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Aliados do centrão demonizam governo, que precisa recompor base, diz senador petista

FolhaPress 13/07/2024 14:25

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Vice-presidente nacional do PT, o senador por Pernambuco Humberto Costa, 67, atribui a um pecado de origem a expressiva participação do centrão no ministério de Lula (PT), sem contrapartida no Congresso Nacional.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

"Hoje são nove, doze ministérios que estão na mão do centrão, de partidos que não dão a mínima resposta política em relação a pautas importantes para o governo", disse em entrevista à Folha.

Afirmando que muitos beneficiários de emendas demonizam o governo na ponta, incluindo prefeitos, o senador defende a recomposição da base.

Coordenando o grupo de trabalho encarregado da estratégia eleitoral do PT, Humberto Costa admite problemas na comunicação, articulação e coordenação do governo Lula, mas aposta em um melhor desempenho nas eleições de outubro.

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*Folha - O Datafolha indicou estabilidade na aprovação do governo, mas há um percentual expressivo de reprovação. Qual a origem do problema?*

*Humberto Costa -* Tem um problema de comunicação. Está melhorando, mas ainda precisa ter uma melhora muito expressiva no que diz respeito às redes sociais. Acho que o governo fez muitas coisas, as coisas não chegam até as pessoas. E, às vezes, também não chegam porque alguns dos atores políticos de hoje usufruem dos recursos do governo e são contra o governo. A gente tem que enfrentar a nossa debilidade própria e tem que enfrentar essa comunicação ativa contra a gente.

Muitos aliados que têm ministério, muitos partidos que têm ministério, que têm emenda, que têm espaço e que lá na base trabalham o tempo inteiro para demonizar o governo, para demonizar o PT. Então, o problema da comunicação é muito complexo.

*Folha - O sr. acha que a própria base aliada contribui para a reprovação do governo?*

*Humberto Costa -* Tem muita gente que faz parte da base desses partidos aí que, embaixo, lá na ponta, trabalha contra o governo. Não tenho dúvida disso.

Alguns problemas são meio que pecados originais, na minha opinião. Cedemos muito quando houve a formação do governo. Hoje são nove, doze ministérios que estão na mão do centrão, de partidos que não dão a mínima resposta política em relação a pautas importantes para o governo.

A gente não pode entregar todos os anéis porque depois vêm os dedos. Houve um problema, pecado original. E nos estados essa coisa também é muito forte. Prevaleceu o critério que cada deputado tem que ter um órgão público. E, na verdade, isso também não se traduziu em votos.

*Folha - O sr. acha que isso causa uma frustração na base original do governo?*

SESC PICASSO

*Humberto Costa -* Frustração, mas também todo mundo compreende a situação. Agora, houve um erro inicial, no sentido de que se deu muito espaço para esses partidos, sem o compromisso de ter resposta para aquilo que é crucial. Hoje, nós temos que lutar para aprovar a pauta do governo e lutar para impedir que seja aprovada a pauta da oposição. Essas pautas de costumes, contra os indígenas, contra os direitos humanos.

*Folha - E a base vai toda junta, né?*

*Humberto Costa -* Uma parte grande, né? E a desculpa é, digamos, algo incompreensível. 'Não, nós temos compromisso com a pauta econômica.' E olhe lá, né? Além disso, não tem compromisso nenhum. Como pode um ministro dizer isso do seu partido, da sua base?

*Folha - O sr. fala em impedir a pauta da oposição, mas o que se viu no Senado foi a omissão do governo. Os próprios líderes disseram que o governo tem que focar no que une, economia. É a estratégia errada?*

*Humberto Costa -* Não, acho que em alguns momentos isso tem que ser levado em consideração porque a repercussão das derrotas do governo é sempre ruim. Mas há temas que a gente precisa ter capacidade de vislumbrar o enfrentamento porque as coisas podem não ser catastróficas como se pensa.

A extrema direita teve dois reveses muito importantes recentemente. Um deles foi o chamado PL do estupro, que eu acho que muita gente vacilou para entrar nessa briga. Ainda bem que o governo entrou, mas depois que viu que tinha uma coisa forte da sociedade.

Aí você pega essa PEC da privatização das praias, que eu acho que a gente, enquanto governo, entrou meio devagarinho. Depois é que a coisa foi sendo assumida e tal. Há temas que têm que ter enfrentamento.

*Folha - Qual a solução para a infidelidade do centrão no Congresso? O que o sr. propõe, uma reforma ministerial?*

*Humberto Costa -* Acho que precisa. E acho que o governo tem essa percepção. Quando passar a eleição municipal, já serão quase dois anos de governo. Sempre é um bom momento para fazer uma avaliação do que funcionou.

Certamente não é aceitável que existam propostas que o governo tenha 120, 130 votos, quando, na verdade, o tanto de partidos representados no governo é muito maior do que isso. Tem que ter uma mudança. E tem que ser uma mudança que recomponha a base política dentro do Congresso Nacional.

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*Folha - Como exigir desses aliados fidelidade?*

*Humberto Costa -* Ora, os caras não têm ministério? Os ministérios não são importantes para fazer política? Os caras não foram para lá como exigência dos partidos? Tem que ter uma contrapartida em relação a isso. Se tal ou qual ministro não tem força política para representar a sua base, que se discuta isso.

Criou-se a expectativa de que, com a saída do ministro Paulo Pimenta da Secom, haveria reforma ministerial, o que não aconteceu. O sr. acha que o governo perdeu a oportunidade?

Pessoalmente acho que a necessidade de mudança já vem há um certo tempo. Mas acho que o presidente vai saber qual é a hora. Eu imagino que, à luz dos resultados da eleição municipal, é possível que haja algum tipo de composição. E acredito que essa questão da sustentação do governo no Congresso vai estar no núcleo de uma eventual mudança.

*Folha - [Alexandre] Padilha vai resistir até lá? Arthur Lira já o chamou de desafeto pessoal e incompetente.*

*Humberto Costa -* Não é normal que você tenha uma articulação política em que uma pessoa que é titular não tenha mais diálogo com o presidente de uma das Casas. Óbvio que não cabe ao presidente da Câmara definir quem vai ficar à frente. Mas é óbvio que é um problema você ter que ter uma outra pessoa que faz esse diálogo imediato.

Não quero entrar no mérito das razões que levaram a isso. Agora, o fato de que a gente tem tido algumas derrotas importantes aqui mostra que temos um problema na articulação política do governo com o Congresso.

*Folha - Aliados de Bolsonaro falam que a eleição municipal vai servir de bússola da preferência do eleitor, inclusive com impacto nas eleições para presidente da Câmara e do Senado. O sr. concorda?*

*Humberto Costa -* Não. Porque a eleição municipal tem as características da localidade que extrapolam inclusive essa disputa política. No Nordeste, por exemplo, tem muita gente do PP que se relaciona com o governo, o PT. Então, uma leitura fria do resultado em relação aos partidos, não creio que tenha expressão muito grande de quem tem mais força ou não.

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Tem alguns lugares que obviamente isso vai pesar. O resultado da eleição de São Paulo vai ser um resultado político de dimensão nacional que permite fazer uma leitura. O que vai acontecer em Belo Horizonte. Não é somente a questão do PT. No Rio de Janeiro, acho que a vitória do Eduardo Paes [PSD] é uma vitória nossa, assim como Boulos.

*Folha - O sr. citou três capitais, SP, BH e RJ como resultados que permitiram uma leitura nacional.*

*Humberto Costa -* Não, eu acho que esses três resultados são importantes. Tem Porto Alegre, que nós estamos na disputa. No Nordeste, acredito que temos muita chance em Fortaleza e em Teresina. Temos uma grande chance no Maranhão. Estamos disputando no Rio Grande do Norte e em João Pessoa também. Em Recife. Com toda certeza, o resultado de 2024 será melhor que o resultado de 2020. O PT vai crescer.

*Folha - O sr. falou do problema de comunicação, mas segurança pública também é apontada como uma das maiores preocupações do brasileiro. De que forma isso tem aparecido nas eleições?*

*Humberto Costa -* Muito forte. Inclusive fizemos uma pesquisa qualitativa e realmente o tema da segurança pública está entre os primeiros. Saúde e educação vêm depois. Veja que coisas como inflação, desemprego e tal, não estão na cabeça. Acho que o governo está consciente de que não tem como não se mexer, não se intrometer nisso.

O que existe de proposição global para a segurança pública hoje é essa da extrema direita, que é pau, matar gente, essas coisas todas. Segurança pública vai ser um tema e o governo tem que dar uma resposta a isso no curto prazo, senão a própria disputa de 2026 nós vamos entrar com o pé no cano.

Eu acho que vai ser o tema, tem sido em toda eleição. E onde a gente sempre tem sofrido porque a conversa deles é que a gente gosta de bandido, essa conversa toda.

*RAIO-X | Humberto Costa, 67*

Senador da República e vice-presidente nacional do PT, é coordenador do grupo de trabalho do partido para as eleições municipais. Foi ministro da Saúde entre 2003 e 2005, no primeiro governo Lula. Médico e jornalista, foi também vereador, deputado estadual e deputado federal.

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