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Política

Ativista que precedeu ataque de Musk a Moraes relativiza desinformação e nega ação política

FolhaPress 08/04/2024 19:22

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos responsáveis pelo que chama de "Twitter Files Brazil", o ativista e jornalista americano Michael Shellenberger usa o que seriam emails de funcionários do X (antigo Twitter) no Brasil para espalhar a versão de que está em curso a implantação de uma ditadura aparentemente orquestrada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) com conivência do presidente Lula (PT).

Senac 16 de julho — Capa (rail)

As opiniões de Shellenberger, baseadas apenas em trocas de mensagens com reclamações de empregados da plataforma, antecederam na última semana o embate entre o empresário Elon Musk, dono do X (antigo Twitter), e o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele relativiza o papel da desinformação para corroer democracias e nega atuação política --embora esteja no Brasil com viagem intermediada pelo deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS).

No dia 3 de abril, o jornalista divulgou no X emails de 2020 a 2022 de funcionários da plataforma nos quais há a alegação de que autoridades pedem informações que vão de encontro à legislação brasileira. Além de Shellenberger, participam da divulgação dos arquivos do Twitter no Brasil David Ágape, que afirma ser jornalista investigativo, e Eli Vieira, que nas redes sociais se apresenta como jornalista e biólogo geneticista.

O nome "Twitter Files" começou a ser usado no final de 2022 para se referir a medidas de moderação, reveladas a partir de um conjunto de documentos internos da rede e que tratavam de anos anteriores à gestão Musk. Shellenberger afirma já ter atuado em informações referentes aos Estados Unidos e Turquia no caso de arquivos da plataforma.

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O ativista diz ter decidido pesquisar sobre arquivos do Twitter no Brasil motivado por uma viagem que iria fazer ao país para participar do Fórum da Liberdade, ocorrido em 4 e 5 de abril em Porto Alegre. Segundo ele, a iniciativa foi feita de maneira autônoma, sem o conhecimento de políticos brasileiros.

Sua participação no Fórum da Liberdade e a entrevista concedida à Folha de S.Paulo, entretanto, foi intermediada por Van Hattem, conhecido por críticas a Moraes e pelo apoio a Jair Bolsonaro (PL). Segundo o deputado, há a intenção, em parceria com outros parlamentares, de protocolar nos próximos dias um projeto de lei inspirado na primeira emenda dos EUA para a proteção da liberdade de expressão no Brasil. O projeto recebeu, segundo Marcel, participação de Shellenberger.

Enquanto políticos conservadores reproduzem as denúncias de Shellenberger, críticos dizem que os emails são descontextualizados, requentados e pouco consistentes, servindo de interesse da extrema direita.

Segundo Shellenberger, o posicionamento de quem faz críticas à inconsistência de suas denúncias parte de quem é conivente com a censura. Ele afirma que os emails revelam pontos principalmente marcantes: o pedido da Justiça de acesso a dados privados de usuários e da identificação de contas anônimas, além do fato de que todas as grandes plataformas que atuam no Brasil, com exceção do Twitter, teriam cedido ao que entende ser pressões indevidas.

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Para o ativista, o cenário demonstra que a censura no Brasil é "mais agressiva" que em outras partes do mundo, com o protagonismo de Moraes.

Shellenberger afirma em seu site ser conhecido como "guru do clima" (diz acreditar que o ser humano tem papel na crise climática, mas não prevê um futuro catastrófico) e se apresenta como defensor da liberdade de expressão, inclusive para contar mentiras (para ele, as redes não devem censurar fake news sobre Covid-19 ou discursos de ódio). Segundo o americano, a desinformação deve ser combatida com mais informação, não com censura.

Questionado sobre as visões culturais e jurídicas no Brasil e nos EUA sobre a concepção de liberdade de expressão (os EUA têm uma concepção muito mais alargada de liberdade de expressão que permite práticas consideradas crimes no Brasil, como discurso de ódio e apologia do nazismo), Shellenberger diz entender que, apesar das diferenças entre os países, no Brasil a Constituição também prevê proteção para manifestações políticas e ideológicas.

Em sua conta no X, ele postou emails que diz ser de Rafael Batista, consultor jurídico do Twitter no Brasil, sobre suposto pedido do Congresso e do STF de acesso a "conteúdo das mensagens trocadas por alguns usuários via DMs [mensagens diretas, na sigla em inglês]", bem como "registros de login -entre outras informações". A mensagem era de 2020 e fazia referência a uma audiência pública sobre desinformação e fake news. Cita ainda pedidos do STF sobre informação de usuários da plataforma em contextos de investigações criminais.

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Shellenberger afirma que um email de 2021 de Batista apontaria que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) exigiu que contas de "fortes apoiadores do presidente Bolsonaro" que "têm se envolvido constantemente em ataques coordenados contra membros do Supremo Tribunal Federal e mais recente também contra membros do Tribunal Superior Eleitoral, com foco em desacreditar o Sistema Nacional Eleitoral" fossem desmonetizadas, dentre outras acusações.

Depois das publicações de Shellenberger, o consultor jurídico do Twitter Rafael Batista foi convidado a comparecer à Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor.

Em fevereiro de 2023, o STF facilitou o acesso por autoridades brasileiras a dados de usuários das redes sociais. Segundo especialistas, a falta de legislação para responsabilizar as empresas cria ambiente que pode influenciar as eleições e desestabilizar as democracias.

Questionado se Musk poderia ser motivado por interesses econômicos no atual embate com Moraes, Shellenberger disse acreditar que a motivação do empresário é lutar a favor da liberdade de expressão, mas reconheceu que Musk já censurou contas no Twitter que faziam críticas a ele.

Segundo autoridades da União Europeia, o Twitter já foi considerado a rede social com mais taxa de desinformação, e países europeus têm intensificado regra para controlar fake news nas redes sociais.

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