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Opinião Pública

O diploma é necessário; talento também!

Marcelo Rossoni

Marcelo Rossoni

Jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

27/08/2026

Entrei no jornalismo em 1968, numa época em que a profissão era muito diferente daquela que conhecemos hoje. As redações eram, em grande medida, as verdadeiras escolas de formação dos jornalistas. Aprendia-se observando os mais experientes, acompanhando repórteres, enfrentando a máquina de escrever, ouvindo as broncas dos editores e descobrindo, algumas vezes de maneira dolorosa, que uma palavra mal escolhida poderia comprometer uma informação inteira.

No Espírito Santo não havia curso superior de Comunicação. Portanto, para quem desejava seguir o jornalismo por estas bandas, praticamente não existia a alternativa acadêmica. O caminho natural era entrar numa redação e aprender o ofício trabalhando.

Mesmo que houvesse o curso, provavelmente eu teria encontrado dificuldades para conciliá-lo com o trabalho. A universidade pública funcionava — e durante muito tempo continuou funcionando — com disciplinas distribuídas em horários diversos, nem sempre compatíveis com a rotina de quem precisava trabalhar todos os dias. Era quase necessário que o estudante estivesse à disposição da grade universitária, quando muitos precisavam exatamente do contrário: que a universidade pudesse conviver com a realidade de quem trabalhava.

Foi nessas circunstâncias que me tornei jornalista profissional. E digo isso com muito orgulho.

Mas o orgulho da própria trajetória não deve ser confundido com resistência ao conhecimento. Depois de décadas de profissão, não tenho dificuldade alguma em reconhecer que, se tivesse cursado uma boa faculdade de Comunicação, provavelmente teria me tornado um profissional melhor.

Essa constatação talvez surpreenda aqueles que imaginam existir uma disputa entre os jornalistas formados nas redações e os formados nas universidades. Não deveria existir. Uma experiência não precisa negar a outra.

Por isso sou favorável à exigência da formação superior para o exercício profissional do jornalismo.

A universidade não ensina apenas a escrever uma notícia. Pelo menos não deveria. Ela oferece ao futuro jornalista instrumentos para compreender a sociedade sobre a qual irá escrever. História da imprensa, ética, legislação, teoria da comunicação, sociologia, filosofia, economia, política e semiótica ajudam a formar uma visão mais ampla da enorme responsabilidade existente por trás de uma reportagem.

O jornalista não trabalha simplesmente com palavras. Trabalha com reputações, interesses, versões, conflitos e fatos capazes de interferir na vida das pessoas. Uma manchete pode valorizar ou destruir uma imagem. Uma palavra pode ampliar ou diminuir a dimensão de um acontecimento. Uma informação publicada sem a necessária verificação pode provocar consequências impossíveis de reparar.

É muita responsabilidade imaginar que apenas saber escrever seja suficiente.

A formação acadêmica também ajuda o profissional a compreender mecanismos que, no cotidiano acelerado das redações, muitas vezes passam despercebidos. A escolha de uma fotografia, a construção de uma manchete, a posição de uma informação no texto e até determinado adjetivo carregam significados. Nada disso é completamente inocente.

Mas seria ingenuidade imaginar que quatro anos numa universidade sejam capazes, por si sós, de produzir um jornalista.

Não são.

O diploma comprova uma formação acadêmica. Não certifica talento.

E talvez esteja aí uma das peculiaridades mais fascinantes do jornalismo. É possível ensinar técnicas de reportagem, regras de redação, princípios éticos, métodos de investigação e teorias da comunicação. É possível explicar como estruturar uma notícia, conduzir uma entrevista ou conferir uma informação. O que nenhuma universidade conseguiu ainda descobrir foi uma disciplina capaz de ensinar curiosidade.

Também não existe cadeira universitária que distribua faro jornalístico.

Muito menos um laboratório capaz de fabricar talento.

Há pessoas que entram numa redação e parecem possuir uma espécie de radar. Onde todos enxergam um acontecimento banal, elas percebem uma história. Fazem a pergunta que ninguém pensou em fazer. Identificam a contradição escondida numa resposta aparentemente perfeita. Percebem aquilo que estava diante dos olhos de todo mundo, mas que, curiosamente, ninguém enxergou.

Outro dia tivemos no Espírito Santo um exemplo quase didático disso.

Os jornais publicaram fotografias de três postulantes ao Palácio Anchieta — Ricardo, Helder e Demuner — assinando um documento no qual se comprometiam a manter o Banestes como banco público, afastando o fantasma da privatização. A notícia era importante, estava ali e foi corretamente registrada.

Mas havia outra, bem menor, escondida na fotografia.

Os três assinaram com a mão esquerda.

Êpa!

Em tempos de uma polarização política que dividiu o país entre esquerda e direita até nas conversas de elevador, três candidatos ao governo do Espírito Santo assinando, simultaneamente, um compromisso político com a esquerda é uma imagem que merecia, no mínimo, a curiosidade de um jornalista.

