A Confederação Nacional da Indústria (CNI) iniciou, nesta quarta-feira (3), uma missão empresarial em Washington (EUA) para tratar diretamente com autoridades e representantes do setor privado americano sobre as tarifas adicionais impostas aos produtos brasileiros. O objetivo é negociar alternativas que possam reverter ou reduzir o tarifaço, que chega a até 50% sobre itens exportados do Brasil.
A comitiva, formada por cerca de 130 empresários, dirigentes de federações estaduais e representantes de associações industriais, tem dois dias de reuniões estratégicas. A agenda inclui encontros no Capitólio, audiências com instituições parceiras, plenária com autoridades públicas e privadas dos dois países e participação em audiência pública na US International Trade Commission, dentro da investigação aberta pelo governo americano com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, destacou que o momento exige cautela e diplomacia.
“Estamos trabalhando de forma profissional, eminentemente de forma particular, privada e empresarial. Nesse momento, é muito delicado que nós possamos ter qualquer vontade ou qualquer determinação de aplicar a lei da reciprocidade. Temos momentos tensos, na geopolítica, mas o que nós queremos mesmo é que não seja precipitada nenhuma decisão em que possamos ter essa tratativa e a busca do bom senso”, afirmou.
Segundo Alban, o equilíbrio é essencial para manter a posição brasileira nas negociações. “Óbvio que o cenário não é tão favorável, que nós temos muitas pressões, mas precisamos ter um conceito, soberania também tem a ver com o bem-estar de todos, com o bem-estar da sociedade, com o bem-estar do setor produtivo. Isso não significa, de modo nenhum, perder a soberania, mas não vamos perder a razão”, completou.
Entre os setores mais prejudicados pelas sobretaxas estão máquinas e equipamentos, madeira, café, cerâmica, alumínio, carnes e couro. Empresas de grande porte como Embraer, Stefanini, Novelis, Siemens Energy e Tupy também participam da missão, reforçando a representatividade da indústria nacional.
A comitiva reúne ainda representantes de oito federações estaduais: Goiás (FIEG), Minas Gerais (FIEMG), Paraíba (FIEPB), Paraná (FIEP), Rio de Janeiro (FIRJAN), Rio Grande do Norte (FIERN), Santa Catarina (FIESC) e São Paulo (FIESP).
No dia 3 de setembro, a CNI será representada pelo embaixador Roberto Azevêdo em uma audiência pública organizada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). A investigação, aberta em julho, apura supostas práticas brasileiras em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal.
A entidade brasileira já apresentou defesa técnica, argumentando que o Brasil não adota medidas desleais ou discriminatórias. Para a CNI, não há justificativa jurídica nem factual para o aumento de tarifas, lembrando que o comércio bilateral é historicamente benéfico para ambos os países, com superávit para os EUA.
Estudos da CNI projetam que o tarifaço pode causar prejuízo de até R$ 20 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e resultar na perda de 30 mil empregos. Hoje, 77,8% da pauta exportadora do Brasil para os Estados Unidos enfrenta sobretaxas, atingindo diretamente setores estratégicos como vestuário, têxteis, máquinas e equipamentos.
Para reduzir os impactos internos, a CNI apresentou ao governo federal propostas que incluem linhas de crédito subsidiadas, postergação de tributos e medidas trabalhistas voltadas à preservação de empregos.