Debate na Assembleia aponta impactos sociais, econômicos e aumento da vulnerabilidade feminina
A falta de vagas em creches para crianças de zero a três anos no Espírito Santo tem gerado impactos diretos na autonomia das mulheres e ampliado situações de vulnerabilidade social. O tema foi debatido em encontro promovido pela Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa (Ales).
Dados apresentados indicam que o estado possui pouco mais de 188 mil crianças nessa faixa etária, mas apenas 37% têm acesso a creches. A ausência de vagas afeta principalmente mães que precisam trabalhar e não têm onde deixar os filhos.
Moradora de Jardim Abaeté, em Terra Vermelha, Vila Velha, Daiane Brunoro relatou as dificuldades enfrentadas no cotidiano. "Você precisa trazer o pão para dentro de casa e, ao mesmo tempo, com quem você vai deixar o seu filho? Espero que sejam criadas mais escolas e que essas escolas sejam formadas por profissionais capacitados, que tenham a experiência e a capacidade de atender bem nossas crianças, que elas possam desenvolver suas habilidades", afirmou.
Impactos vão além do mercado de trabalho
Durante o debate, representantes de diferentes áreas destacaram que a falta de creches vai além da dificuldade de inserção no mercado de trabalho, afetando diretamente a autonomia feminina.
A deputada Iriny Lopes ressaltou que a ausência de vagas repercute dentro do ambiente familiar e limita o desenvolvimento das mulheres. Na avaliação da parlamentar, o acesso à creche funciona como um fator determinante para independência.
"Porque ela estará plena, dona do seu tempo, para fazer investimento no seu crescimento enquanto pessoa. A ausência de creches é um caso sério, é pouco debatido, e as soluções são pequenas. Muitos municípios não cumprem a política de creche porque têm que compartilhar a manutenção, o custeio", observou.
A promotora de Justiça Cristiane Soares, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa do Direito da Mulher (Nevid) do Ministério Público Estadual, destacou que a falta de creches pode intensificar situações de violência.
"Ela não consegue voltar ao trabalho, ela não consegue trabalhar, ela perde o seu emprego ou a possibilidade de ter um novo emprego. É a consequência, possivelmente, de uma violência patrimonial, de violência psicológica e de aumento dessas violências. Então, quando um Estado, quando o município não concede essa creche para criança, essa mulher fica ainda mais na situação vulnerável", analisou.
A promotora também ressaltou que a violência doméstica envolve múltiplos fatores. "É multidisciplinar, intersetorial, então a creche tem importância para as mulheres. Então, quando a gente fala de violência doméstica, a gente não tá falando de crime somente", afirmou.
Situação é mais crítica no interior
A realidade das creches também apresenta desigualdades dentro do próprio estado. Em regiões do interior e em comunidades tradicionais, a oferta é ainda mais limitada.
A vereadora Professora Valdirene, de São Mateus, destacou que a situação é mais crítica fora dos centros urbanos. "As creches urbanas, em relação às creches que estão localizadas no campo, estão muito melhor. Elas têm equipamentos. Agora, no interior, não tem nem a creche. Temos que pensar no interior do estado e, chegando ao interior, no campo, nos povos tradicionais. Temos que pensar no tipo de creche, creche preparadas para receber os neurodivergentes. Se a criança tiver uma crise, onde eu a coloco? Se eu só tenho salas para os alunos no coletivo", disse.
O debate reforça que a ampliação da oferta de creches é considerada estratégica para garantir direitos, reduzir desigualdades e promover maior autonomia para as mulheres.