Pesquisadoras alertam que discursos contra a participação política das mulheres repetem argumentos usados desde o início da República e podem funcionar como forma de intimidação eleitoral
Mais de nove décadas após a conquista do direito ao voto, as mulheres brasileiras ainda enfrentam discursos que questionam sua capacidade de participar das decisões políticas do país. Para pesquisadoras que estudam o sufrágio feminino, declarações recentes contra o voto das mulheres repetem argumentos machistas utilizados desde o início da República e representam uma reação aos avanços da cidadania feminina.
Em 1891, durante os debates da primeira Constituição republicana, parlamentares afirmavam que a participação política retiraria das mulheres a suposta função de dedicação exclusiva à família e ao ambiente doméstico. Mais de um século depois, manifestações semelhantes voltaram a circular, agora impulsionadas principalmente pelas redes sociais.
Um dos episódios recentes envolveu o influenciador Paulo Figueiredo, que afirmou que mulheres, sobretudo as solteiras, votariam mal, enquanto as casadas tenderiam a acompanhar a decisão dos maridos. Para as especialistas, a declaração não apresenta um argumento novo, mas revela a permanência de uma lógica que tenta desqualificar a autonomia política feminina.
A professora de Direito Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, afirma que a linguagem pode ter mudado, mas a estrutura patriarcal e misógina permanece. Segundo ela, o direito ao voto não foi uma concessão espontânea do Estado, mas o resultado de décadas de mobilização, pressão política e enfrentamento à resistência institucional.
A pesquisadora ressalta que manifestações que questionam a participação eleitoral das mulheres entram em conflito com a Constituição Federal de 1988, que estabelece o sufrágio universal e proíbe discriminações. Para ela, os direitos conquistados precisam ser permanentemente defendidos, pois não se mantêm apenas pela existência de garantias legais.
A historiadora Cibele Tenório, da Universidade de Brasília, avalia que a repetição desses ataques mais de um século depois é grave, embora não seja surpreendente em uma sociedade marcada pelo machismo estrutural. Segundo a pesquisadora, as sufragistas brasileiras demonstraram capacidade de articulação e inteligência política para superar obstáculos e garantir o direito ao voto.
Cibele alerta que discursos contra a participação das mulheres não precisam necessariamente resultar em uma proposta formal de retirada de direitos para produzir efeitos negativos. Eles podem gerar constrangimento, desestímulo e afastamento da vida política, especialmente entre eleitoras que já enfrentam diferentes barreiras sociais.
Em 2026, as mulheres representam mais de 53% do eleitorado brasileiro. São 83.877.126 eleitoras aptas a votar, diante de 74.845.001 homens. Os dados também mostram que as mulheres apresentam índices mais elevados de escolaridade formal em diferentes faixas.
Entre as eleitoras, 29,28% concluíram o ensino médio, enquanto o percentual entre os homens é de 26,35%. No ensino superior, 13,08% das mulheres possuem formação completa, diante de 9,1% do eleitorado masculino.
Apesar de serem maioria na população e entre os eleitores, as mulheres ainda ocupam menos espaços de poder e enfrentam dificuldades para participar da política institucional. A pesquisadora Hildete Pereira, da Universidade Federal Fluminense, explica que a sociedade brasileira historicamente estimula as mulheres a exercerem funções de cuidado, em vez de incentivá-las a assumir posições de representação e liderança.
Entre as mulheres aptas a votar nas eleições de 2026, 51,76% se declaram pardas, 10,96% pretas e 35,71% brancas. Metade das eleitoras informou ser solteira.
Para as especialistas, os ataques ao voto feminino fazem parte de um fenômeno de reação aos avanços dos direitos das mulheres. Quanto maior a presença feminina nos espaços políticos, profissionais e sociais, maior tende a ser a resistência de estruturas que procuram preservar relações tradicionais de poder.
