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Política

Dino pode ser considerado suspeito sobre Bolsonaro, mas deve julgá-lo sobre 8/1 e pandemia

FolhaPress 28/11/2023 12:00

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se assumir a vaga aberta no STF (Supremo Tribunal Federal), o atual ministro da Justiça, Flávio Dino, pode ser considerado suspeito na hora de votar processos relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), afirmam especialistas.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A suspeição pode ocorrer em razão de diferentes declarações públicas contra o ex-presidente já feitas por Dino, que chegou a chamar Bolsonaro de "serial killer" e "próprio demônio".

Durante a pandemia, o ex-governador do Maranhão pelo PC do B classificou a política adotada por Bolsonaro como "genocida" e disse que o então mandatário era "irresponsável", "despreparado" e "desesperado".

Entretanto, mesmo com a possibilidade de a parte interessada alegar suspeição, é pouco provável que Dino deixe de votar nos processos, segundo os especialistas.

Ricardo Gueiros, professor de direito constitucional da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), afirma que o Código de Processo Civil tem dois mecanismos para coibir a possível parcialidade dos juízes.

O artigo 144 cita os casos em que pode haver o impedimento do magistrado. Ele pode ser acionado quando o juiz, por exemplo, está prestes a votar em processos que envolvem companheiros ou parentes até o terceiro grau.

Já o artigo 145 prevê os casos de suspeição. É aventado quando há dúvidas se o juiz é amigo íntimo ou inimigo das partes do processo, por exemplo.

"As causas para o impedimento são mais fortes. Quando é o caso, dificilmente o juiz insiste em julgar o processo", diz Gueiros. "Já a suspeição é mais subjetiva. Nesse caso, costumeiramente se vê o juiz tendente a julgar o processo, alegando que não é parcial."

Há diferença entre impedimento e suspeição. Enquanto o impedimento tem regras mais objetivas, a suspeição dá margem à interpretação e nem sempre é reconhecida. Um aspecto comum é que tanto o impedimento quanto a suspeição têm como finalidade garantir imparcialidade nas decisões judiciais.

SESC PICASSO

Segundo Gueiros, as falas de Dino sobre Bolsonaro poderiam ensejar suspeição. Ainda assim, seria pouco provável que a alegação fosse acolhida, tendo em vista o histórico do STF, que não costuma considerar o pedido procedente para os ministros da corte.

"O pedido de suspeição pela parte interessada muitas vezes não tem eficácia prática no STF. Depende mais de o próprio ministro se declarar suspeito. Se ele não o fizer, é pouco provável que a suspeição seja declarada pelo tribunal", concorda Ana Beatriz Presgrave, professora de direito da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

Galeria Quem são os ministros do STF O Supremo Tribunal Federal é a mais alta instância do Judiciário brasileiro; conheça sua atual composição https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/nova/49738-ministros-do-supremo *** Para os dois especialistas, entretanto, seria mais adequado se o próprio Dino se declarasse suspeito ao julgar fatos sobre os quais já se manifestou envolvendo Bolsonaro.

"O instituto da suspeição serve para que o magistrado adote as cautelas devidas para evitar a mera aparência da parcialidade, mesmo se considerando imparcial para julgar", afirma Gueiros.

Mesmo se Dino não se declarar suspeito, a corte tem recursos para evitar que o resultado final dos julgamentos seja parcial, diz Presgrave.

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"As decisões precisam ser fundamentadas juridicamente, e o STF é um órgão colegiado. Esses são mecanismos que podem evitar que o enviesamento político de um julgador contamine totalmente o julgado."

Já Vânia Aieta, presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB-RJ e professora de direito da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), não considera que Dino precise necessariamente alegar suspeição nos processos envolvendo Bolsonaro.

"O Bolsonaro não é um desafeto ou inimigo do Dino. Eles foram opositores em campos políticos. Isso não quer dizer que Dino não tenha a serenidade para julgar o ex-presidente respeitando o devido processo legal", afirma.

Para ela, entretanto, os mecanismos de impedimento e suspeição deveriam ser, de maneira geral, mais recorrentes, a fim de garantir a imparcialidade do Judiciário.

O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, também já deu declarações que geraram celeuma. A maior delas foi quando disse "nós derrotamos o bolsonarismo" durante evento da UNE (União Nacional dos Estudantes), em julho deste ano, em Brasília.

A fala gerou um pedido de impeachment protocolado por políticos bolsonaristas. Eles alegaram exercício de atividade político-partidária por parte do ministro.

Para Gueiros e Presgrave, o caso de Barroso é diferente, porque o magistrado não se referiu à pessoa de Jair Bolsonaro, mas a um movimento mais amplo, o bolsonarismo.

Ainda assim, Gueiros defende que juízes deveriam adotar uma postura mais cautelosa e fazer menos declarações públicas.

O que Dino já disse sobre Bolsonaro

"Serial Killer"

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Enquanto era governador do Maranhão pelo PC do B, Dino chamou Bolsonaro de serial killer ao citar crimes de responsabilidade que teriam sido cometidos pelo ex-presidente durante a pandemia. A fala ocorreu em entrevista ao TVT, em abril de 2021.

"Desde o ponto de vista fiscal, essa tentativa de golpe. Coação no Judiciário, no Legislativo. Ameaças aos governadores com violação do princípio federativo. É um serial killer. Ele pega os tipos penais da Lei 1.079 e percorre com maestria. Um dos pontos altos, o que ele faz melhor na vida, é cometer crime de responsabilidade", disse.

"É o próprio demônio"

Em abril de 2022, Dino chamou Bolsonaro de o próprio demônio. A fala se deu durante entrevista ao UOL, quando Dino falava da importância de uma terceira via para as últimas eleições presidenciais. Ele já havia deixado o cargo de governador do Maranhão para concorrer ao Senado.

Dias depois, Dino afirmou " Bolsonaro perderá, mas nós precisamos que o bolsonarismo volte para a sua casinha. [Precisamos] que o demônio volte para o inferno. Para isso, é preciso que haja mais exorcistas em ação". A declaração foi dada em entrevista ao jornal Valor Econômico.

"Política Genocida", "irresponsável" e "despreparado"

Em diferentes ocasiões, Dino chamou a política de Bolsonaro durante a pandemia de genocida. O ex-governador do Maranhão fez publicações nas redes sociais chamando o ex-presidente de pessoa despreparada e desesperada e irresponsável.

"Esse é o triste retrato de onde uma política genocida colocou o Brasil. O mundo se livrando do coronavírus, enquanto que, na nossa pátria, irresponsáveis não se arrependem e não abandonam o caminho da insanidade", escreveu em rede social em março de 2021.

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