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Política

Eunice apelou a Médici sobre desaparecimento do marido Rubens Paiva

FolhaPress 01/03/2025 12:50

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No dia 22 de março de 1971, após dois meses sem respostas sobre o desaparecimento de Rubens Paiva na ditadura militar, Eunice Paiva pediu ao então presidente, Emílio Médici, justiça para seu marido.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Rubens Paiva foi levado por agentes da Aeronáutica no dia 20 de janeiro de 2021 e morreu sob tortura na prisão.

Quando escreveu a Médici, Eunice aguardava havia um mês uma resposta para a carta enviada ao então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, que presidia o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.

Até então, Eunice acreditava que o ex-deputado estava vivo. O apelo foi feito em nome da sogra e da segunda filha, Eliana.

"Pedimos ao Chefe da Nação, a justiça que deve resultar da obediência das Leis. Ao meu marido, que é um brasileiro honrado, não pode ser recusado, num País como o nosso, cristão e civilizado, o direito fundamental da defesa", escreveu Eunice.

"Estamos certas de que Vossa Excelência não permitirá lhe seja negado, sob pena então do desmoronamento de toda a ordem pública, o direito elementar de ser preso segundo as leis vigentes no País", seguiu em sua carta.

A carta consta entre os cerca de 150 documentos reunidos pela Folha no Arquivo Nacional e na Embaixada dos Estados Unidos que permitem refazer a linha do tempo desde o desaparecimento.

SESC PICASSO

O registro não foi contemplado no filme "Ainda Estou Aqui", indicado ao Oscar, e no livro de Marcelo Rubens Paiva, que baseou a obra cinematográfica.

No livro, Marcelo conta que a mãe soube da morte do pai pelo jornalista Fritz Utzeri, do Jornal do Brasil. Utzeri disse ter ouvido de Médici a frase: "morreu em guerra".

O apelo a Médici consta como anexo do processo aberto por Eunice junto ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, que acabaria arquivado em agosto de 1971.

A correspondência é citada pela jornalista e pesquisadora Juliana Dal Piva no livro "Crime sem castigo: como os militares mataram Rubens Paiva".

*

CARTA DE EUNICE PARA EMÍLIO MÉDICI

Excelentíssimo Senhor Presidente da República

Marechal Emílio Garrastazu Médici

Há mais de um mês enviei ao Ministro da Justiça do seu governo, que é igualmente presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, a carta denúncia cuja cópia junto aqui para o conhecimento direto de Vossa Excelência.

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É a carta de uma mulher aflita, que viu desabar sobre sua família uma torrente de arbitrariedades e de desatinos inomináveis, e de que ainda é ainda vítima seu marido, engenheiro Rubens Beyrodt Paiva, preso por agentes da Segurança da Aeronáutica no dia 20 de Janeiro, mantido até agora incomunicável, sem que se conheça o motivo da prisão, quem efetivamente a determinou, e o local onde se encontra.

Secundamos hoje, minha sogra e eu, a mãe e a esposa, os sentimentos de minha filha Eliana, menina de 15 anos, que se dirigiu a Vossa Excelência, depois de libertada, quando eu própria me encontrava detida incomunicável no quartel da Polícia do Exército, à Rua Barão de Mesquita, nesta cidade, pelo simples fato de ser a esposa de Rubens.

Pedimos ao Chefe da Nação, a justiça que deve resultar da obediência das Leis. Ao meu marido, que é um brasileiro honrado, não pode ser recusado, num País como o nosso, cristão e civilizado, o direito fundamental da defesa. Estamos certas de que Vossa Excelência não permitirá lhe seja negado, sob pena então do desmoronamento de toda a ordem pública, o direito elementar de ser preso segundo as leis vigentes no País.

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Rubens foi preso na minha presença e na dos nossos cinco filhos; foi visto por Testemunhas ao longo do dia 20 de janeiro no Quartel da 3ª Zona Aérea de onde foi transportado no fim da tarde para o Quartel da Polícia do Exército na Barão de Mesquita; sua fotografia no livro de registro do prisioneiros no referido quartel da PE eu mesma vi, ao lado da minha própria e da minha filha Eliana; sua presença nesse Quartel me foi afirmada por Oficiais das Forças Armadas que me interrogaram ao longo dos 12 dias em que estive presa, isto é até o dia 2 de fevereiro último; seu carro próprio, no qual foi conduzido prisioneiro, vi-o no pátio do mencionado Quartel e me foi devolvido como comprova o recibo anexo.

Não é possível que, mais de 60 dias decorridos, conserve-se assim desaparecida uma pessoa humana!

Recusamo-nos a acreditar no pior.

Confiamos na ação de Vossa Excelência e em meio a inquietação e angústia enormes que estamos vivendo, acreditamos que Vossa Excelência fará prevalecer a autoridade das leis do seu Governo e o respeito à justiça que enobrece as nações.

Respeitosamente,

Maria Eunice Paiva

Rio de Janeiro, 22 de março de 1971

A reportagem foi produzida em parceria com o Google. A Folha de S.Paulo coletou documentos que estão agora organizados e disponíveis à consulta na ferramenta Pinpoint.

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