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Política

Fórum em Lisboa começa com jeito de 'Gilmarpalooza' e sob debate sobre ética de ministros

FolhaPress 26/06/2024 19:38

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - O Fórum Jurídico de Lisboa, que chega neste ano à 12ª edição, faz jus ao apelido de "Gilmarpalooza", pelo qual é conhecido nos meios jurídicos e políticos. Como um festival de rock, tem os palcos oficiais e a "programação alternativa" —que, a depender do dia, tem muito mais apelo.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A "programação alternativa" do Gilmarpalooza deste ano começou nesta terça-feira (25) com um coquetel promovido por Flávio Rocha, dono da rede de lojas Riachuelo.

O apartamento de cobertura do empresário em Lisboa fica no prédio que no passado pertencia ao jornal Diário de Notícias, na avenida da Liberdade —que os lisboetas consideram a "Avenue Champs-Élysées portuguesa" pela quantidade de lojas de grife que marca a via parisiense.

O endereço chegou a abrigar, em tempos idos, etapas do concurso Miss Portugal.

Compareceram ao coquetel políticos como Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, e o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP; gente da área financeira, como o banqueiro André Esteves e Luiz Carlos Trabuco Capri, presidente do Conselho de Administração do Bradesco; empresários como o próprio Flávio Rocha; e o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), anfitrião do evento. No coquetel, circularam garrafas de Pera Manca, vinho alentejano de qualidade superior, em suas versões tinta e branca.

A programação oficial começou no dia seguinte, quarta, 26, na Universidade de Lisboa, com um cardápio bem mais modesto: salgadinhos de pão com salsicha, sanduíches de queijo, brigadeiro e suco de frutas vermelhas. Na sessão solene de abertura, Lira saudou a "diversidade de perspectivas dos oradores do Fórum", e Gilmar celebrou o fato de o evento "estar integrado de forma indelével ao calendário jurídico-político luso-brasileiro".

SESC PICASSO

O primeiro dia do Fórum de Lisboa tem a participação de vários integrantes do Executivo e do Legislativo, incluindo alguns dos nomes citados acima. É no segundo dia que começam a chegar os outros integrantes do Supremo Tribunal Federal, além de Gilmar.

O programa prevê falas dos ministros do STF Dias Toffoli e Luís Roberto Barroso no final da tarde desta quinta dia 27. Para a sexta dia 28 estão previstos os ministros Flávio Dino, da Justiça, e Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes, do STF, além de novamente Gilmar na sessão de encerramento.

Os seis ministros do tribunal se deslocaram a Lisboa no momento em que os brasileiros iniciam um debate sobre os gastos em eventos aos quais comparecem juízes da Suprema Corte.

A discussão foi desencadeada em abril deste ano, quando ministros do STF participaram de um evento em Londres bancado por empresas com ações nos tribunais superiores. Mais tarde, em junho, o STF pagou R$ 39 mil a um segurança de Toffoli para uma viagem ao Reino Unido, que incluiu uma ida ao estádio de Wembley para assistir à final da Champions League entre Real Madrid e Borussia Dortumund.

O debate sobre transparência de gastos das supremas cortes não se restringe ao Brasil. A discussão mais acalorada se deu no ano passado nos Estados Unidos e resultou na criação de um Código de Conduta para a Suprema Corte. O documento, divulgado em 13 de novembro de 2023, reafirma o direito de os juízes participarem de eventos acadêmicos —como é o caso do Fórum de Lisboa, promovido pela Fundação Getúlio Vargas, a Universidade de Lisboa e o IDP, instituto que tem Gilmar como um dos proprietários.

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O código americano faz, no entanto, várias advertências. Tais eventos não podem ser patrocinados por empresas que têm casos na Suprema Corte ou que podem chegar a instâncias superiores no curto prazo. Os juízes também não podem participar de eventos de campanha de partidos políticos nem promover produtos comerciais.

Como no Brasil, o debate americano teve alguns fatos desencadeadores. Tudo começou quando o incorporador imobiliário Harlan Crow, apoiador do Partido Republicano, comprou um imóvel do juiz Clarence Thomas, deu carona ao magistrado em seu jatinho e pagou a escola de seu sobrinho. Thomas disse em sua defesa não ter culpa de ter "amigos ricos".

Outro juiz da Suprema Corte, Samuel Alito, fez uma viagem de férias junto com o investidor do mercado financeiro Paul Singer, que pagou suas despesas. Singer tinha questões pendentes na Justiça americana. O caso foi revelado pela agência jornalística ProPublica.

Houve também o caso de Sonia Sottomayor, primeira hispano-americana a ocupar um cargo na Suprema Corte americana, acusada de usar o prestígio da instituição para promover a compra de seus livros por parte de universidades.

O código de conduta americano apenas define regras de bom senso, sem prever um limite de despesas ou obrigar um juiz a prestar contas —e foi bastante criticado por isso quando de sua publicação. O debate nos Estados Unidos parece estar apenas começando.

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Na Europa, as cortes superiores têm códigos de conduta mais específicos. Na Alemanha, existe um valor limite para os presentes que um magistrado pode receber —€ 150. O juiz pode ter atividade acadêmica e dar palestras, mas deve colocar os cachês no site da corte para que os cidadãos alemães julguem se está dentro do que é apropriado. A página do site é escrita também em inglês, pelo fato de a Alemanha ser cada vez mais uma sociedade multicultural.

No país, a criação de regras para a Suprema Corte também se deu depois da divulgação de alguns fatos constrangedores. Em geral, de juízes que se envolviam em causas polêmicas depois de deixarem a instituição —na Alemanha, ao contrário do Brasil, o cargo de juiz não é vitalício, mas obedece a um mandato de 12 anos.

Em Portugal, vale igualmente a regra dos € 150, e o juiz tem que prestar contas do que recebe. Não é necessário que faça isso em público, como na Alemanha. Suas despesas são encaminhadas à Presidência da República e lá ficam registradas em caso de algum questionamento.

Nos Estados Unidos, a criação de um Código de Conduta, ainda que incipiente, estancou uma onda de perda de popularidade da Suprema Corte. Na Alemanha, elevou os índices de aprovação a 80%. Como admitiu Luís Roberto Barroso, presidente do STF, em recente entrevista ao programa Roda Viva, o tribunal brasileiro não se submete a nenhum código de conduta.

Seria possível um evento como o Gilmarpalooza em que juízes americanos, alemães ou portugueses confraternizam com banqueiros, empresários e políticos, em eventos oficiais e outros fora da agenda? A análise dos códigos de conduta das supremas cortes desses países sugere que, ao menos, haveria um maior grau de transparência nas despesas —e maior cuidado com o escrutínio da opinião pública.

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