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Carlos Lacerda escreveu sobre luta de quilombolas em livro pouco conhecido

FolhaPress 04/11/2024 09:27

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Para quem conhece o jornalista Carlos Lacerda pode parecer estranho saber que seu primeiro livro teve como tema uma revolta de escravizados no interior do Rio de Janeiro.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Lacerda teve uma série de mudanças de rumo em sua trajetória política. Na juventude, era comunista, não tinha religião e chegou a participar da ANL (Aliança Nacional Libertadora), que defendia o combate ao latifúndio e ao integralismo.

Décadas depois, apoiou o golpe militar de 1964 e fez carreira política na UDN (União Democrática Nacional), partido mais à direita. Virou um aguerrido militante anticomunista.

Quando escreveu "O Quilombo de Manuel Congo", em 1935, ele tinha 21 anos. O texto, que se baseia na história real de uma comunidade quilombola da região de Vassouras, acaba de ganhar uma reedição.

A iniciativa de republicar a obra foi do Museu Vassouras, com o intuito de promover o resgate das comunidades do Vale do Paraíba. Exemplares foram distribuídos ao público, de forma gratuita, durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

O texto de Lacerda mistura pitadas de ficção com fatos históricos, como ele anuncia logo no início do livro, assinado com o pseudônimo Marcos na época da publicação original.

SESC PICASSO

A ficção se inspira na jornada de Mariana Crioula, mulher negra escravizada durante o século 18. Ao lado de Manuel Congo, ela foi uma das líderes da revolta que ajudou a libertar centenas de outros trabalhadores na região do Vale do Café, no Rio de Janeiro. Foi a maior rebelião de pessoas escravizadas do Vale do Paraíba.

"Carlos Lacerda, aos 21 anos, teve dois propósitos principais ao lançar o livro sobre a grande rebelião negra de 1838: contar um episódio que a 'história oficial' tinha tentado apagar; inspirar, com o exemplo dos rebeldes negros do passado, as lutas sociais de 1935", afirma o jornalista Mário Magalhães.

Além de autor do prefácio da nova edição, o jornalista trabalha na produção de uma biografia de Lacerda, que tem previsão de começar a ser publicada em 2025.

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"Certa historiografia procurou, no Império e na República, eliminar da história o Quilombo de Manuel Congo", diz Magalhães. "A reedição do livro de Lacerda estimula as novas gerações a conhecer a revolta de escravizados que recusaram a opressão e buscaram liberdade e justiça. Também contribui para entender a trajetória não linear do autor, personagem-chave da história do Brasil."

Quando foi eleito vereador pelo Rio de Janeiro em 1947, Lacerda já havia rompido com a esquerda. Sua trajetória inclui ainda os cargos de deputado federal e governador do antigo estado da Guanabara. Mas se notabilizou mesmo por ser um ferrenho opositor de Getúlio Vargas.

Depois do golpe de 1964, retirou o apoio aos militares e teve seus direitos políticos suspensos por dez anos. Morreu em 1977.

Lacerda vinha de uma família com ligações políticas. Seu avô havia sido ministro do Supremo Tribunal Federal, e seu pai, prefeito, justamente de Vassouras. Foi frequentando a chácara da família ali que teve contato com as histórias da revolta negra ocorrida décadas antes na região.

Centenas de mulheres e homens se rebelaram contra o cativeiro e a violência com a qual eram tratados. Fugiram para as matas e formaram uma comunidade. A repressão foi violenta.

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"Na matança dos quilombolas por tropas do governo imperial, distinguiu-se o tenente-coronel Luís Alves de Lima e Silva, que passaria à história como duque de Caxias e patrono do Exército", conta Magalhães no prefácio.

O livro é pequeno, em formato de conto, mas não deixa de ter um tom político e até de exaltação à rebeldia daqueles quilombolas.

Mais do que valor literário, tem valor histórico e mostra a preocupação com as lutas contra desigualdades raciais de um político que depois pouco voltaria ao tema. Ele próprio não demonstrou interesse em reeditar o livro.

A obra resgata um fato histórico, por muito negligenciado, que exemplifica os muitos embates pelos quais passava a sociedade brasileira pré-abolição.

Como diz um dos trechos do livro: "No fundo dessas palavras rugem gritos de milhões de vozes. Gritos que são um só. Multidão de homens famintos, abandonados, que tomam a si a tarefa de conquistar a vida."

O QUILOMBO DE MANUEL CONGO

- Autoria Carlos Lacerda (Marcos)

- Editora Museu Vassouras

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