Países adiam novamente estratégia internacional para enfrentar eventos extremos, enquanto novas iniciativas tentam ampliar recursos para segurança hídrica, agricultura sustentável e recuperação de terras
A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) terminou sem o acordo global esperado para enfrentar de forma coordenada o avanço das secas, deixando para a próxima conferência uma das principais decisões ambientais em discussão.
Realizada entre 17 e 28 de agosto em Ulaanbaatar, na Mongólia, a conferência reuniu representantes dos países integrantes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).
A ausência de consenso provocou críticas de organizações ambientais e especialistas, que alertam que o adiamento ocorre em um momento de intensificação dos eventos extremos e poderá atingir principalmente comunidades mais vulneráveis.
Secas afetam água, alimentos e economia
A preocupação vai além da falta de chuva.
Períodos prolongados de seca comprometem o abastecimento de água, reduzem a produção agrícola, pressionam os preços dos alimentos, afetam a geração de energia e degradam ecossistemas.
Os impactos também atingem diretamente agricultores familiares, comunidades tradicionais, povos pastoris e populações que dependem dos recursos naturais para garantir renda e alimentação.
Segundo a UNCCD, a degradação da terra já afeta até 40% das áreas terrestres do planeta.
As mudanças climáticas, combinadas ao uso inadequado do solo e da água, tendem a aumentar a frequência, duração e intensidade das secas em diferentes regiões.
Acordo é novamente adiado
A criação de um mecanismo internacional específico para enfrentar as secas vem sendo defendida há várias conferências, especialmente por países africanos e outras nações mais vulneráveis.
Uma das principais reivindicações é garantir recursos financeiros e mecanismos de cooperação que permitam aos países se preparar antes dos eventos extremos, em vez de concentrar esforços apenas depois que os danos já ocorreram.
As negociações, porém, voltaram a esbarrar em divergências sobre compromissos obrigatórios, financiamento e responsabilidades entre os países.
Com a falta de consenso, o tema continuará como item específico da agenda da COP18.
Para especialistas e organizações da sociedade civil, o novo adiamento pode ampliar desigualdades porque países com menor capacidade financeira enfrentam mais dificuldades para investir em sistemas de alerta, infraestrutura hídrica, recuperação de solos e adaptação da agricultura.
Financiamento tenta preencher parte da lacuna
Apesar do impasse político, a COP17 apresentou mecanismos voltados a ampliar os investimentos em resiliência climática.
Um dos principais anúncios foi o Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca, conhecido pela sigla DRIF.
Criado pela UNCCD e por Luxemburgo, com apoio da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca, o mecanismo pretende mobilizar até US$ 400 milhões em recursos públicos e privados.
O dinheiro deverá financiar projetos de segurança hídrica, agricultura sustentável, soluções baseadas na natureza e recuperação de terras degradadas.
A conferência também apresentou uma carteira de aproximadamente US$ 1,3 bilhão em financiamentos para restauração de terras e resiliência à seca em 23 países.
Embora representem avanço na mobilização de recursos, essas iniciativas não substituem o mecanismo internacional defendido pelos países mais vulneráveis.
Prevenção custa menos que resposta ao desastre
Uma das mudanças defendidas por especialistas é substituir o modelo de reação às secas por políticas permanentes de prevenção.
Isso inclui ampliar sistemas de monitoramento e alerta precoce, recuperar nascentes e áreas degradadas, aumentar a capacidade de armazenamento de água e incentivar práticas agrícolas adaptadas a períodos prolongados de escassez hídrica.
Soluções baseadas na natureza também ganham importância. A recuperação de vegetação e solos degradados aumenta a capacidade do território de reter água, protege a biodiversidade e pode reduzir os impactos de temperaturas extremas.
Outro instrumento apresentado durante a COP17 foi o primeiro Índice de Resiliência à Seca, criado para ajudar países a avaliar sua capacidade de antecipar, enfrentar e se recuperar de períodos de escassez de água.
Comunidades estão no centro do problema
Os efeitos das secas não são distribuídos de maneira igual.
Populações rurais, pequenos agricultores, mulheres, jovens e comunidades tradicionais estão entre os grupos mais expostos quando há perda de água, pastagens e capacidade produtiva das terras.
A consequência pode ser perda de renda, insegurança alimentar, aumento da pobreza e deslocamento de populações.
Por isso, organizações ambientais defendem que políticas de adaptação incluam não apenas infraestrutura, mas participação das comunidades na definição das estratégias de proteção dos territórios.
Desafio continua até a próxima COP
A COP17 avançou em mecanismos financeiros e colocou a restauração das terras e a resiliência climática entre os principais temas ambientais internacionais.
O maior desafio, entretanto, permanece sem solução.
Sem um acordo global capaz de estabelecer responsabilidades, mecanismos de cooperação e financiamento de longo prazo, países continuarão enfrentando as secas principalmente por meio de políticas nacionais e iniciativas voluntárias.
A próxima tentativa de construir um entendimento internacional ocorrerá na COP18, prevista para o Egito.
Até lá, a pressão aumenta para que governos avancem individualmente em medidas de adaptação, recuperação ambiental e segurança hídrica, diante de um cenário em que secas mais prolongadas e intensas já afetam comunidades e economias em diferentes regiões do planeta.
Fonte: Agência Brasil e Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD)
Essa pauta é muito boa para a editoria de sustentabilidade porque conecta clima, água, produção de alimentos, desigualdade e financiamento ambiental, sem ficar restrita à diplomacia da COP.