A indústria da construção civil registrou em agosto de 2025 o desempenho mais fraco para o mês em nove anos, segundo a Sondagem Indústria da Construção, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
O índice de evolução do nível de atividade caiu 3,5 pontos em relação a julho e chegou a 46 pontos, menor patamar para o período desde 2016. A retração também atingiu o emprego, com o indicador passando de 50,1 para 46,3 pontos, além da Utilização da Capacidade Operacional (UCO), que recuou de 68% para 66%, menor nível em três anos.
De acordo com o gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo, o cenário é resultado direto da alta dos juros, que encarece o crédito, reduz o investimento e freia a demanda. “A elevação da taxa de juros vem trazendo, progressivamente, maiores problemas para a indústria da construção, um encarecimento do investimento, mas principalmente uma perda de ritmo na demanda, por conta da elevação dos custos”, afirmou. Para o especialista, a queda em indicadores que normalmente apresentam crescimento nessa época do ano acende um sinal de alerta para todo o setor.
O impacto já é sentido por empresários do ramo. Daniele Trindade, diretora de Operações da Trindade Soluções Construtivas, em Goiás, destaca que a retração não afeta apenas o ritmo das obras, mas também compromete investimentos em inovação. Ela viajará em outubro para Guangzhou, na China, polo mundial de tecnologia para a construção civil, em busca de soluções para o mercado brasileiro.
Segundo Daniele, a dificuldade atual já se reflete até em eventos especializados. “Nitidamente tem-se, de fato, essa retração no modelo industrial para a construção civil. Isso, inclusive, reflete no cancelamento que houve recentemente de um dos maiores eventos de tecnologia e inovação para a Construção Civil do estado de Goiás, que é a Construtec. Eles cancelaram e passaram para o ano que vem, pela baixa adesão de empresários em expor as suas tecnologias para o mercado”, relatou.
Mesmo com canteiros de obras espalhados por diferentes cidades, a empresária alerta que a ausência de inovação reduz a qualidade e a produtividade. “A gente vê canteiros de obra aí em todas as esquinas. Mas, será que esses canteiros estão fazendo serviço de alta performance? Está tendo mão de obra? Essas são as dúvidas quando a gente fala de tecnologia e inovação para a Construção Civil. Porque estão acontecendo obras, mas poderiam ser muito melhores, muito mais qualitativas, evoluir de uma maneira a servir a um cronograma assertivo de maneira muito mais cogente, o que não está acontecendo”, completou.
Apesar da retração, houve leve melhora no Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da Construção, que avançou 1,2 ponto em setembro e atingiu 47 pontos. O resultado, embora abaixo da linha divisória dos 50 pontos, que separa confiança de falta de confiança, aponta menor pessimismo em relação a agosto. A alta foi impulsionada por expectativas mais positivas em relação ao desempenho das próprias empresas nos próximos seis meses.
No entanto, os indicadores ligados às expectativas da atividade mantiveram sinal negativo. As compras de matérias-primas caíram para 49,4 pontos, enquanto novos empreendimentos recuaram para 49,2 pontos. As projeções para geração de empregos e evolução do nível de atividade também mostraram queda, reforçando a leitura de que o otimismo segue moderado.
Mesmo nesse contexto de incerteza, a intenção de investir apresentou leve reação: subiu para 41,1 pontos em setembro, após três quedas consecutivas. O avanço, porém, recupera apenas parte das perdas recentes.
A sondagem ouviu 298 empresas entre os dias 1º e 10 de setembro, sendo 122 pequenas, 118 médias e 58 grandes.
Fonte: Br61