Em novo depoimento à Justiça, o tenente-coronel do Exército Mauro Cid revelou ter recebido uma sacola de vinho contendo dinheiro das mãos do general Walter Braga Netto, a pedido do próprio general, para que os valores fossem repassados ao major do Exército Rafael de Oliveira, integrante do grupo conhecido como “kids pretos”, uma elite militar ligada à defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O relato foi feito durante o interrogatório presencial conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da ação penal que investiga o suposto plano golpista para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva após as eleições de 2022. Este foi o primeiro depoimento de um réu do chamado Núcleo 1 da trama investigada.
Mauro Cid, que também é delator nas investigações, afirmou desconhecer tanto o valor quanto a origem do dinheiro contido na sacola. "Provavelmente, pelo que a gente sentia das manifestações, era o pessoal do agronegócio que estava ajudando a manter as manifestações em frente aos quartéis", afirmou.
Braga Netto era o elo com manifestantes, diz Cid
O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro declarou ainda que Braga Netto era o principal responsável por trazer informações sobre a movimentação dos apoiadores que acampavam em frente a unidades do Exército após o segundo turno da eleição presidencial. Segundo Cid, "a gente sabia o que estava acontecendo, mas o núcleo interno não mantinha contato com nenhuma liderança ou financiador. Quem trazia informações atualizadas era o general Braga Netto. Não sei dizer quem eram os contatos que ele mantinha".
General da reserva, ex-ministro da Defesa e vice na chapa de Bolsonaro em 2022, Braga Netto está preso desde dezembro do ano passado, acusado de tentar obstruir investigações e obter acesso antecipado aos depoimentos sigilosos da delação de Cid.
Defesa questiona silêncio anterior sobre a entrega do dinheiro
Durante o interrogatório, a defesa de Braga Netto questionou Cid sobre o motivo de não ter revelado anteriormente, nos depoimentos prestados à Polícia Federal, a entrega da sacola com dinheiro. Cid respondeu que, no contexto das manifestações de 2022, considerou a atitude do general "normal", pois acreditava que os valores seriam utilizados para apoiar os acampamentos pró-Bolsonaro.
"Normal não seria, mas naquele contexto, na manifestação dos quartéis, eu não vi nada demais. Como foi pedido ajuda, não vi como hipótese criminal", declarou.
Cronograma de depoimentos da semana
A oitiva de Mauro Cid marcou o início de uma intensa semana de interrogatórios comandada pelo ministro Alexandre de Moraes, que ouvirá os principais nomes envolvidos no suposto plano golpista. Veja abaixo a ordem dos depoimentos previstos até sexta-feira (13):
| Data | Nome | Cargo/Função na época |
|---|---|---|
| 09/06 | Mauro Cid | Ex-ajudante de ordens e delator |
| 10/06 | Alexandre Ramagem | Ex-diretor da Abin |
| 10/06 | Almir Garnier | Ex-comandante da Marinha |
| 11/06 | Anderson Torres | Ex-ministro da Justiça e ex-secretário de segurança do DF |
| 11/06 | Augusto Heleno | Ex-ministro do GSI |
| 12/06 | Jair Bolsonaro | Ex-presidente da República |
| 13/06 | Paulo Sérgio Nogueira | Ex-ministro da Defesa |
| 13/06 | Walter Braga Netto | General da reserva e ex-ministro da Defesa |
O STF investiga um possível plano de subversão institucional com a participação de autoridades civis e militares, com o objetivo de anular o resultado das eleições de 2022 e manter Jair Bolsonaro no poder.