Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026 | 10h19m
Vitória News — Um jornal de verdade
Sustentabilidade

Clima extremo e degradação da terra ameaçam tradição nômade na Mongólia

Secas, desertificação e perda de pastagens pressionam comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas e esperam respostas da COP17.

Vitória News 24/08/2026 09:36
Clima extremo e degradação da terra ameaçam tradição nômade na Mongólia
Foto: Rafael Cardoso/ABr

A degradação das pastagens e o avanço de eventos climáticos extremos estão colocando em risco uma das tradições mais antigas da Mongólia: o modo de vida de comunidades nômades que dependem diretamente da terra e dos animais para sobreviver.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Nas estepes do país, famílias que durante gerações aprenderam a interpretar os sinais da natureza enfrentam agora condições cada vez mais imprevisíveis. Secas prolongadas, temperaturas extremas, redução das fontes de água e invernos severos provocam perdas de rebanhos e dificultam a recuperação das áreas utilizadas para pastagem.

O nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos, vive com a família próximo ao Parque Nacional de Hustai, cerca de 100 quilômetros a sudoeste da capital Ulaanbaatar. Há quase três décadas, eles se mudaram para a região em busca de melhores condições para criar os animais.

A mobilidade continua fazendo parte da rotina. Durante o verão, a família permanece em uma área de pastagem e, no inverno, desloca-se para um local mais protegido do frio. Nos últimos anos, porém, essa estratégia tradicional tem sido desafiada pelas mudanças no clima.

SESC PICASSO

Em 2010, um inverno extremo conhecido como dzud provocou a morte de 700 dos 1,3 mil animais pertencentes à família. Em outro episódio severo, ocorrido em 2020, aproximadamente 20% do rebanho foi perdido.

A combinação entre seca, sobrepastoreio, mineração e redução da disponibilidade de água agrava a situação. Estimativas internacionais apontam que entre 70% e 76% do território da Mongólia enfrenta algum grau de desertificação ou degradação do solo.

O problema ganhou destaque durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a COP17, realizada em Ulaanbaatar. Para comunidades que dependem diretamente das pastagens, a expectativa é que o encontro produza medidas capazes de reduzir os impactos da degradação e garantir condições para a continuidade desse modo de vida.

CONTADOR - BONUS

Uma das respostas adotadas por famílias da região tem sido permitir períodos de descanso para a terra. Batchuluun e seus vizinhos decidiram deixar algumas áreas sem utilização durante dois anos para possibilitar a recuperação natural da vegetação. Ao retornar, perceberam que as pastagens haviam voltado a crescer.

Outra mudança está na forma de administrar os rebanhos. Em vez de aumentar continuamente o número de animais, alguns criadores passaram a buscar maior produtividade e melhor aproveitamento de leite, carne, lã e outros produtos.

A pressão sobre as pastagens é significativa. A Mongólia possuía cerca de 58 milhões de animais de criação em 2025, número muito superior à população do país, de aproximadamente 3,4 milhões de habitantes.

Cerca de 700 mil pessoas mantêm estilos de vida nômades ou seminômades. A continuidade dessa tradição, porém, também depende da disposição das novas gerações em permanecer no campo.

Anuncio - Raimundo - Bonus

Batchuluun e sua mulher, Oyunchimeg Shuurai, têm quatro filhos e defendem que a decisão de continuar como pastores seja voluntária. O casal espera, entretanto, que pelo menos um deles escolha preservar a tradição familiar.

Para enfrentar as novas condições, antigas práticas começam a conviver com tecnologias modernas. A família utiliza painéis solares para produzir eletricidade e conservar alimentos e, durante o inverno, recorre ao esterco seco dos animais como combustível para aquecimento.

O princípio que orienta a relação dessas comunidades com a estepe, contudo, permanece praticamente o mesmo: utilizar os recursos naturais sem ultrapassar a capacidade de recuperação da terra.

Para os nômades mongóis, preservar esse equilíbrio tornou-se mais do que uma questão ambiental. É também uma condição para garantir a sobrevivência de uma cultura que atravessou gerações e agora enfrenta um dos maiores desafios de sua história.

Compartilhe esta notícia

Notícias Relacionadas