mecanismos adotados em relação a crianças e adolescentes.

Durante o processo de registro no World App, o usuário deve informar o CPF e recebe a instrução de que o cadastro da íris só será realizado mediante apresentação de documento com foto. "Essa medida está em vigor desde o princípio de nossas operações, para evitar que menores se verifiquem, pois menores de idade não estão autorizados a participar do projeto", diz a TfH.

Nos pontos de coleta visitados pela reportagem, entretanto, os operadores não pediam às pessoas que mostrassem seus documentos de identificação.

Na medida preventiva, a ANPD ainda não abordou o tratamento de dados de menores de idade.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas