Alegando falta de diálogo, moradores de Camburi protestam contra mergulhão
Vitória News 27/06/2025 09:38
A promessa de fluidez no trânsito da capital, com a construção de um mergulhão na região de Camburi, se transformou em mais um ponto de tensão entre a população e o poder público. Projetada pela Prefeitura de Vitória como solução para o estrangulamento viário entre as avenidas Dante Michelini e Adalberto Simão Nader, a obra vem sendo duramente criticada por moradores e comerciantes da região, que denunciam a falta de diálogo, o impacto ambiental e os transtornos que já começaram a surgir antes mesmo da intervenção sair do papel.
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O projeto prevê a construção de um túnel subterrâneo de cerca de 400 metros, com duas faixas de rolamento em cada sentido, que conectará diretamente a região de Jardim da Penha à orla de Camburi, desviando o fluxo que hoje se acumula nos cruzamentos semafóricos. Segundo a Secretaria Municipal de Obras, o objetivo é reduzir o tempo de deslocamento, eliminar gargalos e preparar a cidade para o crescimento urbano previsto para os próximos anos.Mas o que para o Executivo municipal é uma iniciativa de mobilidade moderna, para parte da população representa um passo em falso. Desde que os primeiros detalhes do projeto foram divulgados, entidades como associações de moradores, ONGs ambientais e coletivos urbanos passaram a articular protestos e pedidos de revisão da proposta. O principal argumento: ninguém os ouviu.Simplesmente acordamos um dia com a notícia de que um mergulhão seria construído em frente às nossas casas, reclamam moradores de Jardim da Penha. Alegam que não houve audiência pública, não foram convidados a debater o projeto, não sabemos o impacto que isso vai ter na drenagem, no barulho, na segurança.
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A crítica é reforçada por urbanistas que veem no projeto um retorno a uma lógica ultrapassada de priorização do automóvel em detrimento de soluções mais sustentáveis e inclusivas. A mobilidade do século XXI deveria estar focada em transporte público de qualidade, ciclovias integradas e calçadas acessíveis. Um mergulhão é uma resposta cara e pontual a um problema que tem raízes mais profundas.O tom de insatisfação ganhou força nas redes sociais com a campanha #NãoAoMergulhão, que reúne vídeos de moradores, mapas alternativos de circulação e denúncias sobre o que chamam de "imposição tecnocrática". Um protesto já está marcado para o próximo sábado, com concentração no calçadão de Camburi. O evento, batizado de “Enterro da Mobilidade Democrática”, contará com cartazes, faixas e intervenções artísticas para chamar a atenção da opinião pública.Comerciantes da região também estão preocupados com os efeitos da obra. Para eles, o canteiro de obras pode espantar clientes, dificultar o acesso e comprometer o faturamento por tempo indeterminado. “A gente está saindo de uma pandemia, enfrentando inflação, tentando se reerguer. Agora vem esse mergulhão que pode fechar a rua, bloquear vagas e nos deixar ilhados”, diz Antônio Carvalho, dono de uma padaria na Avenida Adalberto Simão Nader.
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Do ponto de vista ambiental, o projeto também levanta questionamentos. A região de Camburi, que abriga áreas de restinga e tem proximidade com o manguezal, é considerada sensível do ponto de vista ecológico. Ambientalistas alertam que a escavação pode afetar o lençol freático, interferir no escoamento da água das chuvas e agravar os alagamentos, já frequentes na área.A Prefeitura afirma que todas as licenças ambientais estão sendo obtidas e que estudos de impacto já foram feitos. Ainda assim, até agora nenhum documento técnico foi divulgado ao público.Em nota, a Prefeitura de Vitória defende o projeto como “estratégico e necessário” para a modernização da infraestrutura urbana da capital. Segundo a gestão do prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), o mergulhão faz parte de um conjunto de intervenções planejadas com base em estudos de fluxo e projeções de crescimento da cidade. A prefeitura alega que a obra, orçada em R$48 milhões, será custeada com recursos próprios e deve durar 18 meses.“A construção do mergulhão é um passo importante para garantir mais fluidez ao tráfego da região Norte da cidade, especialmente nos horários de pico. Estamos abertos ao diálogo e vamos promover reuniões com a comunidade para explicar os benefícios e ouvir sugestões”, afirmou o secretário de Obras, Gustavo Peixoto.
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Questionado sobre a ausência de audiências públicas até agora, o município respondeu que o projeto ainda está em fase de contratação e que a escuta da população ocorrerá ao longo da execução.
Enquanto isso, especialistas e movimentos sociais sugerem que a Prefeitura revise a proposta e considere opções de menor impacto. Entre as ideias estão a implantação de corredores exclusivos para ônibus, a sincronização dos semáforos da região e a ampliação de ciclovias seguras. A controvérsia em torno do mergulhão de Camburi está longe de ser resolvida. Se por um lado há um projeto técnico com orçamento definido e discurso de modernização, por outro, cresce o coro dos que exigem mais transparência, participação e revisão do modelo de cidade que se pretende construir.Com o protesto marcado para os próximos dias e a pressão nas redes aumentando, o prefeito Lorenzo Pazolini será desafiado a reequilibrar a balança entre eficiência e democracia urbana. Em uma cidade marcada por desigualdades espaciais, a forma como se decide o destino de obras públicas pode ser tão relevante quanto a obra em si.
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