Candidato negou boato, acionou a Justiça e buscou aproximação com religiosos, mas controvérsia continuou mobilizando as redes e chegou ao STF
A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) tenta encerrar a repercussão do chamado “caso Nossa Senhora”, que levou a religião para o centro da disputa eleitoral a poucos dias do primeiro turno. A reação incluiu ações judiciais, manifestações públicas do candidato, participação em conteúdo voltado ao público católico e uma tentativa de reaproximação com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A controvérsia começou com a circulação da informação falsa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil caso fosse eleito presidente. Não há proposta do candidato nesse sentido. A discussão recuperou um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, posteriormente arquivado, que pretendia alterar a denominação prevista em lei.
Flávio negou qualquer intenção de mudar o status de Nossa Senhora Aparecida e passou a atribuir a propagação do conteúdo a adversários políticos. A campanha também procurou a Justiça Eleitoral para retirar das redes publicações consideradas falsas.
O episódio ganhou uma nova dimensão quando o candidato afirmou que a disseminação da informação teria contado com ajuda de “gente de dentro” da CNBB. A entidade reagiu, negou participação na produção ou divulgação de conteúdos falsos e rejeitou acusações sem provas.
No dia seguinte, Flávio mudou o tom em relação à instituição. Durante agenda em São Paulo, agradeceu publicamente o posicionamento da CNBB, declarou respeito à Igreja Católica e apareceu ao lado do governador Tarcísio de Freitas segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O candidato também participou de um podcast católico para falar sobre o episódio.
A sequência de movimentos, entretanto, não encerrou a discussão. Levantamento do Instituto Democracia em Xeque apontou que, entre 23 e 27 de setembro, o tema acumulou cerca de 124 milhões de interações em aproximadamente 1,3 milhão de publicações nas redes sociais, tornando-se um dos assuntos políticos de maior repercussão daquele período.
A disputa também se transferiu para os tribunais. O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada de publicações que associavam Flávio à suposta intenção de retirar o título da padroeira. Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu parte dos efeitos da decisão, argumentando em favor das liberdades de expressão e religiosa.
O ministro Luiz Fux voltou a alterar o cenário ao suspender a decisão de Dino e restabelecer os efeitos da determinação da Justiça Eleitoral até que a controvérsia seja analisada pelo plenário do Supremo. A discussão passou, assim, a envolver também os limites de atuação do STF e do TSE em questões relacionadas à liberdade de expressão e à desinformação durante a campanha eleitoral.
Com a proximidade da votação, a estratégia da campanha tem sido reforçar que a informação sobre Nossa Senhora Aparecida é falsa e demonstrar publicamente respeito à devoção católica. Ao mesmo tempo, o atrito provocado pelas acusações dirigidas à CNBB e a sucessão de decisões judiciais mantiveram o episódio em circulação no debate político.
A CNBB afirma não ter participado da produção ou disseminação da informação que deu origem à controvérsia. Flávio Bolsonaro sustenta que foi alvo de desinformação e busca responsabilizar os autores das publicações.
Fonte: TSE, STF, CNBB e Agência Brasil