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Economia

Pablo Marçal é exceção; há influencer vendendo carro para pagar mentoria, diz pesquisadora

FolhaPress 18/10/2024 10:23

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Claro que o Pablo Marçal ou quem paga R$ 250 mil em um curso dele são a exceção da exceção entre os influenciadores", diz Rosana Pinheiro-Machado, 44, professora da Universidade de Dublin, na Irlanda. Ainda assim, aspirantes a integrar esse grupo reduzido vendem carros ou usam o FGTS para pagar mentorias de R$ 50 mil, motivadas pela crença de que mudarão de vida, diz ela.

Senac 16 de julho — Capa (rail)

Pinheiro-Machado registrou essas histórias durante o monitoramento, desde fevereiro, da relação entre 549 mentores brasileiros do Instagram —influenciadores consagrados que hoje vendem cursos— e 500 mil aspirantes a influenciador. O primeiro relatório do estudo, baseado em análise de 100 mil perfis, 32 entrevistas e acompanhamento de 12 mentorias, deve sair no fim deste mês.

O mercado de influência, afirma a professora, encontrou no Brasil solo fértil, ao prometer uma alternativa para o sonho frustrado do bom emprego. "O trabalho formal aqui é marcado pelo histórico de informalidade, baixo salário e desmando".

"As pessoas agora desejam ficar milionárias com a economia digital", diz a antropóloga, que conversou com a reportagem, da Irlanda, por videoconferência.

Pesquisando esse universo, ela recebeu relatos sobre jovens talentosos que desistem de vagas no ensino superior para tentar a sorte nas redes sociais e sobre comerciantes informais que tiveram de se adequar à realidade da internet para sobreviver ao isolamento social iniciado para prevenir a Covid-19.

Em comum, os aspirantes a influenciadores expressam dificuldades em lidar com as exigências para ser bem-sucedido nesse mercado —conhecimento técnico e padrões estéticos inatingíveis.

SESC PICASSO

A estimativa é que existam, nas projeções mais baixas, segundo Pinheiro-Machado, 25 milhões de brasileiros que trabalham no Instagram —mais da metade sem acesso a uma conta de negócios por falta de familiaridade com a plataforma. A rede social, porém, diz não ter esses dados.

A partir de uma amostra estatisticamente significativa de 1.000 perfis recolhida do universo de 500 mil criadores de conteúdo brasileiros, a antropóloga percebeu que a maioria do grupo estudado era de mulheres, pobres, periféricas ou negras. "É tudo mulher doceira, de igreja, brasilzão popular, a base da pirâmide, são as pessoas batalhadoras que sempre estiveram na informalidade."

A pesquisa divide os influenciadores por tamanho. O primeiro grupo, de até 5.000 seguidores, envolve as pessoas que falam com família e vizinhos. A partir de 5.000, a pessoa é grande no Instagram, mas nem sempre relevante —pode ter viralizado por uma publicação ou apenas ser popular no bairro.

Os 50 mil seguidores, diz a professora, consolidam o criador de conteúdo no mundo do marketing digital e das mentorias. "Só que muitos estacionam na casa dos 150 mil, acima de 200 mil já estão as pessoas poderosas do meio."

Entre os influenciadores, mostrar que tem dinheiro aumenta o prestígio. "É sob essa perspectiva que o influenciador grande marca sua ascensão colocando, fixos, nas fotos do topo do perfil: o Porsche, a mansão que geralmente é uma casa quadrada e a foto dos filhos ou da família."

CONTADOR - BONUS

Acima dos 500 mil seguidores estão as contas ‘gigantes’, como Pablo Marçal, Thiago Nigro, Érico Rocha. "Eles atuam como uma rede, se entrevistam, nunca se confrontam, se promovem. É muito difícil ver inovação, porque um copia o outro. Todos desenvolvem o próprio método de enriquecimento. Dão nomes aos seguidores: ‘minhas leoas, minhas herdeiras, mulherada’. Assim, criam comunidades", detalha Pinheiro-Machado.

A professora segue 550 grandes mentores do Instagram para analisar o discurso de cada um. Cerca de 87% deles estariam em um espectro entre a direita e a extrema direita, em sua avaliação, que considerou a interação com políticos e influenciadores conservadores e libertários.

Marçal e seus pares, também chamados de mentores, usam a receita do "se eu consegui, você também pode", para vender a promessa de um luxo cinematográfico.

"É uma coisa arrebatadora, eles dizem ‘ganhei R$ 10.000, ganhei R$ 100 mil, venha, venha’, são as bets do mundo do trabalho." Ao mesmo tempo, os mentores, afirma Machado, tratam o emprego fixo como "coisa de mané que não quer enriquecer".

"Só que a pirâmide da desigualdade brasileira, não permite isso, até porque o algoritmo do próprio Instagram tem uma estrutura algorítmica piramidal —é claro que as pessoas de baixo não vão subir", acrescenta.

Os criadores de conteúdo, todavia, dão forma a uma pirâmide aspiracional que cria ilusões entre milhões, de acordo com Pinheiro-Machado. "Isso é no mínimo antiético, os influenciadores acabam jogando com a culpa das pessoas, porque a maioria não vai conseguir."

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Os mentores, segundo a pesquisadora, são capazes de vender projetos de futuro para um naco relevante da população. "Hoje, junto com as igrejas evangélicas, a lógica do marketing digital é a grande mola propulsora da criação de sonhos e de fantasias, muitas vezes deslocadas na realidade."

Para a mobilidade social, diz Machado, as pessoas precisam de capacidade de sonhar. "Mas, se ela mira desde criança que vai ser jogador de futebol, a chance de só um na turma ser jogador de futebol é muito grande, e todo o resto deve fracassar, é necessário ter esse equilíbrio dos sonhos."

A fantasia de sucesso é o próprio produto, diz Pinheiro-Machado. As pessoas iniciam a mentoria e já começam a vender. "Entre os nanoinfluenciadores, com menos de 1.000 seguidores, a chamada que eles mais usam é ‘eu te ajudo, eu te ensino’. A pessoa ainda não cresceu e ela já está vendendo a estratégia para crescer."

Os maiores mentores, contudo, já perceberam que o mercado está saturado e passaram a abrir outros negócios. "Mas antes eles brincaram com os sonhos de milhões e milhões."

Essa falta de balance é fruto de um mercado completamente desregulamentado. O primeiro passo para enfrentar o problema, diz a professora, seria reconhecer as redes sociais como plataformas de trabalho, assim como Uber e iFood. Assim, o governo poderia interceder com políticas públicas, seja de controle sobre o empregador ou de fomento ao empreendedorismo digital.

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