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Economia

Vale faz investimento estratégico em minério na região de Carajás ao comprar 30% da Ligga

Estadão Conteúdo 21/09/2026 12:03

Dona de um gigantesco complexo de produção de minério de ferro em Carajás, no sul do Pará, a Vale vislumbrou valor futuro em uma operação de pequeno porte situada na mesma região, tocada pela mineradora Ligga S.A., que foi fundada e é controlada pelo grupo Santa Elina. A companhia assinou, na sexta-feira, 18, um acordo considerado estratégico, pelo qual adquire uma participação acionária minoritária de 30% da Ligga. Ao mesmo tempo, firmou um contrato exclusivo (offtake) que garante a compra de toda a produção atual e futura da mineradora por longo prazo.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

A Ligga tem instalações de produção de minério de ferro da mina Ferro Sul, localizadas entre os municípios de Curionópolis e Parauapebas.

As reservas, a mina e a área de produção da Ligga ficam aproximadamente a 10 quilômetros da Estrada de Ferro Carajás (EFC), ferrovia operada pela Vale que transporta minério produzido em Carajás para seu terminal portuário Ponta da Madeira, em São Luís, de onde é embarcado em grandes navios rumo a mercados do exterior.

O valor do negócio não foi revelado pelas duas companhias. Procurada, a Ligga informou que não comenta a operação. Já a Vale emitiu nota confirmando o acordo e fornecendo mais detalhes.

Atualmente, a Ligga produz 2 milhões de toneladas por ano do minério do tipo sinter-feed (conhecido como finos), que já é vendido para a nova sócia. Conforme a nota da Vale, o plano, com o acordo, é ampliar o volume da mina para 8 milhões de toneladas em dois anos.

O projeto de expansão, que está em fase inicial de implantação, já conta com licença de instalação da Semas (Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Estado do Pará). Estão previstas nova planta de beneficiamento, obras de infraestrutura e a construção de uma solução ferroviária, prevista para entrar em operação em junho de 2028, eliminando o transporte por caminhões do minério até a EFC.

SESC PICASSO

No plano de expansão, serão feitos investimentos da ordem de R$ 500 milhões, a partir do aporte da Vale e da geração de caixa da própria Ligga, apurou o Estadão com pessoas que atuam no setor e conhecem o projeto. Os recursos serão aplicados principalmente em um ramal ferroviário de 9 km. ligando a mina até a ferrovia da Vale, e na nova instalação de concentração e beneficiamento do minério.

No comunicado divulgado, a Vale destaca que "a operação reforça a flexibilidade do portfólio da Vale na região de Carajás (PA) ao garantir acesso ágil a volumes minerais estratégicos. A parceria segue um modelo de baixa intensidade de capital, permitindo incorporar reservas consolidadas sem os investimentos e prazos regulatórios de novos projetos greenfield."

O Estadão apurou que as reservas certificadas de minério de ferro da Ligga são da ordem de 1,5 bilhão de toneladas, o que deve também ter atraído o interesse da Vale para investimento no negócio. Essa riqueza permitirá, no futuro, novas ampliações de produção e até investir em outro tipo de minério, o itabirito, na mesma jazida, e vir a produzir pellet-feed, que requer tecnologia mais sofisticada.

O pellet-feed, de alto teor (em torno de 67% de ferro), é mais utilizado em processos chamados de redução direta para produção de aço. Esse produto tem atualmente grande demanda no mercado mundial por parte de siderúrgicas que buscam reduzir a emissão de CO2 na produção de aço. É a onda conhecida como descarbonização do aço.

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Se do lado da Vale, o acordo tem o fator estratégico com compra de minério de qualidade e acesso a uma reserva mineral enorme que está em seu quintal, para a Ligga o negócio propicia acesso à logística (ferroviária e portuária) e garantia de venda para uma companhia com penetração nos principais mercados do mundo com sua estrutura comercial.

O negócio integra a produção da Ligga ao corredor logístico existente da nova sócia: a ferrovia EFC e o terminal de Ponta da Madeira. Com isso, irá aproveitar a eficiência logística da Vale em escala global.

A Vale é a maior mineradora de ferro do mundo, com produção de 336 milhões de toneladas em 2025 nos dois sistemas operacionais: o Sul, em Minas Gerais, e o Norte, em Carajás. Somente o volume extraído no complexo Carajás atingiu 177,5 milhões de toneladas - a quase totalidade de minério sinter-feed.

A companhia brasileira compete globalmente com as também gigantes da mineração Rio Tinto, BHP, FMG (Fortescue Metals Group) - as três na Austrália - e Anglo American (África do Sul e Brasil).

Origens e expansão passo a passo

A entrada do grupo Santa Elina no negócio de minério de ferro se deu com a criação da Rio Minas Mineração, em 2011. A empresa, sediada em Cuiabá, incorporou todos os direitos minerais para exploração de minério de ferro do grupo no Pará, na região de Carajás.

Dez anos depois, a Rio Minas foi renomeada Ligga S.A., decorrente da formação de uma joint venture entre Santa Elina e o grupo Cosan, que visava uma integração do seu projeto de terminal portuário em São Luís com as reservas de minério de ferro da Ligga.

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O empreendimento não evoluiu, principalmente em razão da entrada da Cosan no capital da Vale em 2022, adquirindo 4,9% das ações. Neste ano (2026), os acionistas da Santa Elina e da Cosan decidiram desfazer a joint venture. A joint venture, na época, previa criar uma companhia mineradora de ferro apta a produzir cerca de 10 milhões de toneladas por ano, a partir de 2025, e tinha plano de triplicar o volume.

A mina da Ligga começou a operar em 2022, crescendo aos poucos, de 600 mil toneladas para 1 milhão e depois 2 milhões de toneladas. Ao alcançar o novo patamar de produção, em 2028/2029, que será alavancado com a entrada da Vale no capital, a mineradora se tornaria uma empresa com receita na faixa de US$ 800 milhões pelos preços atuais de referência do minério na China, maior consumidor da commodity no mundo. No entanto, a fórmula do preço de venda é outra, pois o minério é entregue à Vale na ferrovia.

Mesmo com a mina quadruplicada, a Ligga, sem a estrutura da nova sócia, teria dificuldades para competir no mercado internacional. O frete marítimo, com a guerra EUA-Irã, subiu muito, afetando produtoras de pequeno e médio porte. Algumas já anunciaram paralisação de parte de suas minas. Estar na estrutura logística e comercial da Vale é um benefício para a Ligga. E juntas poderão fazer planos para crescimento da produção, disse um especialista ao Estadão.

O grupo Santa Elina pertence à família Brito e foi fundado na década de 70 por Paulo Brito, inicialmente focado na exploração de ouro. Hoje, a família é a maior acionista da mineradora de ouro Aura Minerals, que é listada na Nasdaq (Nova York) e na B3 (BDR).

A Santa Elina, além do minério de ferro no Pará, tem produção de zinco e chumbo em Rondônia.

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