Naturalmente, ser canhoto não revela ideologia. A mão com que alguém segura uma caneta jamais serviu de bússola eleitoral. E é justamente aí que mora a graça da coincidência. Enquanto a política brasileira insiste em perguntar quem está à esquerda, quem está à direita e quem tenta sobreviver no meio, Ricardo, Helder e Demuner, naquele instante, não deixaram margem para dúvidas: pelo menos diante do papel, os três foram pela esquerda.

E ninguém pareceu perceber.

O detalhe estava diante dos fotógrafos, repórteres, editores e dos doutores da Comunicação. Não exigia investigação, fonte reservada, documento sigiloso, vazamento de bastidor ou uma dessas intermináveis análises que procuram descobrir mensagens subliminares até na cor da gravata de um candidato.

Bastava olhar.

Olhei.

E aquele detalhe aparentemente insignificante acabou virando uma crônica no Vitória News.

É disso que estou falando quando me refiro ao faro jornalístico. A informação principal era, evidentemente, o compromisso dos três com a manutenção do Banestes como banco público. Qualquer profissional preparado saberia identificá-la. Mas havia uma segunda história naquela mesma cena, leve, curiosa e absolutamente inesperada; simbólica.

O leitor já sabia o que os candidatos tinham assinado.

Faltava alguém perceber como tinham assinado.

Não há manual de redação e estilo que determine ao repórter: “observe se os candidatos são canhotos”.

Também desconheço a disciplina universitária chamada “Como perceber aquilo que todo mundo viu e ninguém enxergou”.

Talvez devesse existir.

Essa capacidade de encontrar o detalhe não diminui a importância da notícia principal. Ao contrário. Acrescenta humanidade, curiosidade e sabor ao jornalismo. Algumas das melhores histórias não estão escondidas em documentos secretos ou protegidas por fontes inacessíveis. Às vezes estão escancaradas numa fotografia publicada por todo mundo.

Isso é técnica, certamente.

Mas também é sensibilidade.

E talento.

O mesmo acontece com a escrita. Duas pessoas podem receber exatamente as mesmas informações. Uma produzirá um texto correto, gramaticalmente impecável e absolutamente sem vida. A outra encontrará a frase, o ritmo e o ângulo capazes de fazer o leitor chegar ao último parágrafo.

Nenhum diploma garante essa diferença.

Mas reconhecer isso não significa diminuir a importância da universidade. Pelo contrário. O talento precisa de conhecimento para não se transformar apenas em improvisação. A intuição precisa de método. A curiosidade precisa de responsabilidade. E a liberdade de escrever precisa caminhar ao lado da consciência sobre as consequências daquilo que se publica.

Talento sem formação pode produzir grandes jornalistas, como a história da imprensa demonstrou inúmeras vezes. Mas também pode produzir erros que uma preparação mais sólida talvez evitasse. Da mesma maneira, formação sem talento pode produzir profissionais tecnicamente preparados, mas incapazes de perceber uma boa história quando ela passa diante de seus olhos — ou quando três canhotos resolvem assinar um documento diante das câmeras.

O jornalismo mudou profundamente desde aquele distante 1968 em que comecei.

A máquina de escrever desapareceu. A internet destruiu fronteiras. A notícia deixou de esperar o jornal do dia seguinte e passou a circular em segundos. Hoje um jornalista disputa a atenção do leitor com redes sociais, vídeos, influenciadores, algoritmos e uma quantidade quase infinita de informações verdadeiras, falsas ou simplesmente manipuladas.

Nesse ambiente, a formação profissional tornou-se ainda mais importante.

Quanto maior a velocidade da informação, maior deveria ser o cuidado com ela. Quanto mais fácil publicar, maior a responsabilidade de quem publica. E quanto mais difícil se tornou separar informação, opinião, propaganda e mentira, mais necessária é a presença de profissionais preparados para fazer essa distinção.

A defesa do diploma, portanto, não deve ser vista como uma tentativa de criar uma reserva corporativa. Deve ser entendida como defesa da qualificação profissional e, principalmente, da qualidade da informação oferecida à sociedade.

Minha geração aprendeu jornalismo fazendo jornalismo. Tivemos grandes mestres dentro das redações e carregamos conosco lições que universidade alguma poderia substituir. Mas isso não me impede de reconhecer aquilo que uma formação acadêmica poderia ter acrescentado à minha própria trajetória.

Continuo tendo orgulho de ser jornalista profissional. Talvez exatamente por isso considere importante defender uma formação cada vez melhor para aqueles que escolherem essa profissão.

A universidade oferece conhecimento. A redação oferece experiência. O tempo oferece maturidade.

O diploma é necessário, mas não substitui o talento.

E o talento?

Esse continua sendo o único diploma que nenhuma universidade conseguiu imprimir.


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