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Fala sobre minuta pesa contra Bolsonaro e gera debate sobre convocação

FolhaPress 26/02/2024 18:05

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A fala do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre a minuta golpista durante ato na avenida Paulista neste domingo (25) pesa contra o político, mas as autoridades podem optar ou não por chamá-lo para novo depoimento, afirmam especialistas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Na manifestação, Bolsonaro reconheceu a existência de uma minuta golpista, mas negou que tenha havido uma tentativa de um golpe de Estado depois da eleição do presidente Lula (PT). Antes do ato de domingo, a estratégia de defesa do ex-presidente era negar que o político soubesse da existência do documento.

Para a Polícia Federal, a fala de Bolsonaro reforça a linha de investigação de que a trama golpista realmente ocorreu. Depois da repercussão, Paulo Cunha Bueno, advogado de Jair Bolsonaro, afirmou, nesta segunda-feira (26), que o ex-presidente fazia referência a um texto recebido pelo político em 2023, após a saída dele do governo.

"Declaração do presidente foi em cima da minuta que ele só teve conhecimento em outubro de 2023. Não reforça em nada a investigação, porque foi a primeira minuta que ele viu. Não tinha visto antes", disse Bueno à Folha.

Além de citar a minuta, Bolsonaro defendeu não ter havido tentativa de golpe porque isso requer "tanque na rua", "arma", "conspiração". O discurso de que não haveria uma tentativa de ataque à democracia pela inexistência de violência foi replicado por outros apoiadores na data da manifestação, como o pastor Silas Malafaia, que foi o mais vocal nas críticas contra o STF.

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"O que é golpe? É tanque na rua, é arma, conspiração. É trazer classes políticas para o seu lado, empresariais. É isso que é golpe. Nada disso foi feito no Brasil", afirmou Bolsonaro durante o ato na Paulista. "Agora o golpe é porque tem uma minuta de um decreto de estado de defesa. Golpe usando a Constituição? Tenham a santa paciência", afirmou.

Especialistas ouvidos pela Folha argumentam que a fala de Bolsonaro sobre a minuta foi a mais delicada ocorrida na manifestação. O evento foi acompanhado com atenção pelo histórico de ataques à democracia dos atos bolsonaristas e pela investigação sobre eventual participação em tentativa golpista pelo ex-presidente.

Henderson Fürst, professor de direito constitucional da PUC-Campinas, afirma que a fala poderia ensejar convocação das autoridades para a elucidação sobre o que o político quis dizer, uma vez que Bolsonaro ficou calado quando intimado para falar na PF, na última quinta-feira (22), sobre a possível trama golpista.

"A fala dele não nega a minuta. Ele valida a minuta dizendo que ela não era um ato golpista porque respeitava, inclusive, a própria Constituição", afirma Fürst.

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Segundo Diego Nunes, professor de história do direito penal da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), a convocação pode ser feita pelas autoridades caso elas achem necessário, mas pode também haver a dispensa de um novo depoimento e juntada da fala como prova.

Para Pedro Serrano, professor de direito constitucional da PUC-SP, a fala de Bolsonaro pode pesar nas investigações atuais, e o político deveria ser convocado para prestar novos esclarecimentos.

"Bolsonaro manifestou livremente, numa praça pública, quase a confissão do cometimento de um ilícito", afirma Serrano. "Ele forneceu um forte indício para a polícia de que realmente participou de uma atividade golpista."

Para Marina Coelho Araújo, professora de direito penal do Insper, uma nova solicitação de depoimento a Bolsonaro não é necessária, uma vez que o político já disse que permaneceria calado. "Autoridades têm que fazer uma análise das provas coletadas, do que já foi quebrado de sigilo e do que existe de elementos, e não esperar qual vai ser a explicação dele sobre a questão", afirma.

Tanto Serrano quanto Fürst também chamam a atenção para o argumento propagado por Bolsonaro e aliados durante a manifestação de que uma tentativa de golpe não teria ocorrido em razão do não emprego de violência nas ruas e, segundo Bolsonaro, por postura respaldada pela Constituição.

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Segundo Serrano, ditaduras do século 20 tiveram a característica de serem estados duais, com um braço normativo, regrado pelo direito, e um braço de exceção, o que ocorreu tanto no nazismo de Hitler como na ditadura brasileira. "As ditaduras do século 20 eram sempre declaradas juridicamente, ao contrário do que o presidente pressupõe."

Outra fala que chamou a atenção no evento foi a do pastor Silas Malafaia, que teve postura mais enérgica contra o STF.

Diego Nunes, Marina Coelho Araújo e Pedro Serrano consideram que as falas ditas pelo pastor não extrapolaram o direito de liberdade de expressão, mesmo insertas em contexto de investigação golpista envolvendo Bolsonaro e aliados.

Para Henderson Fürst, entretanto, o discurso de Malafaia de ataque ao STF, ainda que minimizado na manifestação, preserva a mesma linha de raciocínio encontrada em manifestações bolsonaristas anteriores que motivaram os ataques do 8 de janeiro.

Por isso, afirma Fürst, haveria fundamentação jurídica para que o ministro relator da investigação pedisse prisão cautelar se acreditasse que a recorrência do discurso na manifestação é um sinal de que existe um cenário que pode afetar as investigações ou a ordem pública.

Ele diz que o discurso de deslegitimação do STF no qual se diz que, na verdade, "o Supremo poder dessa nação" é o povo, frase dita por Malafaia, tem característica de pensamentos autoritários.

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