Secas, desertificação e perda de pastagens pressionam comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas e esperam respostas da COP17.
A degradação das pastagens e o avanço de eventos climáticos extremos estão colocando em risco uma das tradições mais antigas da Mongólia: o modo de vida de comunidades nômades que dependem diretamente da terra e dos animais para sobreviver.
Nas estepes do país, famílias que durante gerações aprenderam a interpretar os sinais da natureza enfrentam agora condições cada vez mais imprevisíveis. Secas prolongadas, temperaturas extremas, redução das fontes de água e invernos severos provocam perdas de rebanhos e dificultam a recuperação das áreas utilizadas para pastagem.
O nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos, vive com a família próximo ao Parque Nacional de Hustai, cerca de 100 quilômetros a sudoeste da capital Ulaanbaatar. Há quase três décadas, eles se mudaram para a região em busca de melhores condições para criar os animais.
A mobilidade continua fazendo parte da rotina. Durante o verão, a família permanece em uma área de pastagem e, no inverno, desloca-se para um local mais protegido do frio. Nos últimos anos, porém, essa estratégia tradicional tem sido desafiada pelas mudanças no clima.
Em 2010, um inverno extremo conhecido como dzud provocou a morte de 700 dos 1,3 mil animais pertencentes à família. Em outro episódio severo, ocorrido em 2020, aproximadamente 20% do rebanho foi perdido.
A combinação entre seca, sobrepastoreio, mineração e redução da disponibilidade de água agrava a situação. Estimativas internacionais apontam que entre 70% e 76% do território da Mongólia enfrenta algum grau de desertificação ou degradação do solo.
O problema ganhou destaque durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a COP17, realizada em Ulaanbaatar. Para comunidades que dependem diretamente das pastagens, a expectativa é que o encontro produza medidas capazes de reduzir os impactos da degradação e garantir condições para a continuidade desse modo de vida.
Uma das respostas adotadas por famílias da região tem sido permitir períodos de descanso para a terra. Batchuluun e seus vizinhos decidiram deixar algumas áreas sem utilização durante dois anos para possibilitar a recuperação natural da vegetação. Ao retornar, perceberam que as pastagens haviam voltado a crescer.
Outra mudança está na forma de administrar os rebanhos. Em vez de aumentar continuamente o número de animais, alguns criadores passaram a buscar maior produtividade e melhor aproveitamento de leite, carne, lã e outros produtos.
A pressão sobre as pastagens é significativa. A Mongólia possuía cerca de 58 milhões de animais de criação em 2025, número muito superior à população do país, de aproximadamente 3,4 milhões de habitantes.
Cerca de 700 mil pessoas mantêm estilos de vida nômades ou seminômades. A continuidade dessa tradição, porém, também depende da disposição das novas gerações em permanecer no campo.
Batchuluun e sua mulher, Oyunchimeg Shuurai, têm quatro filhos e defendem que a decisão de continuar como pastores seja voluntária. O casal espera, entretanto, que pelo menos um deles escolha preservar a tradição familiar.
Para enfrentar as novas condições, antigas práticas começam a conviver com tecnologias modernas. A família utiliza painéis solares para produzir eletricidade e conservar alimentos e, durante o inverno, recorre ao esterco seco dos animais como combustível para aquecimento.
O princípio que orienta a relação dessas comunidades com a estepe, contudo, permanece praticamente o mesmo: utilizar os recursos naturais sem ultrapassar a capacidade de recuperação da terra.
Para os nômades mongóis, preservar esse equilíbrio tornou-se mais do que uma questão ambiental. É também uma condição para garantir a sobrevivência de uma cultura que atravessou gerações e agora enfrenta um dos maiores desafios de sua história.