A exclusão feminina da vida pública esteve presente desde o início da República. Na elaboração da Constituição de 1891, o direito ao voto para as mulheres foi rejeitado sob o argumento de que elas não teriam capacidade intelectual para participar da política e deveriam permanecer restritas ao ambiente doméstico.
As mulheres que defendiam o sufrágio também eram ridicularizadas em jornais, charges e espaços sociais. Muitas vezes eram apresentadas como pessoas que abandonavam sua feminilidade ou ameaçavam a estrutura familiar.
A professora e historiadora Ana Prestes, da Universidade de Brasília, lembra que charges da época mostravam homens realizando tarefas domésticas enquanto mulheres apareciam de terno nas ruas. As ilustrações buscavam desmoralizar tanto as sufragistas quanto os homens que defendiam o direito feminino ao voto.
A legislação também colocava as mulheres em posição de dependência. As casadas estavam subordinadas juridicamente aos maridos, enquanto as solteiras permaneciam sob a autoridade dos pais.
Uma das principais representantes dessa resistência foi Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino e uma das lideranças mais combativas do movimento sufragista. Em 1919, ela teve a candidatura à Intendência Municipal do Distrito Federal negada pelo poder público.
Leolinda também foi alvo constante de ataques na imprensa, sendo apresentada como uma mulher desordeira e radical. Para as pesquisadoras, esse tratamento buscava enfraquecer sua atuação e afastar outras mulheres da participação política.
O Código Eleitoral de 1932 chegou a prever a necessidade de autorização do marido para que mulheres casadas pudessem votar. A exigência foi retirada da versão final após pressão das sufragistas.
A trajetória de mobilização ganhou força em 1910, com a criação do Partido Republicano Feminino. Em 1917, a organização promoveu uma marcha com cerca de 90 mulheres pelas ruas do Rio de Janeiro em defesa do direito ao voto.
As sufragistas também fundaram jornais, organizaram escolas, produziram debates e estabeleceram redes de articulação para enfrentar os discursos que tentavam mantê-las afastadas da vida pública.
Além do direito ao voto, as mulheres reivindicavam maior acesso à educação e ao mercado de trabalho. Para a professora Marlise Matos, da Universidade Federal de Minas Gerais, essas agendas estavam diretamente ligadas à construção de uma cidadania efetiva.
Bertha Lutz tornou-se um dos principais nomes dessa mobilização. Cientista e diplomata, ela participou da articulação política com parlamentares, governadores e diferentes setores da sociedade, inclusive grupos conservadores, em busca de apoio para a causa.
A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, criada em 1922, ampliou a pressão sobre o Congresso, organizou manifestações e estabeleceu conexões com movimentos sufragistas de outros países.
O principal marco legislativo ocorreu em 1932, com a publicação do primeiro Código Eleitoral brasileiro a reconhecer o direito de voto das mulheres e a estabelecer o voto secreto. A garantia foi incorporada à Constituição de 1934.
O Código Eleitoral de 1946 tornou obrigatório o voto das mulheres alfabetizadas, regra posteriormente confirmada pela Constituição promulgada naquele mesmo ano. A Constituição de 1988 eliminou a exigência de alfabetização para o exercício do voto.
As pesquisadoras defendem que o Estado brasileiro deve reafirmar o compromisso com os direitos políticos das mulheres e ampliar ações de educação e conscientização sobre a importância da participação feminina nas eleições.
Também destacam a necessidade de recuperar a história das mulheres que enfrentaram perseguições, preconceito e apagamento para conquistar direitos ligados à política, ao trabalho e à educação.
A dependência financeira, a desigualdade salarial, a baixa presença em espaços de decisão e a violência política continuam funcionando como obstáculos à participação feminina. Por isso, as especialistas consideram que a história das sufragistas permanece atual.
A experiência dessas mulheres demonstra que a conquista do voto não encerrou a luta pela igualdade política. Diante da permanência de discursos que tentam diminuir ou deslegitimar a participação feminina, o legado das sufragistas reforça a necessidade de mobilização, educação e defesa contínua dos direitos democráticos.