O pão nosso de cada dia resolveu subir de classe
Por Marcelo Rossoni
Na Praia do Canto, em Vitória, o quilo do pão francês alcançou R$27,90. O mesmo produto — farinha, água, fermento e sal — pode ser encontrado por R$17,00 em bairros da periferia da Grande Vitória.
A diferença é de 64,12%.
Não é inflação gourmet. É endereço.
O presidente do Sindicato da Indústria da Panificação e Confeitaria do Estado do Espírito Santo (Sindipães), Ricardo Augusto Pinto, explicou o motivo da disparidade.
“O que que difere uma padaria praticar R$17,00 ou R$27,00? Não é a energia, porque o que um paga, o outro paga. Mas o que impulsiona é o custo do aluguel, os imóveis, inclusive está saindo matéria toda hora, que são os [imóveis] mais caros do país. É um custo direto para a gente. No caso de um bairro mais nobre, mão-de-obra também. A padaria do bairro tem mais capacidade de contratar pessoas de perto. Já a padaria na Praia do Canto ninguém mora lá”, disse Ricardo Pinto.
Em resumo: o forno é o mesmo, mas o metro quadrado não.
Funcionários
Citando uma das mais conhecidas padarias da Praia do Canto, ele afirmou que o estabelecimento possui entre 70 e 80 funcionários. Em padarias de bairro, o número varia de 15 a 20 trabalhadores.
A matemática chama atenção: quatro vezes mais funcionários significa quatro vezes mais consumidores? Ou o pão da Praia do Canto exige uma operação quase industrial para sair do forno? Se há mais gente comprando, o mercado explica. Se não há, o custo da estrutura pode estar sendo diluído, fatia por fatia, dentro do saquinho.
“Nós empregamos muito. É uma fábrica na realidade. A gente é indústria. A gente fabrica a cadeia. Numa loja com um perfil desse, o que você espera encontrar? O ar condicionado ligado. Já a padaria do bairro nem tem ar”, acrescentou.
O ar-condicionado, ao que parece, também pesa no quilo.
Ele comparou ainda o perfil dos estabelecimentos.
“Na Praia do Canto você espera encontrar um ambiente refrigerado e as funcionárias estejam arrumadinhas e de uniforme. No bairro mais simples, está só com uma camisinha de malha. Não estou desvalorizando, mas explicando onde agrega um e agrega outro. Essa situação é o que difere o preço. Há a escassez de mão-de-obra. Para você reter o colaborador, você tem que estar remunerando melhor. Isso é fato. A gente é obrigado a repassar, porque se a gente não fizer isso daqui a pouquinho a conta não fecha e se fecha o comércio”, prosseguiu.
O argumento é direto: estrutura maior, custo maior, preço maior. Simples assim.
Ou quase.
O pão invisível na balança
Há ainda uma questão relatada por consumidores: em algumas padarias, o pão francês não é pesado no balcão, como ocorre com bolos e biscoitos. Vai direto para o saco. O valor só aparece no momento final — no caixa.
Questionado sobre o tema, o presidente do Sindipães respondeu:
“Se isso está acontecendo é uma falta de informação. Com a falta de funcionário, tem padaria que está a fechar um setor, não tem gente para operar. Tem amigos meus que estão fechando a parte de lanchonete. Isso quer dizer o quê? Que algumas coisas não funcionam como deveriam funcionar. Infelizmente, como eu quero, mas não tem, e às vezes alguma informação, alguma coisa, pela escassez do mundo jovem, eu acredito mais na falta de funcionários.”
A justificativa recai, mais uma vez, sobre a escassez de mão de obra, porém não resiste a mais rudimentar análise: quem deveria pesar o pãozinho francês é o mesmo funcionário que o embala na sacola de papel
Mas a R$27,90 o quilo, o consumidor talvez não esteja comprando apenas pão.
Está pagando o CEP.