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Estudo genético ajuda a proteger peixes da Amazônia

Pesquisa inédita decifra genoma de espécies e reforça combate à exploração ilegal

Vitória News 27/01/2026 03:52
Estudo genético ajuda a proteger peixes da Amazônia

Uma pesquisa inédita conduzida por cientistas da Universidade Federal do Pará (UFPA) decifrou o genoma de duas espécies emblemáticas da Amazônia e abriu novas possibilidades para a conservação da biodiversidade e o combate à exploração predatória. O pirarucu (Arapaima gigas) e o filhote (Brachyplatystoma filamentosum) foram as primeiras espécies amazônicas a terem seus conjuntos completos de DNA mapeados no estudo.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

As duas espécies compartilham características que motivaram a escolha pelos pesquisadores: alta demanda gastronômica e dificuldades de reprodução em ambientes de piscicultura. O avanço da exploração comercial tem pressionado as populações naturais desses peixes, o que levou a equipe científica a buscar soluções baseadas no conhecimento genético.

Segundo o pesquisador Sidney Santos, que lidera o Laboratório de Genética Humana e Médica do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA, o estudo surgiu da necessidade de reduzir os impactos da retirada predatória do ambiente natural. “A ideia central é, se você de uma forma equilibrada e direcionada conseguir conhecimento suficiente para produzir esses peixes do jeito mais sustentável possível, você pode diminuir a demanda da natureza”, explica.

Para alcançar esse objetivo, os pesquisadores coletaram amostras biológicas de mais de 100 indivíduos das duas espécies. A partir desse material, foi possível decifrar a sequência completa do DNA, molécula responsável por armazenar informações sobre saúde, características físicas e ancestralidade. A leitura do genoma funciona como um manual detalhado da espécie, permitindo compreender seu funcionamento biológico.

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“Isso pode valer para qualquer animal que você imagine, qualquer vegetal. O modelo é sempre o mesmo. Se você, de uma forma sustentada, consegue a informação completa sobre o genoma desses animais, você pode fazer qualquer coisa com eles, inclusive reproduzir”, afirma Santos.

Na prática, o mapeamento genético permite identificar se um peixe comercializado é fruto de piscicultura ou se foi retirado ilegalmente da natureza. Esse avanço amplia o controle sobre a cadeia produtiva e dificulta o comércio irregular.

A pesquisa também fortalece a rastreabilidade genética das espécies. De acordo com Igor Hamoy, diretor do Instituto Sócio Ambiental e dos Recursos Hídricos da Universidade Federal Rural da Amazônia, o genoma permite identificar a origem exata de um animal. “Com a história que está dentro do genoma do pirarucu, por exemplo, eu consigo descobrir se um pirarucu que está sendo vendido em Boston foi oriundo da Amazônia”, afirma.

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Hamoy destaca ainda que todas as informações geradas pelo estudo são armazenadas em bancos genéticos públicos, o que facilita o desenvolvimento de novas pesquisas. “Eu consigo descobrir exatamente que espécie é aquela e não ter mais dúvidas se o nome científico ou o nome vulgar que está sendo utilizado é realmente aquele peixe que aquela comunidade amazônica há muito tempo consome e trabalha”, explica.

Os dados genéticos também permitiram avanços em áreas que limitavam a piscicultura dessas espécies, como a indução hormonal, a definição de dietas adequadas para ambientes artificiais e o controle de origem dos peixes comercializados.

Para a secretária nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Rita Mesquita, esse tipo de pesquisa orienta a formulação de políticas públicas. “A pesquisa genética contribui para aumentar nosso conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e também contribui para a gente conseguir melhor compreender o que já foi feito e o que ainda falta ser feito”, afirmou.

Segundo ela, o planejamento ambiental até 2030 foi estruturado com base em evidências científicas para reduzir a perda de biodiversidade e regenerar biomas. Políticas como a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção e o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa dependem diretamente desse tipo de informação genética.

“Em processos de refaunação ou restauração de vegetação, essa biblioteca de informação genética permite que a gente devolva as espécies aos lugares certos”, explica Mesquita.

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Apesar dos avanços, os pesquisadores destacam desafios, especialmente na Amazônia. Sidney Santos ressalta que o custo do sequenciamento caiu drasticamente nos últimos anos, mas ainda é elevado. “O genoma humano, que foi o primeiro, demorou 10 anos para ser feito e custou bilhões. Hoje, com o equipamento que usamos, é possível sequenciar dezenas de genomas em poucas horas, mas ainda há custos relevantes”, diz.

Ele lembra que o equipamento da UFPA é o único sequenciador genético do setor público em funcionamento na Amazônia e que fatores logísticos encarecem as pesquisas na região. “O parque tecnológico existe, mas o insumo precisa ser financiado. São muitas linhas de pesquisa que dependem de recursos, especialmente as aplicadas”, afirma.

Para Rita Mesquita, o desafio de proteger as espécies é proporcional à riqueza da biodiversidade brasileira. “O papel do Ministério é continuar trabalhando com a ciência para aprimorar informações, proteger territórios e garantir que espécies ameaçadas não desapareçam”, reforça.

Ela destaca ainda que o conhecimento científico é fundamental para estabelecer uma relação sustentável entre seres humanos e a biodiversidade. “Isso vale para bicho e vale para planta. Se a gente tem formas de manejar de maneira sustentável, recuperar e devolver, é possível garantir populações protegidas e uso responsável dos recursos naturais”, conclui.

Fonte: Agência Brasil

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