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Política

Esquerda discute espaço para pautas identitárias e calcula riscos após derrotas nas urnas

FolhaPress 29/12/2024 08:37

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após o debate sobre as chamadas pautas identitárias atravessar os últimos ciclos eleitorais, a esquerda no Brasil busca enfrentar o tema numa tentativa de afastar contradições e alinhar discursos para evitar que a ligação com bandeiras segmentadas vire bode expiatório de derrotas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A dimensão das bandeiras identitárias no PSOL, sobretudo nos representantes do Legislativo, foi citada por setores do PT como uma das causas do fracasso de Guilherme Boulos na disputa à Prefeitura de São Paulo, sob o argumento de que afugentam setores mais amplos do eleitorado.

A avaliação hoje é de que é preciso reafirmar apoio a políticas de direitos específicos a uma parcela da população, como mulheres, negros e comunidade LGBTQIA+, mas sem que essa atenção signifique um abandono de causas clássicas da esquerda, como luta de classes e políticas públicas universais.

O tema se transformou em questão espinhosa para o chamado campo progressista, no momento em que conservadores avançam no diálogo com estratos sociais que já estiveram mais próximos da esquerda ou que têm consolidado uma rejeição profunda a ela, como é o caso dos evangélicos.

A crítica à centralidade que as pautas individuais têm adquirido se sustenta no argumento de que a extrema direita -ou, no caso brasileiro, o bolsonarismo ideológico- usa tais reivindicações como espantalhos do debate público.

O caso do aborto é emblemático, com líderes à direita distorcendo ou hiperdimensionando pontos da discussão para atacar e descredibilizar o lado rival.

Para a presidente nacional do PSOL, Paula Coradi, "não existe projeto de esquerda que não passe por mulheres, negros e indígenas, compreendendo as lutas por liberdade e diversidade". Ela diz que recuar nessa seara para não alimentar a direita pode gerar regressão de direitos.

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"Para nós do PSOL, essas ditas pautas identitárias não devem ser lidas dessa forma. A classe trabalhadora tem gênero, raça e formas de existir, de amar e de se relacionar com o mundo. Ela é atravessada por esses marcadores. Sem falar que mulheres e negros são majoritários", afirma.

Paula aponta o dedo para "a velha esquerda" ao defender que o campo pode, sim, "combinar as lutas históricas por justiça social e reforma agrária com as lutas do nosso tempo". Ela diz que as reivindicações que agora se impõem foram negligenciadas por muitos anos.

O PSOL lançou 210 candidatos a prefeito em 2024 no país e não elegeu nenhum.

Dias após perder para Ricardo Nunes (MDB), Boulos disse ao fim de um evento com simpatizantes que "tem que tomar cuidado" quando o assunto são as pautas identitárias.

Ele afirmou que a esquerda "não pode abandonar de forma nenhuma" a defesa de direitos de grupos minorizados. "Isso é uma coisa. Outra coisa é transformar isso no centro da disputa política, que é o que a extrema direita faz no mundo inteiro. Nessa cilada a gente não pode cair", declarou.

A presidente do partido classifica como descabida a associação entre a derrota do correligionário e a temática identitária.

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Segundo Paula, o resultado foi fruto do "uso desenfreado da máquina pública" em favor de Nunes e da presença avassaladora do influenciador Pablo Marçal (PRTB), que fortaleceu o prefeito ao posicioná-lo, por comparação, como "um sujeito viável e aceitável".

O deputado federal Orlando Silva (PC do B-SP), que atuou na campanha de Boulos e milita na causa antirracista -como candidato a prefeito de São Paulo em 2020 usou o slogan "não vote nulo, não vote em branco, vote no preto"-, avalia como "falsa contradição" a escolha entre lutas gerais e específicas.

"As políticas universais têm que incluir os diversos segmentos, que têm outras dimensões de vulnerabilidade para além da situação econômica. E, da mesma forma, a luta especifica não pode ser travada abstraindo a geral. Temos de ter clareza do que é inegociável para nós", diz.

Orlando também tem a visão de que frear a demanda identitária "alegando que eleitoralmente é ruim ou não é conveniente" pode motivar acusações de oportunismo eleitoral e perda de confiança. "Recuar numa disputa de ideias pode ser fatal."

O deputado enxerga as críticas ao chamado identitarismo como tentativa de "desqualificar trabalhos importantes" e aponta sua origem na academia e na elite política. "É uma crítica feita por gente estabelecida, quase sempre bem posicionada. Nunca vi um líder comunitário levantando esses questionamentos."

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As pautas identitárias emergiram num contexto em que grupos historicamente excluídos impuseram suas necessidades, "recusando-se a colocá-las como questões menores, subalternas às questões de classe", afirma Luis Felipe Miguel, professor de ciência política da UnB (Universidade de Brasília).

Outro componente, diz ele, foi o esgotamento dos modelos tradicionais da esquerda classista, o que levou o espectro a marcar sua diferença abraçando as causas de grupos oprimidos. Isso, contudo, não significou contestação ao sistema neoliberal, limitando-se a "ajustes cosméticos".

Em paralelo, "a nova extrema direita percebeu que tinha como explorar os ressentimentos difusos" gerados por discursos pró-diversidade que soavam hegemônicos, segundo o pesquisador.

"O identitarismo é mais sintoma do que causa da crise da esquerda. É a válvula de escape de uma esquerda que não apresenta mais um projeto de transformação anticapitalista da sociedade", afirma.

O docente acredita que, no aspecto eleitoral, tendem a se beneficiar mais das pautas identitárias candidatos a cadeiras no Legislativo. Ainda assim, a votação fica restrita a eleitores já com inclinação à esquerda. No caso de cargos majoritários, o discurso espanta as grandes parcelas do eleitorado, diz ele.

Miguel vê, no entanto, surgir hoje uma reação a essa linha de atuação dentro da própria esquerda.

"As tentativas de silenciamento das críticas, na base de carteiradas de 'lugar de fala', já encontram resistência. Não cola mais o discurso de vitimização que tenta fazer com que qualquer discordância seja automaticamente definida como recusa da importância das agendas de gênero ou racial", comenta.

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