Quando autoridades dos Estados Unidos afirmam que respeitarão o resultado das eleições brasileiras, desde que elas sejam realizadas de forma “segura e democrática”, surge uma dúvida inevitável: quem será o responsável por conceder esse selo de qualidade? O Tribunal Superior Eleitoral? Os observadores internacionais? O eleitor brasileiro? Ou algum funcionário instalado em Washington, a milhares de quilômetros de distância da realidade nacional?
A declaração, por si só, já seria suficientemente desconfortável para qualquer país soberano. Afinal, o respeito à vontade popular deveria ser um princípio incondicional, não uma concessão sujeita à avaliação de governos estrangeiros. Mas o episódio ganhou contornos ainda mais curiosos diante das informações divulgadas pela imprensa internacional de que representantes ligados ao governo norte-americano pretendiam desembarcar no Brasil para questionar a segurança do sistema eleitoral brasileiro.
A cena seria cômica se não fosse reveladora. O país que ainda convive com cicatrizes profundas de disputas eleitorais internas, acusações de fraude, recontagens intermináveis e até invasões de prédios públicos em contestação a resultados eleitorais resolveu assumir o papel de professor de democracia para terceiros. É como se alguém que ainda não organizou a própria casa aparecesse para fiscalizar a limpeza da residência do vizinho.
Por trás do discurso institucional, entretanto, existe uma disputa política bastante clara. A pressão internacional não ocorre em um vácuo. Ela acontece em meio ao processo sucessório brasileiro e acaba fortalecendo determinados setores políticos, especialmente os grupos identificados com a direita nacional. No momento, o principal herdeiro desse capital político é Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e agora presidiário Jair Bolsonaro.
Flávio tenta ocupar o espaço deixado pelo pai utilizando uma estratégia bastante conhecida: alimentar desconfianças sobre instituições, questionar mecanismos eleitorais e manter mobilizada uma base política permanentemente em estado de vigilância. É uma fórmula já testada. Seus resultados para a democracia brasileira, contudo, permanecem objeto de intenso debate.
Como se a interferência política não bastasse, entra em cena o mercado financeiro. O banco JP Morgan decidiu rebaixar sua avaliação sobre ativos brasileiros, apontando, entre outros fatores, os riscos associados ao ambiente eleitoral. O mercado tem pleno direito de fazer suas análises. O problema surge quando relatórios financeiros passam a ser utilizados como instrumentos de pressão política ou como tentativas de influenciar expectativas e comportamentos.
Não deixa de ser curioso observar a coincidência dos fatos. De um lado, declarações diplomáticas vindas de Washington. De outro, relatórios de instituições financeiras alertando para riscos eleitorais. No meio disso tudo, o eleitor brasileiro, que deveria ser o protagonista da história, transforma-se em mero espectador de um espetáculo internacional montado para tentar influenciar percepções sobre o futuro do país.
O Brasil tem problemas. Muitos. Tem desafios econômicos, sociais e institucionais que precisam ser enfrentados com seriedade. Mas a solução para essas questões não virá de bancos estrangeiros, de emissários internacionais ou de governos que imaginam possuir algum tipo de autoridade moral sobre o restante do planeta.
A democracia brasileira pertence aos brasileiros. Seus acertos e seus erros também.
O Brasil não precisa de tutores, inspetores ou certificados estrangeiros de democracia. Nossa soberania não está à venda, não depende de pareceres produzidos em Washington e muito menos de relatórios redigidos em salas refrigeradas de Wall Street.
Os brasileiros têm o direito de escolher seus governantes sem interferências externas, sejam elas diplomáticas, financeiras ou ideológicas. A urna pertence ao eleitor brasileiro, e somente a ele.
Aos que ainda acreditam que podem orientar os destinos de outras nações a partir de seus próprios interesses, resta uma lembrança que atravessou gerações e continua surpreendentemente atual: YANKEES, GO HOME.