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Cannabis na saúde mental exige cautela diante de evidências limitadas

Revisão de 54 estudos aponta restrições ao uso rotineiro; médico Victor Fonseca destaca avaliação individual, acompanhamento e cuidado com as doses

Vitória News 26/10/2026 09:26
Cannabis na saúde mental exige cautela diante de evidências limitadas
Imagem: reprodução/Tv Brasil

O uso de produtos à base de cannabis para tratar problemas de saúde mental exige uma distinção entre o potencial investigado em laboratório e os benefícios efetivamente demonstrados em pacientes. Uma revisão publicada em 2026 na revista The Lancet Psychiatry identificou evidências limitadas para a maioria das condições analisadas e reforçou a necessidade de pesquisas de maior qualidade.

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O trabalho reuniu 54 ensaios clínicos randomizados, com 2.477 participantes. Os pesquisadores não encontraram efeitos significativos nos desfechos relacionados a ansiedade, transtornos psicóticos e estresse pós-traumático. Para depressão, não foram encontrados ensaios randomizados que avaliassem os canabinoides como tratamento.

Houve sinais de benefício em alguns desfechos de insônia, tiques e síndrome de Tourette, transtorno do espectro autista e transtorno por uso de cannabis. A qualidade das evidências, porém, foi geralmente baixa. Os autores concluíram que o uso rotineiro para transtornos mentais e por uso de substâncias é raramente justificado diante das limitações atuais. 

Para o médico Victor Henrique Bueno da Fonseca, o crescimento do interesse pelo tema precisa ser acompanhado de informação e rigor na avaliação das indicações.

“As pessoas já estão usando, muitas vezes sem orientação. O Sistema Endocanabinoide é um dos sistemas reguladores mais fascinantes da neurociência e, justamente por isso, merece o mesmo rigor que exigimos de qualquer outra terapia.”

O sistema citado pelo médico reúne receptores, substâncias produzidas pelo organismo e enzimas envolvidas na regulação de diferentes funções. Entre elas estão processos relacionados à memória, à resposta ao estresse e à percepção da dor.

“É como um freio automático da sinapse. Quando um circuito de estresse ou de medo dispara demais, esse sistema entra em ação para devolver o equilíbrio, o que chamamos de homeostase.”

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Estudos experimentais investigam a participação desse sistema na extinção do medo, processo de aprendizagem importante para compreender algumas abordagens psicoterapêuticas. A existência desse mecanismo, entretanto, não comprova que administrar canabinoides produza benefício clínico para determinado transtorno.

CBD, THC e ajuste das doses

O canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC) têm propriedades diferentes. O CBD não provoca a intoxicação característica do THC, mas isso não significa que seja inativo no sistema nervoso ou livre de efeitos adversos. O THC pode alterar percepção, atenção e consciência.

Fonseca ressalta que a resposta não depende apenas da substância escolhida. Concentração, dose, composição do produto, condições clínicas e outros medicamentos utilizados precisam ser considerados.

“Titular é procurar o topo da curva, não subir a dose indefinidamente. Se o paciente piora ao aumentar, o caminho é voltar à dose anterior.”

A fala descreve a avaliação feita durante o acompanhamento médico e não deve ser entendida como orientação para alterar doses por conta própria. Resultados experimentais sobre respostas a diferentes quantidades também não estabelecem uma dose universal para os pacientes.

Ao comentar as limitações das pesquisas, o médico defende que o potencial terapêutico seja discutido sem promessas.

“Ausência de evidência não é evidência de ausência. São estudos pequenos e curtos, o que pede humildade nas duas direções: não prometer, mas também não descartar. Valorizar a medicina endocanabinoide é indicar onde ela tem fundamento e monitorar com rigor.”

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Essa avaliação não modifica a conclusão da revisão: resultados preliminares e plausibilidade biológica são insuficientes para recomendar indiscriminadamente o tratamento.

Riscos e acompanhamento

Na análise dos ensaios clínicos, os canabinoides estiveram associados a maior ocorrência de eventos adversos em geral. Não foi identificado aumento estatisticamente significativo de eventos graves, mas esse resultado não permite afirmar ausência de riscos, especialmente em usos prolongados ou em populações pouco representadas nos estudos.

Entre os efeitos que precisam ser acompanhados estão sonolência, tontura, alterações gastrointestinais e prejuízos de atenção. Fonseca também chama a atenção para os riscos psiquiátricos relacionados ao THC em pessoas predispostas e para possíveis interações do CBD com outros medicamentos.

“O risco indireto mais importante é atrasar um tratamento que já tem eficácia comprovada. O canabinoide soma, não substitui. Nenhum paciente deve deixar a psicoterapia por causa dele.”

A possibilidade de associação a outros cuidados depende da indicação e da avaliação individual. Um produto à base de cannabis não deve ser apresentado como complemento obrigatório nem como substituto automático de tratamentos estabelecidos.

O médico também defende que o cuidado não seja reduzido à prescrição de um produto.

“Um plano que combina fitocanabinoides titulados, psicoterapia, sono regular e atividade física trabalha o mesmo sistema por vários caminhos.”

Há pesquisas sobre a relação entre exercício, sono e o sistema endocanabinoide. Entretanto, observar alterações nesse sistema não demonstra, isoladamente, que uma combinação específica de intervenções seja eficaz para todos os transtornos mentais.

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Regulamentação no Brasil

A RDC 1.015/2026 atualizou as regras da Anvisa para fabricação, importação e comercialização de produtos de cannabis, substituindo a RDC 327/2019.

Para os produtos enquadrados nessa regulamentação, aqueles com até 0,2% de THC exigem Receita de Controle Especial. Acima desse teor, é necessária Notificação de Receita A, além das condições e restrições previstas na norma.

A autorização sanitária dessa categoria de produtos não equivale ao registro de um medicamento com eficácia e segurança avaliadas pela Anvisa. A própria regulamentação exige que essa distinção seja informada ao consumidor.

As regras de cultivo estão previstas em outra resolução, a RDC 1.013/2026, publicada em fevereiro. Ela estabelece requisitos para pessoas jurídicas autorizadas, incluindo controles sanitários, rastreabilidade e segurança. Não se trata de autorização geral de cultivo para qualquer interessado.

Na avaliação de Fonseca, uma eventual prescrição precisa começar pela história clínica, pelos tratamentos anteriores e pela definição de objetivos que possam ser acompanhados.

“O melhor começo é uma consulta em que o paciente possa contar sua história, seus tratamentos anteriores e seus objetivos. A partir daí, construímos juntos um plano terapêutico, que pode ou não incluir a cannabis medicinal.”

Victor Henrique Bueno da Fonseca, CRM-SP 206873, é médico formado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Segundo as informações fornecidas pela assessoria, tem pós-graduação em Psiquiatria e certificação em Medicina Endocanabinoide pela WeCann Academy.

Fonte: Entrevista fornecida pela assessoria, The Lancet Psychiatry e Anvisa

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