As taxas de juros seguem como o principal obstáculo para o acesso ao crédito pela indústria, segundo a sondagem especial da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre as condições de acesso ao crédito em 2026, divulgada nesta sexta-feira, 9. Cerca de 76% das empresas do setor que tiveram dificuldade para obter crédito de curto ou médio prazo (até cinco anos) apontaram os juros altos entre os principais entraves para o financiamento. Na busca por crédito de longo prazo (acima de cinco anos), os juros foram citados por quase 69% dos empresários.
A queixa dos empresários quanto à taxa de juros diminuiu em relação à pesquisa anterior, quando 80% e 71% dos entrevistados apontaram essa como a maior barreira para as operações de curto/médio prazo e de longo prazo, respectivamente. Apesar disso, o custo do crédito segue na dianteira do ranking de principais obstáculos para o financiamento do setor industrial.
"A Selic iniciou o ano em 15% e, desde então, o Banco Central mantém uma postura bastante cautelosa nesse processo de corte dos juros. É importante lembrar que a queda dos juros leva um tempo para se refletir no custo do crédito, que ainda chega bastante elevado para as empresas", aponta a analista de Políticas e Indústria da CNI, Maria Virgínia Colusso.
Em meados de setembro, na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) antes da eleição, o BC cortou a taxa básica de juros de 14% para 13,75% ao ano, diante da queda recente de preços, que em agosto registrou deflação de 0,32%, segundo o IPCA, acumulando 4,22% em 12 meses. Há expectativa de que a taxa tenha mais um corte até o final de 2026.
Depois da Selic, o segundo maior entrave ao crédito de curto/médio prazo mencionado pelas empresas foram as exigências de garantias reais, como bens imóveis, pelas instituições financeiras, citadas por um terço das empresas (33,4%) que tiveram dificuldade para acessar crédito. Em relação às operações de longo prazo, o problema foi apontado por 31,5% dos industriais.
A terceira dificuldade mais apontada para o acesso ao crédito de curto/médio prazo foi a burocracia, assinalada por 13,6% das empresas. No caso do crédito de longo prazo, foi o prazo de carência menor do que o necessário (18,9%), indicando que as empresas gostariam de ter mais tempo para começar a pagar as linhas de crédito pretendidas.
Metade das empresas não tentou crédito
De acordo com a pesquisa, metade das empresas industriais (49,9%) não buscou contratar ou renovar crédito de curto/médio prazo no período. Somente 22,9% contrataram ou renovaram financiamento, enquanto 7,5% tentaram, mas não conseguiram obter os recursos.
Em relação ao crédito de longo prazo, a proporção de empresas que não tentaram contratar ou renovar foi ainda maior: 54%. Outros 15,5% conseguiram um novo financiamento ou a extensão do anterior. Além disso, 9,2% tentaram, mas não conseguiram acessar o crédito.
Levando-se em conta apenas as empresas que buscaram contratar ou renovar crédito de curto/médio prazo nos seis meses anteriores à pesquisa, quase uma em cada quatro (24,7%) não tiveram sucesso, porcentual que sobe para 37,2% nas operações de longo prazo. Os porcentuais de frustração subiram em relação ao ano passado, quando 20% e 33% das empresas não tiveram êxito na busca por crédito de curto/médio prazo e de longo prazo, respectivamente.
Na edição anterior, 36% indicavam o investimento em máquinas e equipamentos como finalidade do crédito de longo prazo, enquanto 25% apontavam o capital de giro. Agora, os porcentuais passaram para 25% e 26,7%, respectivamente.
"O capital de giro, em geral, é utilizado para bancar folha de pagamento, compra de materiais, insumos, entre outras despesas do dia a dia das empresas, e já é esperado que elas busquem crédito de curto prazo para essa finalidade. Porém, chama a atenção quando elas procuram crédito de longo prazo para esse fim, porque o crédito de maior maturação costuma servir para financiar investimentos em máquinas, equipamentos e edificações, por exemplo", afirma Colusso.
Nas operações de curto/médio prazo, quase 60% das empresas apontaram o capital de giro como a principal finalidade do crédito. Em seguida, aparecem o investimento em máquinas e equipamentos (13,2%) e o investimento em construção/instalações (5,8%).
Os entrevistados também foram questionados sobre as melhores alternativas para solucionar o problema de acesso ao crédito pelas empresas. A redução dos custos tributários e administrativos aparece como o principal caminho tanto para o financiamento de curto/médio prazo (38,4%) quanto para o de longo prazo (31,2%).
Na sequência, aparecem a ampliação das linhas de crédito públicas, mencionada por 22,8% das empresas no curto/médio prazo e por 26,3% no longo prazo, e a simplificação das exigências impostas pelas instituições financeiras, assinalada por 21,1% e 22,1%, respectivamente.
O levantamento consultou 1.701 empresas industriais - 692 pequenas, 612 médias e 397 grandes - entre 3 e 12 de agosto de 2026. Os dados referem-se aos seis meses anteriores: entre fevereiro e julho de 2026.